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Sandra Crespo -
Tenho visto aqui e ali avaliações de que a esquerda não foi para o 2º turno no Rio tão somente por causa da sua desunião - fato demonstrado sobretudo pelas candidaturas de Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT). Eu acho que a situação é mais complexa do que isso. Pois, se fosse assim tão preto no branco, Guilherme Boulos (PSol) não estaria no 2º turno em São Paulo - onde, no campo progressista, houve candidaturas também de PT e PCdoB.
Porém, concordo que, se tivesse havido a aliança entre PSol, PT, PCdoB e o PSB de Alessandro Molon em torno de Marcelo Freixo, acredito que agora Crivella já estaria se despedindo da prefeitura do Rio de Janeiro.
Vamos por partes. Primeiro, Martha Rocha não era uma candidata propriamente de esquerda. Tem um perfil mais de centro, e atrai um eleitorado tal e qual. De esquerda mesmo são apenas os brizolistas, que hoje infelizmente minguam a olhos vistos.
Já Benedita foi a grande surpresa desta eleição no Rio, pois, a despeito da feroz campanha de destruição do PT ao longo dos últimos anos - especialmente no Rio - mostrou uma força que pode revigorar o partido na cidade, inclusive atraindo outros quadros de esquerda para a legenda.
É importante ressaltar que o processo de desconstrução do PT a partir dos estranhos protestos de 2013, e sobretudo com o advento da Lava Jato, foi mais corrosivo no Rio de Janeiro. Afinal, Lula e Dilma eram aliados do super condenado Sérgio Cabral, que ora é responsabilizado – justa, e em alguns casos, injustamente - por quase todos os terríveis problemas que ferem de morte a cidade.
Muitos cariocas, então, perdidos neste mar de lama, sangue, suor e lágrimas que levou à cadeia governadores, secretários e parlamentares, não conseguem mais separar o joio do trigo. A situação se agrava quando lembramos que Lula também foi preso. O massacre diuturno comandado por Moro e Dallagnol - e amplificado por boa parte da imprensa - foi devastador. E hoje poucos se lembram de que os governos petistas foram pródigos em liberar recursos para grandes obras na cidade do Rio.
Todas essas variáveis, somadas ao poder das igrejas neopentecostais sobre a população mais vulnerável, só podem dar em desastre. Sem contar a influência do nefasto ocupante do Planalto, a despeito de sua crescente rejeição pelos cariocas - atualmente de 48%.
Voltemos então ao ponto de partida desta reflexão, que é a fragmentação da esquerda neste pleito. Ainda em 2019, Freixo defendeu a união desses partidos, e assim começaram as articulações. Com o PT, a conversa avançou, desenhando uma chapa com Benedita para vice. Aí veio o fogo amigo. Setores do PSol vetaram a aliança, fazendo com que Freixo desistisse da candidatura. Então o PSol lançou a deputada estadual Renata Souza, pouco conhecida para uma disputa majoritária, e o PT saiu com Benedita.
Neste final de 1º turno, o terceiro lugar na corrida ainda era incerto na véspera da eleição. Tanto os apoiadores de Martha quanto os de Benedita apostavam na ida de sua candidata ao 2º turno, atropelando Crivella. Na noite de sábado (14/11), a pesquisa Ibope mostrava uma ligeira oscilação positiva para a candidata do PT - mas isso não foi suficiente para tirar o bispo do tabuleiro.
Agora então temos a disputa entre Eduardo Paes (DEM) e Crivella (Rep - ou Rip?), na qual já sabemos que Martha anunciou "neutralidade”.
Além da acachapante rejeição de Crivella na cidade (62%), Eduardo Paes tem como trunfo o respeito de muita gente, que reconhece várias realizações de sua gestão. Somada a isso há tendência de apoio significativo do campo progressista, que não aguenta mais a pauta obscurantista do bispo, nem tampouco ver as ruas da cidade entregues às baratas, mesmo nos bairros da Zona Sul. (Quem não se lembra do “choque de ordem” vigente na era Paes, com novidades como calçadas e areias limpas, lixeiras nas esquinas? E do apoio à cultura e às artes?).
Antes que me digam “peraí, mas e a população mais pobre?”. De fato, não acho que esse segmento teve prioridade nos governos de Paes. Por isso, seria interessante que, em busca dos votos mais progressistas, o ex-prefeito possa humildemente estar aberto a propostas que façam a diferença para a maioria da população do Rio, que sofre demais com as precárias condições de saúde, habitação, segurança e transporte, entre outras.
Não escondo a minha simpatia pelas gestões de Eduardo Paes, guardados os poréns mencionados acima. E também não vejo a hora de o Rio voltar a ser o Rio. Sem pauta de costumes; sem “fala com a Márcia” para furar filas de cirurgias; sem pastores no palácio; sem milícia em porta de hospital para impedir o povo de reclamar; sem indiferença em relação ao meio ambiente.
Acho que o Rio nunca sofreu tanto. Os moradores desta cidade precisam voltar a ter esperança. E também a alegria de ver o prefeito voltando a entregar ao Rei Momo a chave da cidade no próximo Carnaval. Que virá depois da vacina.
Em tempo: Muitas pessoas estão chamando os cariocas de “burros”, mas essa ofensa bastante agressiva não foi dirigida aos paulistanos em 2016, quando Fernando Haddad perdeu para João Dória - que foi eleito no 1º turno. Será por quê?
Criado em 2020-11-16 21:28:27
Zuleica Porto –
“Tudo o que temos somos nós mesmos. Mesmo isolados, precisamos nos aproximar dos outros e construir a maior resistência possível, porque tudo está em risco”. (N. Klein)
Que lutas cabem aos movimentos de esquerda durante a pandemia de Covid-9? E o que fazer depois?
Para refletir sobre estas questões, a Rising Majority - coletivo que surgiu em 2017 e que engloba organizações e movimentos de vários setores na busca de construir uma esquerda comprometida com a democracia radical, anticapitalista e antirracista – realizou, em 2 de abril, o debate online agora publicado pela Editora Boitempo.
O encontro discutiu os rumos da globalização durante e após a pandemia de Covid-19 e como a doença atinge principalmente os pobres, os negros e as mulheres ao redor do mundo. Além de Angela Davis e Naomi Klein, a conversa, mediada por Thenjiwe McHarris, contou com a participação dos ativistas Cindy Wiesner, Maurice Mitchell e Loan Tran.
Sobre a relação entre a pandemia e as falhas do capitalismo atual, e quais as ameaças contidas nas soluções propostas pelo “capitalismo do desastre”, Klein aponta que o capitalismo é o desastre, pois a pandemia é resultado da guerra contra a natureza, possibilitando a migração do vírus de animais selvagens para o nosso organismo. Assim como o Covid-19 ataca sistemas imunológicos enfraquecidos, diz que o sistema econômico capitalista enfraqueceu nosso sistema imunológico coletivo.
“Degradou os sistemas de saúde públicos, privilegiou os sistemas privados lucrativos, propiciou as condições em que os trabalhadores são considerados descartáveis e favoreceu a destruição ambiental para o fortalecimento do lucro”, resume. Naomi aponta ainda os ataques à democracia, com as manobras autoritárias do húngaro Victor Orban, do estadunidense Donald Trump, do israelense Netanyahu e do infelizmente brasileiro Jair Bolsonaro.
Angela Davis destaca a importância da conexão entre as pessoas que se sentem sozinhas durante o isolamento social como forma de fortalecimento e energização mútuas, principalmente para as populações mais vulneráveis, como o povo palestino e outros sujeitos a formas de repressão. E ressalta a importância da luta abolicionista voltada para a população carcerária, inclusive os imigrantes, para quem o confinamento “pode ser equivalente a uma sentença de morte”. Desencarceramento, diz ela, é uma importante estratégia abolicionista, não apenas para os que estão atrás das grades, mas pela saúde de todos.
Numa situação inversa, mas igualmente precária, está quem não tem outro local para se abrigar a não ser a rua. Como brasileira, penso imediatamente na numerosa população sem-teto de nossas cidades, largada ao frio, à chuva, à violência urbana, sem comida nem condições mínimas de higiene. A que milhares de distância se encontram essas pessoas de qualquer conexão com o outro, que na maioria das vezes sequer as considera suas semelhantes!
Diante deste panorama de desigualdade e injustiça, o que nos cabe fazer? Klein aponta que, quando o capitalismo produz suas próprias crises e tais injustiças são expostas ao mundo, é criada uma grande oportunidade para a esquerda. Neste momento, ela diz, eles (os capitalistas) têm medo de impormos nossas exigências, como as prisões vazias e moradias para todos. “É hora de dizer: se as grandes empresas, que controlam as atividades mais poluentes do planeta, companhias de gás, de petróleo, fábricas de automóveis, companhias aéreas, estão pedindo socorro, isso tudo nos permite assumir a propriedade desses setores, que estão em guerra contra a vida na Terra, e cuidar dos seus trabalhadores”, abrindo a porta da transformação radical pelo maior tempo possível. Lembra que a crise econômica global de 2008 levou as pessoas a ocuparem as praças e daí surgiu o Podemos na Espanha (hoje Unidas Podemos, no governo em coalisão com o PSOE).
É o momento, diz Klein, da classe trabalhadora que está na linha de frente no combate ao vírus, seja na prestação de serviços, nas funções de cuidados da Saúde ou como produtora e distribuidora de alimentos, dar-se conta de sua importância para manter o mundo girando. E cabe a nós, da esquerda, apoiar esses trabalhadores de todas as formas possíveis.
Para Angela Davis, o racismo, a falta de moradia, as prisões, bem como as questões de trabalho precário nas linhas de frente no combate ao vírus são todas questões feministas. Domésticas que perderam o emprego, cuidadoras de idosos, vítimas da violência de gênero ou de abuso infantil confinadas com seus abusadores, também são questões feministas, acrescenta.
E o que está por vir?
Para Cindy Wiesner, ativista da Grassroots Global Justice, ou quebramos o neoliberalismo global ou deixamos para a direita a oportunidade de impor um futuro de autoritarismo e fascismo. “Ou imaginamos a reorganização da sociedade em nível global, ou veremos aumentos da repressão, militarização e perda de direitos”. Temos ainda, lembra, que nos posicionar contra a guerra, pelo fim das invasões territoriais e das sanções a países como Cuba, Venezuela, Irã, Coreia do Norte, Palestina e Zimbabue. E de analisar as oportunidades que os movimentos sociais apresentam na produção alternativa de alimentos, que contribui para o equilíbrio climático. De defender uma economia feminista e regenerativa capaz de salvar o planeta, em oposição ao sistema capitalista, colonialista, patriarcal e racista imposto por Trump, Bolsonaro e outros.
É hora de lembrarmos, nós brasileiros, a atuação do MST não só na produção de alimentos orgânicos para a comercialização, como também na sua distribuição para a população carente das periferias de nossas cidades neste momento de pandemia e de ausência de políticas públicas de amparo aos mais vulneráveis. Sem esquecer a luta constante do MTST na construção de moradias para a população sem-teto.
Os aspectos relativos às campanhas eleitorais dos partidos de esquerda foram abordados por Maurice Mitchell, do Working Families Party. A principal adaptação necessária por parte dos movimentos organizados foi a necessidade de abandonar o contato pessoal, desde as conversas cara a cara, porta a porta, aos grandes comícios, devido à necessidade do isolamento social para evitar o contágio.
Mitchell destaca como estratégias de mobilização neste momento o engajamento em todos os meios de comunicação, os telefonemas, as mensagens de texto e os contatos virtuais (as lives tão populares no Brasil atualmente, por exemplo). Além disso, recursos como o uso de cores nas portas e janelas, as vozes, as músicas, as panelas. E daqui do meu canto faço a pergunta: por que cessaram os panelaços e gritos no Brasil, logo agora que a ofensiva fascista cresce em ousadia?
Mas voltando às reflexões de Mitchell, ele diz que a lógica do capitalismo neoliberal perdeu o sentido, mas que farão o necessário para sustentar o sistema, ainda que seja propiciar subsídios a algumas pessoas (lembremos os nossos magros seiscentos reais). Ele também ressalta a importância dos movimentos sociais, e das pessoas provenientes desses movimentos no panorama eleitoral, concorrendo a cargos políticos. “Os trabalhadores devem conquistar todos os níveis de poder – eles simplesmente não possuem nenhuma outra ferramenta a não ser as ferramentas eleitorais”. Acrescenta que as eleições não são a única estratégia do momento. Greves de trabalhadores essenciais como entregadores de comida e produtos, recusa de pagar os aluguéis e hipotecas são outras ações possíveis, além da ajuda mútua, que tem crescido muito (inclusive no Brasil, é importante lembrarmos). São manifestações “inspiradoras e acalentadoras para quem precisa desesperadamente delas”, diz, para que a democracia continue e a sociedade civil floresça.
Lembra Mitchell que o tempo é frágil e incerto e que os autoritários de todo o mundo seguirão uns aos outros, e este não é o momento para as pessoas da esquerda falarem apenas com a própria esquerda. Considera-o como uma oportunidade para as soluções de esquerda inspirarem todo um país.
Representando o Southern Vision Alliance, Loan Tan destacou o discurso anti-asiático que acompanhou o surgimento da pandemia como uma manifestação do capitalismo racial que tem como alicerce a supremacia branca. Atinge igualmente negros, muçulmanos, pardos e indígenas. “A culpa não é do povo asiático, nem dos negros, dos migrantes, das mulheres nem da classe trabalhadora”. E resume: o Sars-Cov-2 é o vírus; o capitalismo, a crise e nossa organização e solidariedade são a resposta.
Para finalizar, Klein lembra o poder transformador de uma crise com a experiência argentina de 2001, quando a falência, e o abandono das fábricas pelos empresários, possibilitou a reconstrução a partir dos escombros, quando elas foram ocupadas pelos trabalhadores e transformadas em cooperativas. Haverá novamente o colapso das pequenas empresas. A organização digital é outro ponto a levar em conta, pois ela lembra que o direito à internet, que é um bem público, está nas mãos de poucas empresas. “Precisamos nos encontrar sem a permissão de Mark Zuckerberg”. E Davis apontou a obsolescência do estado-nação como uma oportunidade para criarmos uma organização duradoura rumo a um futuro melhor.
Com estas palavras alentadoras da mediadora Tenjiwe McHarris encerrou-se a conversa: “Nossa cura é a comunidade, é o amor. O que nos ajudará nestes tempos é saber quão poderosos somos”.
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Serviço:
Livro: Construindo movimentos – uma conversa em tempos de pandemia
Autores: Angela Davis, Naomi Klein e outros
Tradução: Leonardo Martins
Editora: Boitempo, 2020.
Criado em 2020-05-28 19:25:02
Sabiá-do-campo (Mimus saturninus): Possui vasto repertório de cantos, que inclui imitações de outras espécies
Mede 26 centímetros e pesa em torno de 73 gramas. É uma ave famosa por seu vasto repertório de cantos, que inclui imitações de outras espécies. A listra superciliar branca, destacada pela faixa negra na altura dos olhos é uma característica importante para identificação. Alimenta-se de formigas, cupins e besouros, mas também gosta de laranja e abacate. O ninho tem o formato de uma tigela rasa e é feito com gravetos secos e grama, sobre árvores ou arbustos. Às vezes, pode chocar ovos de outros pássaros. Anda pelos campos e cerrados ou parques e terrenos baldios de cidades geralmente em bandos. Tem a ocorrência nas regiões campestres do baixo Amazonas, através do Brasil central, Nordeste, Leste e Sul at&eac ute; o Uruguai, Paraguai, Argentina e Bolívia. Fonte: Wikiaves. Registro feito em 01.12.2014, no Parque da Cidade.

Criado em 2016-11-24 01:56:17
Capítulo I - Do direito à informação
Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange seu o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação.
Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I - a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica - se pública, estatal ou privada - e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II - a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV - a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, é uma obrigação social.
V - a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.
Capítulo II - Da conduta profissional do jornalista
Art. 3º O exercício da profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, estando sempre subordinado ao presente Código de Ética.
Art. 4º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação.
Art. 5º É direito do jornalista resguardar o sigilo da fonte.
Art. 6º É dever do jornalista:
I - opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;
II - divulgar os fatos e as informações de interesse público;
III - lutar pela liberdade de pensamento e de expressão;
IV - defender o livre exercício da profissão;
V - valorizar, honrar e dignificar a profissão;
VI - não colocar em risco a integridade das fontes e dos profissionais com quem trabalha;
VII - combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação;
VIII - respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
IX - respeitar o direito autoral e intelectual do jornalista em todas as suas formas;
X - defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito;
XI - defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;
XII - respeitar as entidades representativas e democráticas da categoria;
XIII - denunciar as práticas de assédio moral no trabalho às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética competente;
XIV - combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza.
Art. 7º O jornalista não pode:
I - aceitar ou oferecer trabalho remunerado em desacordo com o piso salarial, a carga horária legal ou tabela fixada por sua entidade de classe, nem contribuir ativa ou passivamente para a precarização das condições de trabalho;
II - submeter-se a diretrizes contrárias à precisa apuração dos acontecimentos e à correta divulgação da informação;
III - impedir a manifestação de opiniões divergentes ou o livre debate de idéias;
IV - expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais;
V - usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;
VI - realizar cobertura jornalística para o meio de comunicação em que trabalha sobre organizações públicas, privadas ou não-governamentais, da qual seja assessor, empregado, prestador de serviço ou proprietário, nem utilizar o referido veículo para defender os interesses dessas instituições ou de autoridades a elas relacionadas;
VII - permitir o exercício da profissão por pessoas não-habilitadas;
VIII - assumir a responsabilidade por publicações, imagens e textos de cuja produção não tenha participado;
IX - valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais.
Capítulo III - Da responsabilidade profissional do jornalista
Art. 8º O jornalista é responsável por toda a informação que divulga, desde que seu trabalho não tenha sido alterado por terceiros, caso em que a responsabilidade pela alteração será de seu autor.
Art. 9º A presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.
Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade.
Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:
I - visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica;
II - de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes;
III - obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração;
Art. 12. O jornalista deve:
I - ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas;
II - buscar provas que fundamentem as informações de interesse público;
III - tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar;
IV - informar claramente à sociedade quando suas matérias tiverem caráter publicitário ou decorrerem de patrocínios ou promoções;
V - rejeitar alterações nas imagens captadas que deturpem a realidade, sempre informando ao público o eventual uso de recursos de fotomontagem, edição de imagem, reconstituição de áudio ou quaisquer outras manipulações;
VI - promover a retificação das informações que se revelem falsas ou inexatas e defender o direito de resposta às pessoas ou organizações envolvidas ou mencionadas em matérias de sua autoria ou por cuja publicação foi o responsável;
VII - defender a soberania nacional em seus aspectos político, econômico, social e cultural;
VIII - preservar a língua e a cultura do Brasil, respeitando a diversidade e as identidades culturais;
IX - manter relações de respeito e solidariedade no ambiente de trabalho;
X - prestar solidariedade aos colegas que sofrem perseguição ou agressão em conseqüência de sua atividade profissional.
Capítulo IV - Das relações profissionais
Art. 13. A cláusula de consciência é um direito do jornalista, podendo o profissional se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios deste Código de Ética ou que agridam as suas convicções.
Parágrafo único. Esta disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para que o jornalista deixe de ouvir pessoas com opiniões divergentes das suas.
Art. 14. O jornalista não deve:
I - acumular funções jornalísticas ou obrigar outro profissional a fazê-lo, quando isso implicar substituição ou supressão de cargos na mesma empresa. Quando, por razões justificadas, vier a exercer mais de uma função na mesma empresa, o jornalista deve receber a remuneração correspondente ao trabalho extra;
II - ameaçar, intimidar ou praticar assédio moral e/ou sexual contra outro profissional, devendo denunciar tais práticas à comissão de ética competente;
III - criar empecilho à legítima e democrática organização da categoria.
Capítulo V - Da aplicação do Código de Ética e disposições finais
Art. 15. As transgressões ao presente Código de Ética serão apuradas, apreciadas e julgadas pelas comissões de ética dos sindicatos e, em segunda instância, pela Comissão Nacional de Ética.
§ 1º As referidas comissões serão constituídas por cinco membros.
§ 2º As comissões de ética são órgãos independentes, eleitas por voto direto, secreto e universal dos jornalistas. Serão escolhidas junto com as direções dos sindicatos e da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), respectivamente. Terão mandatos coincidentes, porém serão votadas em processo separado e não possuirão vínculo com os cargos daquelas diretorias.
§ 3º A Comissão Nacional de Ética será responsável pela elaboração de seu regimento interno e, ouvidos os sindicatos, do regimento interno das comissões de ética dos sindicatos.
Art. 16. Compete à Comissão Nacional de Ética:
I - julgar, em segunda e última instância, os recursos contra decisões de competência das comissões de ética dos sindicatos;
II - tomar iniciativa referente a questões de âmbito nacional que firam a ética jornalística;
III - fazer denúncias públicas sobre casos de desrespeito aos princípios deste Código;
IV - receber representação de competência da primeira instância quando ali houver incompatibilidade ou impedimento legal e em casos especiais definidos no Regimento Interno;
V - processar e julgar, originariamente, denúncias de transgressão ao Código de Ética cometidas por jornalistas integrantes da diretoria e do Conselho Fiscal da FENAJ, da Comissão Nacional de Ética e das comissões de ética dos sindicatos;
VI - recomendar à diretoria da FENAJ o encaminhamento ao Ministério Público dos casos em que a violação ao Código de Ética também possa configurar crime, contravenção ou dano à categoria ou à coletividade.
Art. 17. Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.
Parágrafo único - Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.
Art. 18. O exercício da representação de modo abusivo, temerário, de má-fé, com notória intenção de prejudicar o representado, sujeita o autor à advertência pública e às punições previstas neste Código, sem prejuízo da remessa do caso ao Ministério Público.
Art. 19. Qualquer modificação neste Código só poderá ser feita em congresso nacional de jornalistas mediante proposta subscrita por, no mínimo, dez delegações representantes de sindicatos de jornalistas.
Vitória, 04 de agosto de 2007.
Federação Nacional dos Jornalistas
Criado em 2016-07-20 21:48:12
Maria Lucia Verdi –
Foi selecionado entre 151 longas-metragens, um de seis, o Acaso, instigante filme brasiliense dirigido por Luiz Jungmann Girafa, arquiteto, artista plástico e fotógrafo, diretor de dois curtas-metragens. Há cinco anos Girafa nos chamou para uma reunião na qual ele expôs sua ideia: personagens caminham por uma rua, numa cidade que só identifica quem conhece, uma cidade qualquer, cada um deles com sua questão, sua loucura, sua condição.
O cenário de ENIGMA (posteriormente ACASO) seria a W3, com sua decadência e seus grafites, sem o emblemático céu de Brasília, espaço que Girafa fotografa obsessivamente há décadas.
O filme não teria script, nem verba e cachê, um filme entre amigos, um filme que contasse breves histórias, oportuno num momento em que narrar histórias de vida é tão importante. O diretor confiaria na sua intuição e na bagagem de todos, que improvisariam a fala dos personagens que criassem.
Cinco anos depois, comemoramos a seleção para o 54º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e vimos o filme juntos. Alegria e emoção positiva tem faltado, foi uma catarse. Brindamos por uma aventura bem-sucedida, um filme originalíssimo, composto por fragmentos, onde cada take é uma beleza e cada ator celebra a arte de interpretar livremente.
Os atores são a nata do teatro, cinema e da música brasiliense, sendo o saudoso Andrade Júnior, os incríveis Hugo Rodas e João Antônio as estrelas mais antigas. Mas além deles estão Bidô Galvão, Celso Araújo, Carmen Moretzsohn, Kuka Escosteguy, Luciano Porto, Renato Matos, Gaivota Naves, Suyan de Mattos, Jorge Du Pan, Rachel Mendes, Emanuel Lavor, Walter Colton, Clara Luz, Valéria Pena-Costa e Eliana Carneiro e Jorge Crespo em participação especial - todas e todos com atuações marcantes.


Fui convidada para escrever um texto poético sobre um filme imaginário e quando, após o filme editado, burilei o texto e propus ao Diretor que substituísse o texto (que se escuta em off), ele negou, dizendo que um dos méritos do texto era ter sido feito sem que se conhecesse o produto final, uma estética que norteia a poética do a\Acaso. Escrevi textos para alguns dos personagens, mas o material foi incorporado e transformado por cada um dos atores e todas as falas improvisadas, com exceção de algumas das ditas por Luciano Porto.
O produto final é um filme provocador, comovedor e divertido, que resultou num caleidoscópio de temas atuais, trazidos por personagens que retratam seres banais, que vemos ao nosso entorno, numa W3-Estrada da vida, com seus desafios e contrastes.
Nos cenários escolhidos criteriosamente pelo olhar do Diretor, de Ana Cristina Campos, produtora e Diretora de Fotografia e da artista Valéria Pena-Costa, se desenvolvem cenas criadas a partir de um esboço, com exceção do personagem de Celso Araújo, que traz textos seus consolidados e faz um contraponto teatral às atuações dos demais.
Um filme onde a Fotografia é protagonista maior, a começar pelas fotografias de cena de Márcio Borsoi que acompanham os créditos iniciais, e pelas dos créditos finais, feitas por José Roberto Basul e Rinaldo Morelli. A beleza possível na decadência, a graça da arte de rua, as estruturas geométricas recortadas, “anti ícone da modernidade”, nas palavras do produtor Renato Cunha, são palco inusitado (e perfeito) para as histórias que compõem o filme. São primorosas a montagem de Juana Salama e a trilha sonora de André Luiz Oliveira e Zepedro Gollo.
“A continuidade das ideias\ é o fluir da centelha”, diz a música que encerra esse filme cheio de ideias, que até me parece colocar em causa o que é o cinema, para onde vai o cinema. Com uma poética muito própria, muito brasiliense no que Brasília tem de louca e racional, de decadente e futurista, de mística e política. Como um enigma, título inicial de Acaso, o filme deixa fluir os acasos e se faz filme, filme que traz uma proposta diversa frente ao que se vê na produção nacional.
Acaso nasceu despretensioso e termina sendo intenso e representativo desses últimos anos. Não há tema contemporâneo que não seja tratado, com exceção das trágicas mazelas da eleição do não-presidente e da pandemia, pois foi filmado há cinco anos. E o tratamento desses temas sérios – exclusão, solidão, loucura – é feito a partir de micronarrativas inspiradas, que revelam o que se sabe e tantas vezes se esquece: a vida é feita de contrastes e paradoxos e o melhor que podemos fazer é não a levar a sério demais, como há muito ensinam os mestres Zen.

Acompanhe a programação completa aqui:
https://festcinebrasilia.com.br/programacao/
Criado em 2021-12-10 03:13:01
Angélica Torres (*) –
Pense: por que jornalistas da mídia independente não são convidados a participar dos debates eleitorais, que o monopólio da mídia corporativa organiza (e imitando, sempre imitando, os norte-americanos)? Por que são ignorados influencers, como, por exemplo, vá lá, um Felipe Neto?
Vão dizer, “claro, não querem concorrência com o novo que chega abalando sua tradição de o dono do pedaço”. Mas então por que, e como, são escolhidos os repórteres que vão formular perguntas e que não trabalham na empresa que aparelha o programa?... Isso, valendo também para alguns outros programas de entrevistas.
Mais: e com base em quê essas TVs da grande mídia acham assim tão importante, que, às vésperas das eleições, ocorram esses debates, vazios, que nada acrescentam ao público sobre os candidatos, pelo formato em si e pelo tempo escasso para se colocarem? Pra que esse espetáculo de horrores, que envergonha e humilha, enfurece e estressa tantos eleitores – que dirá o candidato de maior aceitação nas pesquisas?
Perguntinhas ingênuas, estas? E é ingênua essa grande mídia, servil ao grande capital, como são também pueris as perguntas que seus repórteres dirigem aos candidatos? Reflitamos se são obrigados a dar uma de joão-sem-braço, ou se seriam gado manso, treinados para serem assim cordatos aos patrões, por medo de perderem seus empregos? Uma amiga inteligente, curiosa, ativista, aflita, me disse ontem estar notando que todos os veículos estão colaborando para que o “bolsonero” ultrapasse o Lula.
"Há uma semana observo atentamente a publicidade gratuita e obrigatória em diversas rádios, privadas e públicas; todas cortam as partes finais do Lula, onde ele pede que votem no 13. Isso deve ser um acordo secreto”, disse ela.
Respondi que não é secreto, mas escancarado. A primeira verdade que se aprende nas boas faculdades de Comunicação, em disciplinas como Jornalismo Comparado, é o conluio dos donos do conglomerado da grande mídia com o alto empresariado. – Quem como você faz a análise comparativa por observação, flagra, enfatizei.
Ingênuos?? – De modo que não dá pra sermos ingênuos, nem como jornalistas nem como cidadãos. O complô tem estado às claras na nossa cara, não é preciso mais silenciar a imprensa, como fizeram os militares da ditadura, durante os anos de 1964 a 1985. O autoritarismo evoluiu...
A mídia atual é um dos cinco pilares, junto com o parlamentar, o judiciário, o policial e o empresarial, que sustentaram o golpe ao governo Dilma e à candidatura do ex-presidente Lula, comandado por Michel Temer, Eduardo Cunha e similares, “com o Supremo, com tudo”, nas eleições de 2018 que levaram Jair Bolsonaro ao poder. Lembram-se?
Quem ainda insiste em acreditar que isso é “conspiracionismo” da esquerda?
Ora, e o modelito também é importado (melhor: imposto, como também foi a ditadura de quase meio século atrás): está disponível no youtube o documentário "Como iniciar uma revolução" (de 2012), sobre o gênio do mal Gene Sharp, autor dessa estratégia, que cooptou inúmeros países para atender, ou continuar atendendo, como no caso do Brasil, aos interesses dos Estados Unidos.
Reportagem de uma jornalista do Washington Post circula nas redes, via portal do independente DCM, sobre a parvoíce dos repórteres americanos durante a cobertura da campanha e do governo Trump, lamentando a realidade de sua possível volta às próximas eleições. Não deveríamos precisar de conselhos do gênero. Não vivemos tempos de paz, quando todos os tons são de cinza, mas tempos de preto e branco, tempos de guerra, da extrema direita contra a esquerda e a antiga direita, os contrastes são visíveis e cada vez mais ameaçadores.
Os de nítidos juízo e raciocínio, temos sim de tomar partido, de abrir os olhos e de, sem medo, nos engajar. Quando, às vésperas das eleições, as grandes emissoras de TV cismam de isoladamente convencer os diretores de campanha a levar seus candidatos para (se) debaterem, e o que se assiste são ataques caluniosos do candidato-algoritmo ao virtual favorito, é de graça, é de bobeira, o show? Não há algo por trás e os jornalistas, ali, fazendo o trágico papel de traíra de seu próprio país?
E quando o candidato favorito nas pesquisas se comporta de forma cortês, sem reagir à altura nem enfrentar às provocações de seu adversário-inimigo, vemos que enorme parte da torcida não aceita mais bola na trave e nem fora do campo de batalha. A plateia espera vigor da parte do candidato Lula, até porque ele não poderá, mesmo, contar com passes de bola, por parte dos que promovem a empreitada.
Caro Presidente Lula, ninguém quer que o senhor perca a sua elegância, a diplomacia, a antológica habilidade em se desvencilhar das baixezas com que tentam lhe atingir os seus inimigos. Mas ninguém tem todas as cartas na mão para comandar o jogo que o senhor, sem precisar repetir exaustivamente o que sabemos dos seus feitos no país e que quer voltar disposto a fazer ainda melhor, agora. Vê, não seria o caso de ensinar “Ave Maria” a Papa, é apenas uma respeitosa sugestão. Ouço a sua voz com a inflexão no tom que ninguém mais que o senhor sabe a exata impostação:
“Ô Bolsonaro, quem é você pra me taxar de corrupto, se dê ao respeito que o cargo máximo lhe exige! Eu fui absolvido de todas as acusações, pelo mesmo STF que me condenou a 580 dias de prisão e você nos pasma por ainda estar nadando de braçada em seus horrores: as casas compradas com dinheiro vivo; as famosíssimas rachadinhas; suas abjetas ligações com milicianos e assassinos; o gabinete do ódio de onde você e seus filhos espalham fakenews hediondas contra mim e meu partido, bebendo na cartilha de Steve Bannon, o marqueteiro do Trump; a destruição contínua dos direitos do povo trabalhador brasileiro; as ofensas imundas que arrota diariamente contra pobres, negros, indígenas, mulheres, LGBTQ+ e jornalistas; a destruição da economia brasileira; a absoluta imoralidade de sua conduta no recente episódio com as moças venezuelanas; céus!, e o escárnio do “sigilo de 100 anos”! É uma lista sem fim de crimes cometidos e todo mundo vê, o planeta inteiro sabe e se horroriza.
Não vim a debate pra me defender de seus embustes e afrontas, respeite o povo brasileiro! Apresente propostas, se você tem alguma decente para apresentar; se não tem, vai morder a língua e morrer do seu próprio veneno, porque vou ignorá-lo e os que me assistem só vão me ouvir falar dos meus planos e do cuidado com que vou restaurar os danos que você causou ao país. Estou lhe avisando e à direção da emissora que me convidou para este programa.”
Pronto! Colocado assim, de início. Que tal? Mas lembre-se de falar também de seus projetos para o Jornalismo Independente e o Comunitário e para a Internet, esse território ainda pré-histórico, sem lei. Como importante pilar da edificação de um país, não se pode abdicar dessas prerrogativas. Então, até os próximos debates. Boa sorte!
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(*) Colunista do blog brasiliarios.com e do portal Vermelho, independentes.
Criado em 2022-10-18 22:58:57
Romário Schettino –
A democracia brasileira viveu esses mil dias de governo Bolsonaro sob intenso ataque. A artilharia bolsonarista se utilizou de todas as armas letais. Minha amiga, jornalista Memélia Moreira, prefere chamar esse período de mil e uma noites de pesadelo. Nesse filme de horror toda semana tem uma notícia fake, um desmentido, um falso recuo, uma acusação sem fundamento, xingamentos e desrespeito à Constituição.
Já se perderam o número dos crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro sem que o presidente da Câmara dos Deputados se dispusesse em abrir processo de impeachment.
Ora, não vamos perder tempo denunciando Bolsonaro para uma Câmara dominada pelo Centrão comprado a peso de ouro, na base do toma-lá-dá-cá.
Bolsonaro e seu staff trabalham sob orientação da extrema direita internacional comandada por Steve Bannon na conhecida sigla GDO (Gabinete do Ódio). É preciso reconhecer certa eficiência nessa estratégia já que Bolsonaro mantém seus 20% de aprovação apesar de todas as barbaridades cometidas aqui e lá fora.
O meio ambiente sofreu um dos piores ataques de todos os tempos. A destruição das florestas e as queimadas na Amazônia aumentaram como nunca e Bolsonaro ainda teve a coragem de ir à ONU defender o Código Florestal mais vergonhoso da história.
A CPI da Covid no Senado todos os dias descobre um viés escabroso nas relações do governo federal com empresas e empresários ligados aos problemas da pandemia. Os casos de morte pela Covid diminuíram por causa da vacinação em massa, apesar da resistência do governo em aceitar essa realidade. Pelo contrário, Bolsonaro foi à ONU defender o tratamento precoce.
Mil dias se passaram desde a posse e o Brasil não conhece um único projeto para resolver seus graves problemas sociais e econômicos. Não há proposta. Na verdade nunca houve. A única preocupação de Bolsonaro e defender seus filhos de processo na Justiça e na polícia, como no caso das famosas "rachadinhas", que envolvem o próprio presidente.
O cenário é o pior possível. Milhares de famílias atingiram a extrema pobreza nesses mil dias, os preços da gasolina, do gás, dos alimentos estão nas alturas. A inflação beira os 10% e o desemprego aumenta, ultrapassa 14%, enquanto a informalidade campeia.
A falsa terceira via – Bolsonaro é um desastre. Mas é fato que a direita e a centro-direita não sabem o que fazer diante da situação que eles próprios criaram. Preferem igualar Lula a Bolsonaro para cavar espaço para uma suposta terceira via.
A Rede Globo não engole Lula e não suporta Bolsonaro. Jamais dará espaço para Lula, esqueçam. A guerra foi declarada há muitos anos, sob o comando do suspeitíssimo juiz Sérgio Moro. Os Marinho estão cavando espaço para um candidato palatável para seus instintos neoliberais, mas ainda não encontraram nenhum até agora por mais que se esforcem.
A direita brasileira vai tentar colar em Lula a figura de extrema esquerda para contrapor à de extrema direita de Bolsonaro. Mas essa ninguém engole mais. Lula nunca foi de extrema esquerda, é um conciliador, e está na frente em todas as pesquisas até o momento.
O brasilianista John D. French, em entrevista a este site (leia aqui), define Lula como uma pessoa equilibrada. “Para as pessoas que falam muito numa polarização, eu gostaria de dizer que todo mundo sabe que o Lula não é uma pessoa que polariza. Lula é um político que trata com qualquer um, respeita seus interesses e busca encontrar soluções”.
Por isso, as forças políticas responsáveis deste país sabem que qualquer Frente Ampla só será ampla se tiver o PT no meio. Dizer nem Bolsonaro, nem Lula, é de uma burrice insuportável. Cegueira política. É obvio que a frente só faz sentido se for todos contra Bolsonaro. Nessa hora não cabe vacilo.
Num mesmo palanque Lula-FHC-Boulos-Ciro Gomes-Flávio Dino-Mandetta-Eduardo Leite-João Doria-Freixo e outros tantos pode dar a sinalização democrática direcionada para o futuro. É evidente que um encontro desse tipo não impedirá que cada um saia candidato, ou com seu candidato, no primeiro turno. A civilidade impõe esse caminho.
O próximo sábado, dia 2 de outubro, servirá como termômetro. Um grande movimento de rua dará o tom que se espera para derrubar de vez qualquer pretensão golpista de Bolsonaro. E trazer de volta a paz na terra Brasil.
Criado em 2021-09-28 01:57:45
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –
Não faz três semanas, uma amiga livreira foi avaliar a biblioteca de um professor aposentado recém-falecido na Asa Sul. De mudança para a Noruega, a filha decidiu se desfazer dos bens – móveis, livros, louças, tapetes, relógios, copinhos de cachaça, baralhos, tabuleiros e até bolinhas de gude. Desde criança, o cara tinha mania de colecionar bugigangas.
A biblioteca de três mil volumes impressionou a minha amiga, mas o que mais chamou a atenção foi a etiquetagem de quase todos os objetos na casa, desde o rodapé até o teto.
Parecia uma instalação da Bienal, diz minha amiga. Aquela infinidade de post-its coloridos grudados nas coisas, e cada coisa identificada com a fina caligrafia do professor pelo nome, às vezes por dois: ventilador (ventilador), endoll (plugue), portàtil (laptop), cable (fio elétrico), làmpada, persiana/veneciana, cadira (cadeira), butaca (poltrona), coixí (almofada), armari (armário), gerro (jarro), catifa (tapete), llibre de butxaca (brochura), llibre cartoné (livro de capa dura), maletí (pasta) pinzell (pincel), escombra (vassoura) etc.
Catalão - Será que o falecido tinha alguma “síndrome nominalista”, do tipo que o portador acha que as coisas só passam a existir depois de serem nomeadas? Nada disso, explicou a filha do professor. Poliglota, ele simplesmente etiquetava tudo para fixar o vocabulário da língua que estudava no momento. Se dedicou ao catalão nos últimos tempos.
Era fã do poeta Joan Brossa (“influenciado pelo João Cabral”, disse a filha), da cantora lírica Monserrat Caballé e dos cantores Josep Carrera, Lluís Llach e Joan Manuel Serrat, e, acreditem ou não, conhecia até a Rosalía, hype da canção pop, cinco prêmios Grammy ano passado. Em cima de uma mesa, a filha encontrou um exemplar de Mil cretins, um livro de contos de Quim Monzó, referenciado nas doenças, na crise da velhice, na morte, nessas existencialidades.
E mais, o professor achava que os post-its eram um santo remédio para prevenir o Alzheimer. Com 83 anos, dizia que é preciso exercitar o cérebro como quem pedala uma bicicleta ergométrica (bicicleta estàtica). Ele mesmo cumpria a regra, meia hora todo santo dia.
Como não tinha muitos amigos e quase já não saía de casa, o professor passou os últimos anos praticamente internado, lendo, ouvindo música, ordenando as coleções e estudando línguas. E, ao que parece, variando a cachola com filosofia.
No final da conversa, a filha do professor disse que o falecido havia desenvolvido uma teoria do post-it, em confronto com a teoria do it de Clarice Lispector.
Para relembrar, diz a pintora-narradora de Água Viva de Clarice que o it compõe a sua própria transcendência, um certo princípio de criação, algo impessoal, puro, com “o pensamento de uma ostra”. “O it vivo é Deus” e “Deus é o mundo. É o que existe”, diz a narradora em Água Viva. O ar é it, mas sem vento. O amor it é uma alegria. Em contrapartida, uma rosa já não é it, “é ela”. Também não são it nem a formiga nem a abelha. “São elas”.
Post-it - Com base nessa delicada ontologia imaginada por Clarice, o professor – sempre segundo o relato da filha para a minha amiga livreira – chegou à conclusão de que nenhum dos objetos que o cercavam eram it, à exceção, talvez, dos que ele catava durante os sonhos e alucinações. Livros, tapetes, lâmpadas, clipes, farinheiras e cigarras são “eles” e “elas”, dizia. Todas essas coisas têm nomes definidos, às vezes mais de um para dar conta de sua complexidade. Daí ser natural pespegar neles um rótulo, e mais ainda um post-it (pós-it em brasileiro), achado feliz para um conceito que engloba a existência e a essência da coisa, juntas e misturadas.
Encantado com a teoria do post-it e com todo a história ouvida por minha amiga livreira, lamentei não ter conhecido a curiosa figura. O professor deve ter sido um poço de sabedoria ou, pelo menos, de cultura dita inútil pelos ignorantes, que é a que nos dá alguma alegria nesse vale de lágrimas, ranger de dentes, ossos secos e urubus de tocaia. Bem que a gente podia ter batido uns bons papos sobre o instante-já e o instante-jamais da Clarice, a imanência do Spinoza e o procés d’independència da Catalunha, tudo com alguns dedos de Aquavit no início dos trabalhos.
Criado em 2020-02-16 12:43:15
Antônio Carlos Queiros (ACQ) - No dia 19 de abril de 1506, uma multidão de católicos fanáticos iniciou o massacre de 4 mil judeus em Lisboa - segundo cálculo o cronista da época Garcia de Resende -, acusados de causar a seca, a fome e a peste que grassavam no país.
Criado em 2023-04-19 15:54:03
Luiz Martins da Silva –
Não sou propriamente um Gastão (o primo sortudo do Pato Donald) e até hoje não faturei na Mega Sena, mas algumas chances apareceram desde cedo pelo meu caminho, uma delas, aprender a Língua de Deus e ainda ganhar uma bolsa de estudos. Estava eu, ali, pelos nove ou dez anos, quando, um dia, ao voltar da escola, ela [mamãe] me falou: “Você começa, hoje, à tarde, as aulas de latim com o Seu João (o “Seu João Sacristão”).
Àquele tempo, menino não tinha vontade. Era não, quando adulto achava, e, sim, quando adulto já tinha decidido. Fiz, pelo menos, o que me cabia, resmungar. “Pra que isso?” Porque seria bom, explicou. Por religião e por facilidades no colégio. “Não entendi!”.
– Porque vai estar mais perto de Deus e, além disso, vai ganhar uma bolsa de estudos e, assim, ajudar o seu pai nas despesas.
Fui. Eu conhecia o Seu João, mas, à distância, olhando-o lá de baixo, do corpo da Igreja. Ali, frente a frente, eu o achei muito velhinho. E um tanto rouco. Tal como eu ouvira dizer, ele sabia tudo de Igreja. Na primeira aula, nada de latim. Primeiramente, eu tinha de entender umas quantas coisas que, ao final, acabei não entendendo. Eram termos muito estranhos. Eu já desconfiava que os homens, para se aproximarem de Deus, procuram “falar difícil”. Exemplo: eu estava sendo instruído para ser “coroinha”, mas, oficialmente, ia me tornar um acólito.
E passei a compreender, desde muito cedo, que existem três andares básicos de significações. Um, o subsolo das expressões vulgares, a descida ao repertório chulo. O térreo, do tratamento corriqueiro da realidade, mas já com termos aceitáveis nos ambientes marcados pelo decoro, pela decência, mesmo ao se falar das coisas mais chãs, como as do plano fisiológico: micções, evacuações, secreções e outros ões. Havia, ainda, decorei, uma porção de “significados”, mas sem saber, exatamente, o que significavam aquelas palavras ‘difíceis’: Santa Madre, Doutrina Eclesiástica, Infalibilidade Papal etc. “Mas, não se preocupe muito”, ponderou o Seu João: “Leve este missalzinho, praticamente está tudo nele”. O livrinho, de capa preta e páginas blocadas em carmim, guardo-o ainda hoje, lembrança.
Na primeira missa que eu ‘ajudei’, o meu tutor ficou por perto, na supervisão. Fiz confusões, quase desisti. Mas, ele, sempre intervindo e sinalizando que estava tudo bem. Houve risos contidos. O próprio vigário pôs no rosto um misto de gracejo e enjoo. Era muita coisa para mim, eu mesmo fiz este julgamento, muito peso, tanto quanto o peso do missal, ou seja, muitos pesados encargos, cujos códigos estavam escritos numa escrita muito desenhada e, ao que me pareceu, numa caligrafia de leitura dificílima. Soube, depois, tratar-se de “gótico”. Ou seja, além de segredos ditos havia também os mistérios por escrito.
Não somente o missal era pesadão, mas, tanto quanto ele, a estante de madeira sobre a qual ele era aberto. Algumas coisas não faziam muita lógica. Por que o acólito tinha de transportar o missal de um lado para o outro; ora, da esquerda para a direita; ora, de novo, da direita para a esquerda; e tendo de se ajoelhar toda vez que cruzava de um lado para o outro, pois, bem ao centro, havia de se fazer uma genuflexão e uma reverência. Jamais alguém podia passar em frente ao Santíssimo sem se dobrar. Afinal, ali estava, no sacrário, o próprio Espírito Santo.
O Santíssimo, eu já sabia, era uma hóstia grandona que ficava dentro daquela urna lavrada a ouro, dia e noite guarnecida por uma luzinha vermelha, uma espécie de plantão, significando que aquela hóstia, uma vez consagrada, guardava, ali, a própria presença de Deus na Igreja. E esta era a razão da praxe da genuflexão obrigatória. Eu não tinha nada contra, pelo contrário, havia sido pautado no sentido de que tudo ali tinha um procedimento correto e necessário, pois, durante uma cerimônia religiosa, tudo devia ser conduzido com o máximo respeito, por estarmos na presença de Deus.
Eu me avaliei como não tendo chegado nem ao nível do regular, mas, o Seu João garantia que eu tinha ido muito bem. Não me pareceu que ele estivesse sendo verdadeiro. Eu tinha consciência de ter sido vexaminoso e que toda aquela pequena multidão que assistia à missa deveria ter saído comentando: Por que botar um menino de acólito, se ele mal consegue carregar um missal?
A igreja-matriz era muito antiga, mas nem tão antiga para ter aqueles livrões que pareciam vir de mil anos. Certamente, quando aquela igreja fora construída, os missais e outros volumes sagrados teriam vindo de Roma, o lugar mais sagrado e mais antigo e a própria Capital dos assuntos “canônicos”, guardados em latim e em gótico, desde que São Pedro foi convocado por Deus para “edificar” a Igreja de Cristo sobre uma pedra, exatamente onde veio a ser construída a Basílica do Vaticano.
Era muito assunto. E era por isso mesmo que um seminarista tinha de estudar muitos anos até poder ser ordenado padre. Ser ordenado, pertencer a uma Ordem. E aí estaria um peso ainda maior: a virgindade, o celibato, uma entrega exclusiva e absoluta às obrigações eclesiásticas. Obediência, Pobreza e Castidade. Eram os votos, ou seja, compromissos, juramentos etc. Eu ia, aos poucos, me acostumando ao palavreado e também à noção do quanto a igreja pedia em renúncia. Padre não podia se casar. Freira não podia se casar, a não ser com Cristo, usavam até aliança. Engraçado é que embora uma criança tenha muitos devaneios, muitos dos “chamados” da “vida religiosa” me parecerem, já àquela época, absurdos. E, sobretudo, muita inculcação de que as portas do Céu não se abrem facilmente, a não ser para os mártires e aqueles que conseguissem ‘se guardar’ absolutamente puros. Havia um culto aos seres imaculados, ou seja, sem manchas.
Lembro-me que em um dos folhetos de catecismo preparatórios da Primeira Comunhão havia desenhos de três corações: um, totalmente limpo; um segundo, preto pela metade; e um terceiro, totalmente preto. Correspondiam, respectivamente, às situações do pecador: sem pecado, pecado venial e pecado mortal. E se uma pessoa morresse em situação de pecado, iria para o Purgatório, se com pecado venial; e para o Inferno, se o coração estivesse tomado por um ou mais pecados mortais.
Era a morte dupla. A pessoa morria e depois a alma também morria e passaria a sofrer no Inferno, os mais cruéis castigos, por toda a Eternidade. Praticamente, não haveria outro destino aos pecadores, senão o do sofrimento. Purificar-se pelo sofrimento ou por uma vida de privações, dava no mesmo. Caso contrário, sofrimento eterno. Era muito sofrimento. E mesmo para se ganhar uma bolsa de estudos havia que pegar no pesado, carregar livros sagrados, decorar a língua dos rituais sagrados, jejuar antes das comunhões... E, a prosseguir na “vida religiosa”, fazer os votos de Obediência, Pobreza e Castidade.
AS NOVENAS. Se ajudar uma missa já me parecera um conjunto interminável de gestos e rituais sagrados e complexos, havia ainda, como parte do aprendizado, a parte noturna: ajudar nas novenas, rituais mais curtos do que uma missa, mas com uma tarefa igualmente importante, mas igualmente delicada. Andar de um lado para outro incensando o altar e o “celebrante” com um turíbulo cheio de brasas e incenso, de maneira a espargir muita fumaça por todo o ambiente. Desde então, compreendi que os momentos sagrados precisam de bruma. Talvez, uma reminiscência de quando Deus aparecia para os profetas, envolto em nuvem, nevoeiro, neblina, uma cortina, de fumaça que fosse e até uns trovões. Estes, substituídos por toques de campainha. Parecia-me, àquela etapa de formação da minha consciência, que os homens não tinham autorização para encarar Deus frente a frente, nem mesmo os profetas, nem mesmo os santos. Daí, a ideia de um Deus envolto em nevoeiros.
Foi um fiasco. De longe, quando o sacristão pegava o turíbulo, incensava o altar, o celebrante, o ambiente... Era tudo muito leve e fácil, balançar aquele aparelhinho, todo de prata, e espalhar umas boas baforadas daquela fumaça de aroma bastante agradável, dando batidinhas do bojo nas três correntes de sustentação. Na prática, porém, botem complicações naquilo. Primeiramente, o preparo, que era feito antes da cerimônia, na Sacristia, aquela repartição da igreja que fica na parte anterior ao Altar-Mor. Para que tudo estivesse nos conformes quando da entrada para a cerimônia, momento em que todos os fieis se levantavam.
Não me lembro bem de onde vinham as brasas, quando cheguei elas já tinham sido providenciadas, estavam dentro de um balde de metal, pesado. Havia uma colher imensa que era usada para a retirada de brasas bem escolhidas, que eram colocadas no turíbulo. Somente aí já foi uma complicação, carregar aquele instrumento quente e dispersando fagulhas. De cara, veio um medo de alguma faísca se espalhar, ir parar em cima de tanto tapete e eu acabar botando fogo na igreja.
Sempre me encorajando, Seu João Sacristão me dizia que nas primeiras vezes as coisas pareciam complicadas, mas, aos poucos, iriam se descomplicar. Eu tinha muito medo de que estivessem me preparando não somente para ser um acólito, ou seja, mero ajudante, mas para vir a substituí-lo. Eu era cristão, católico e até bem devoto, mas, daí vir a ser um homem que mais vivia dentro da igreja do que junto da própria família, era demais para as minhas pretensões. E eu, àquela altura, tão principiante da vida, ainda queria brincar mais um pouco, mesmo que não viesse a ser um bom jogador de futebol.
Foi um fiasco, volto a lembrar. O ritual com o turíbulo não consistia em tão somente pegar aquele incensador e andar de um lado para o outro incensando altar, celebrante, ambiente... Havia um momento crucial, que era levantar a parte de cima do turíbulo para que o celebrante colocasse algumas pedras do incenso, que eram uns nódulos de cera, bem duros, sobre as brasas. E era isto, precisamente, o segredo do aroma gostoso da fumaça das novenas. Acontece que, uma vez o incenso nas brasas, era necessário agitá-lo bastante para que as bolotas ficassem incandescentes. Uma vez braseiro bem formado e fumaça em boa dose, havia um rapapé bem especial, que era chegar bem de frente para o celebrante e balançar o turíbulo, com o antebraço dobrado, distribuir bastante fumaça e passar para ele, que faria o mesmo, mas em direção a toda a igreja, e em formato de cruz.
Não deu certo, eu procurava encontrar os domínios que, à distância, me pareciam tão simples. Que nada. Nada de acertar, ou mesmo de aguentar o peso do incensário. Atrapalhei-me com as correntes, brasas, bolotas, fumaceira... Não havia, nele, a leveza que eu contemplava, quando de longe, quando tudo parecia leve e diáfano. O padre balançou a cabeça e olhou para o sacristão com uma testa bem franzida. O velho saiu da retaguarda, pegou do turíbulo, e eu fiquei com cara de tacho, como se dizia, reprovado numa prova elementar, de simples ajudante de novena. Mas, pelo menos não viria a ser sacristão. Mas, e a bolsa de estudos? E como iria ajudar o meu pai a tirar um peso das costas?
Mesmo o padre já era bem velho. Havia os seminaristas, mas, esses, somente apareciam nas férias, quando vinham de Fortaleza. Eles, sim, embora jovens, eram bem desembaraçados naquelas ritualísticas. Já vinham bem treinados. Mas, ali, em igreja de sertão, eram dois velhos, padre e sacristão, em tentativas de encontrar algum menino de Cruzada Eucarística Infantil, com pais precisando de adiantar algum filho em serventias dignas de permuta com uma bolsa de estudos no ginásio paroquial.
O sacristão, bem idoso que estava, não parava de me incentivar e de me convencer que tudo era uma questão de prática e que, no início, era assim, mesmo; que ele próprio havia penado e temido não dar conta do recado; recado que, ao fim e ao cabo, se demonstraria ser bem fácil, questão de tempo e paciência. E paciência era o que aquele senhor rouco tinha, e bastante.
As aulas de latim prosseguiram e eu até achei muito interessante o convívio com uma língua que, além de pronúncia muito bonita, era a língua de se falar com Deus. A língua dos mistérios que serviam de ligação entre a Santa Igreja Católica Apostólica Romana e o acesso às portas celestiais.

Aquilo não era para qualquer um, muito pelo contrário, eu estava ali porque era um escolhido, puro e santificado, a ponto de estar à altura e de par em par, por exemplo, como o meu próprio Anjo da Guarda, todo branco, de túnica e asas grandes e bem alvas, invisível, porém, dia e noite, ao meu lado e cuidando para que eu não resvalasse para o mundo das baixezas e do linguajar chulo da molecada das ruas. Eles, que praticamente só dominavam o vocabulário vulgar, ofensivo e indigno dos afazeres santificados.
AS BADALADAS. Ocorre que mais uma etapa pesarosa, literalmente pesada, pois atrelada a muito peso em chumbo, ainda estava por vir. E se um missal antigo e um turíbulo de prata me pareciam pesados e embaraçosos, imaginem o que um sino de igreja não veio a ser para uma criança. E nem hoje, tantas décadas depois, eu consigo imaginar como que, a despeito de tanta necessidade de formar um acólito, como é que dois homens, tão idosos e tão experientes nos misteres e rotinas eclesiásticas, não atinavam que destinavam tarefas pesadas demais para se permutarem por uma simples bolsa de estudo. Aliás, eu cresci e vim a disputar bolsas de estudo ao longo de uma vida acadêmica, sempre com a ideia de que dentro de tais bolsas havia peso, sacrifícios ou peso em chumbo mesmo.
Não sei como o Seu João considerou que eu tinha ido bem nas primeiras etapas dos rituais e ainda muito melhor no latim, embora fosse muito mais decorebas do que ter ciência das frases de respostas aos dizeres do celebrante. Havia tradução do missalzinho, mas o importante era que houvesse alguém para responder. E sendo as respostas em latim, ganhavam por isso uma importância especial, superior, grandiosa em sentido. Responder em português não tinha o mesmo efeito.
Bem mais tarde, vim a saber que aquele latim não era propriamente o latim original, nem da Roma Antiga e nem o dos apóstolos Pedro e Paulo, mas, um latim bem domesticado pelo tempo, mas ainda guardado pela Igreja e bem acalorado com um sotaque italiano, o chamado “latim de padre”, como um dia me referiu um erudito da Academia Brasileira de Letras, que vim a conhecer. Ao trocarmos provérbios em latim, eu riu do meu latim, dizendo que eu tinha pronúncia de igreja.
Certamente para eu não desanimar. Tudo me era transmitido como algo simples e com muita simplicidade. Talvez, para ele, que tinha por perto de uns 60 anos de sacristia. E foi nesta modulação que o Seu João me passou a etapa definitiva que me levou a comentar em casa. “Olhem, se vocês acham que está fácil ganhar a tal da bolsa de estudos, saibam que dentro dela tem muito chumbo. E, desta vez, eu desafio quem é aqui, de casa, que dá conta de aluir uma só badalada para que seja ouvida em toda a cidade”. Como assim?
Simples, assim, explicou o Sacristão. Além de “responder a missa em latim, você ficará com a tarefa de tocar as três chamadas para a missa das seis no sino da igreja-matriz. A primeira chamada é às 5 e meia; a segunda as 5 e 45; e, a terceira, exatamente às 6. Aí, você se apressa e se apresenta, já no altar, para ajudar à Santa Missa.
Dessa vez, houve reclamações provenientes de toda a cidade. Pessoas, acostumadas ao longo de uma vida de bons costumes a se regular pelas badaladas do sino da igreja-matriz, indo ou não à missa, se confundiram, se atrasaram, perderam compromissos e acharam que alguma coisa havia de errado no mundo, nas estrelas, na madrugada, no sol, na manhã e em mais alguma rotina do dia a dia. Simplesmente, não ouviram bem, ou nem ouviram, as três chamadas para a missa das seis. Mas, vejam se conseguem me entender.
Uma das tarefas do coroinha era saber a sequência de uma quantidade enorme de peças dos paramentos de um padre para rezar uma missa. Aquilo era muito estranho. Ele já estava bem vestido, alinhado, de batinha bem limpa, sapatos bem polidos, careca bem lisa e cheirando a colônia. Por que tinha, e ainda mais no calor do sertão, de acrescentar umas quantas camadas de roupas, grossas e cheias de brocados? O coroinha, ou melhor, o acólito, tinha de ir entregando, uma a uma, na sequência correta, as vestimentas. E mais uns quantos acessórios.
Por cima da batina ia a alva, ou seja, uma camisola branca e bem fina, rendada e amarrada à cintura por um imenso e grosso cordão branco, mais parecido com uma corda. Depois, não me lembro de tudo, ia a estola; e mais isso e mais aquilo e, por fim, a casula, isto é, uma espécie de grande e pesado paletó que era colocado por meio de uma grande abertura pelo pescoço, cobrindo os ombros. A sucessão das peças era colocada em gavetões pesados, na véspera, por uma senhora, que era lavadeira, passadeira e arrumadeira das vestes dos celebrantes. Ao término da missa, tudo o que tinha sido posto sobre a batina tinha de ser retirado de volta, peça por peça, dobradas e colocadas de volta nos gavetões, gavetões de madeira maciça, bem pesados.
Eu não podia estar ao mesmo tempo na entrega das peças do vestuário para a Santa Missa e correr de 15 em 15 minutos para puxar o badalo do sino da igreja. O sino era com o sacristão. Acontece que, não me vem à memória o porquê, ele não ia mais tocar as chamadas. Eu, sim, estava escalado para tal. Até me avisaram que eu teria de puxar bem firme a corda para as batidas saírem bem sonoras e serem ouvidas pelos fieis. Os que moravam mais longe tinham de ouvir bem a chamada das 5h30. Os que moravam mais perto, tinham de ouvir bem a chamada das 5h45. E os que moravam bem perto da igreja, tinham de ouvir bem a chamada das seis em ponto, questão de um minuto para estarem entrando pela entrada principal da igreja ou tomando café para ir às obrigações cívicas, comuns.
Fiasco total. Como é que os meninos, de molecagem e pecado venial, vez por outra passavam pela igreja e se aproveitando de estar sem vivalma batiam o sino e saíam correndo? E como é que eu não dava conta de dar uma única badalada firme e sonora? As batidas que dava saíam muito fraquinhas e sem a cadência adequada. Então, eu resolvi me pendurar de corpo inteiro em cada badalada. Foi uma boa ideia, não fosse o descompasso. Saía uma que outra badalada forte, entremeada de uns repiques levinhos. Definitivamente, puxar sino de igreja era coisa para aqueles carregadores de sacas na estação do trem. Um sujeito daqueles pegava uma saca de 20 quilos, jogava-a sobre a cabeça e saía trotando até um vagão de carga. Atirava-a de modo a cair certinha, uma por cima da outra, voltava e repetia o fornecimento, parece que ganhavam por hora.

A BOLSA. O vigário, distraído na sacristia e no vestir dos paramentos não se deu conta das batidas fracotas. Eu voltei às seis horas e pouquinho, ele já estava vestido e o acompanhei. Ajudei-o no ritual da Santa Missa e eu já sabia de cor todas as respostas no devido latinorum. Fui para casa contente, a despeito do jejum. Sim, todas aquelas tarefas eu as fazia em jejum, pois uma vida santa requeria do cristão comungar diariamente e não se comia antes de engolir a hóstia consagrada. Achei que, finalmente, estava preparado para ser admitido como acólito e ganhar a bendita bolsa de estudos. Aconteceu, porém, que, de tarde, o Seu João apareceu lá em casa, para conversar com a minha mãe.
– Infelizmente – disse ele à minha mãe –, não vai dar certo, o menino é muito novo e muito franzino, foi bem nas duas primeiras etapas, mas não tem força para bater as três chamadas no sino da igreja.
Minha mãe era muito positiva. E respondeu na bucha.
– Pois, deixe estar. Ficará sem a bolsa. Quando o senhor me procurou foi por ele ser da Cruzada Eucarística Infantil, por saber ler bem, ser frequentador da missa, por estarem precisando treinar um coroinha. Agora, ele já é coroinha, noveneiro, batedor de sino e, parece, até ajudante de vestir padre, ou seja, o senhor está precisando mesmo é de um sacristão completo. O senhor me desculpe a pergunta, como sacristão o senhor começou com que idade?
O homem guaguejou, pigarreou, ficou mais rouco ainda do que era e saiu-se com esta:
– Compreendo, vou falar com o vigário.
Falou, voltou e ficou acertado, assim:
– Está combinado. O menino responde bem à missa em latim e vai ficar somente com esta parte. Vamos procurar uma outra pessoa para as outras tarefas. Pode ficar tranquila. A bolsa de estudos está garantida. Ele é um menino de ouro.
De ouro, não sei. E não fui bem nos votos de Obediência, Pobreza e Castidade. Pecados, ufa! Que Deus me perdoe por eles e bote na minha contabilidade uns haveres para além da bolsa, tantas missas que eu ajudei. O latim tornou-se um gosto, mas, com o tempo, esquecido, da mesma maneira como virou mesmo língua morta, não se fala mais latim nem em Roma, a não ser em raras ocasiões, na Santa Sé. Os livrões pesados foram aposentados, o gótico ficou para cerimônias muito distintas, ordenações, beatificações, santificações e outros ões. A bolsa, por fim, ficou leve. De vez em quando, quando tomo uma taça de vinho do Porto, associo o aroma aos tempos em que o acólito tinha de levar as galhetas com a água e o vinho para que o padre cumprisse o mister da repetição da transubstanciação do vinho no sangue de Cristo.
Ah! Escrever esta crônica, ainda bem, tive este prazer de descobrir que vem desse tempo esse capricho de apreciar um vinho do Porto. E com que alegria vim a conhecer as adegas de Vila Nova de Gaia e provar, tacinha por tacinha, tantas variedades do mesmo.
Criado em 2021-02-18 04:21:29
Patrícia Porto da Silva –
Constatamos, sem surpresa, a parcialidade da mídia brasileira na cobertura das eleições venezuelanas realizadas no dia 6/12. As notícias apontam falta de lisura do pleito, mas não citam dados objetivos que respaldem tal afirmação.
Algo que nos faz indagar se as acusações seriam mais um subterfúgio da oposição, liderada pelo enfraquecido Juan Guaidó, que tenta há anos derrubar o governo Nicolás Maduro sem sucesso.
Ninguém tem dúvidas de que todo governo que contrarie interesses estadunidenses será castigado. A potência vem inclusive desenvolvendo táticas de intervenção capazes de combater internamente governos “inimigos”, sem revelar, no entanto, os reais protagonistas e suas verdadeiras intenções.
Tal estratégia consiste em fomentar movimentos de contestação ao governo, com o objetivo de desestabilizá-lo e enfraquecê-lo até ser deposto, supostamente, por sua própria população.
A metodologia foi empregada na Ucrânia, onde o presidente Víktor Yanukóvytch foi deposto e substituído por um político alinhado aos interesses estadunidense - processo descrito por Andrew Korykbo em estudo intitulado Guerras Híbridas.
É importante que os movimentos de esquerda latino-americanos tenham consciência de que a Venezuela e outros vizinhos possam ser alvo dessa forma de intervenção. Cabe, então, observar os pontos a seguir.
A aplicação do modelo de guerra híbrida pressupõe formação de um elo entre agentes intervencionistas e figuras locais, políticos ou partidos de oposição. Não há dúvida de que o grupo liderado por Guaidó encarna o polo interno de tal relação. Não é segredo, tampouco, que a atuação de seu grupo é subsidiada por recursos provenientes do exterior, seja sob a forma de treinamento militar, logística ou aporte material ou financeiro disfarçado de ajuda humanitária.
Por outro lado, as críticas de Guaidó ao governo de Maduro servem de chamamento ao endurecimento de sanções econômicas por parte dos Estados Unidos - claramente destinadas a destruir a economia venezuelana e levar a população a um estado de carência e descontentamento que potencializem insatisfações.
O surgimento de protestos de rua são o campo ideal para intensificação das táticas da guerra híbrida. Ferramentas de comunicação da Internet e redes sociais servem para fazer com que os protestos aumentem em número de participantes, se avolumem e se expandam, produzindo situação de descontrole e ingovernabilidade capaz de levar o governo ou a renunciar ou ser deposto.
Parece ser esse o objetivo do grupo de Guaidó – representante de uma elite cujo enriquecimento se prende à lucratividade de corporações internacionais. Não há dúvida de que esse setor almeja o retorno ao regime anterior.
O resultado das recentes eleições parlamentares evidenciou, no entanto, o vazio da oposição, ao tempo em que assegurou a continuidade do projeto bolivariano.
Criado em 2020-12-11 15:46:50
a Thiago de Mello -
José Carlos Peliano (*) -
Mais que um parente, ainda que quase parente, Thiago de Mello, poeta amazonense, foi meu amigo de poesia e sentimento. O mistério levou-o dia 14 de janeiro pela manhã para o invisível, concepção próxima de infinito onde cabe tudo, desde o encontro das paralelas a tudo mais que a ciência ainda não sabe e o conhecimento esotérico corre atrás para esclarecer.
Sua irmã, Maria do Céu, é casada com um primo de minha mulher, Heliana, de onde eu me atrevo a afirmar seu quase-parntesco comigo. Acredito que ela, a irmã, não se importa, e que ele tampouco contestaria.
Se tomo como referência seu prefácio ao meu último livro de poemas, Vadândora, editora Patuá/SP, 2020, me conforto com minha alegre ousadia. Declarou ele que “só o talento não basta para a construção da riqueza poética. Você foi capaz dessa humildade que exige o trabalho. Estou orgulhoso de ser seu amigo”, (p. 15). Mais adiante o brinde afetuoso “e vamos comer feijão verde com a carne regada a manteiga de garrafa e banhada pela ternura de Heliana. Muitas bênçãos para a sua casa”, (p. 16). (Os grifos são meus).
Segue junto a dedicatória de seu livro De uma vez por todas, Civilização Brasileira/RJ, 1996, “Para o José Carlos, de minha predileção como pessoa e poeta”. Somente um especial parente e um amigo seria capaz de tornar público e expressar assim os seus sentimentos. Não menos especial foi seu raro presente a mim dado ao apresentar-me o poeta peruano Cesar Vallejo. Trata-se de seu caderno pessoal, escrito à mão, da tradução feita de vários poemas do poeta peruano publicados mais tarde pela editoria Itatiaia/BH, 2005, Cesar Vallejo, Poesia Completa.
A satisfação, o privilégio e a bonança em tê-lo por perto, mesmo longe muitas vezes em sua casa em Barreirinha no Amazonas, acompanharam e formaram um dos mais belos, inesperados e grandiosos encontros que tive um dia em minha vida. Muitas vezes pensei e me perguntei, por que justo comigo?
Mais além do quase-parentesco nasceu entre nós uma amizade poética e humana duradoura trazida da parte dele em boa medida das asas aquáticas do rio Andirá em Barreirinha que o embalava desde pequeno entre peixes, bichos, aves e povos ribeirinhos até o conhecimento e contato com a floresta e os povos originários. Sua alma veio sendo irradiada diariamente pela força e grandeza do espírito da selva em suas mais diversas manifestações. Ele deixou comigo um pouco do muito de suas impressões dessas vivências amazônicas.
Faz escuro para mim agora sem a sua presença ao alcance de qualquer encontro, seja para uma carne de sol em minha casa ou um congro rosa na casa de sua irmã, ou para apresentar um poema novo dele ou meu ou nos comunicarmos por simples mensagens. Não canto por isso, pois não haverá eco, dueto ou harmonia, especialmente alegria. Mas seus cantos vêm comigo, escuto-os ao trazê-lo de volta pela lembrança, vestido de branco como sempre gostara.
A memória não me falha, o coração mesmo sentido ainda bate com alegria ao me lembrar de sua voz guerreira, acaboclada e forte, embandeirada pelos seus gestos amazônicos, quando seus braços e mãos encantavam os ares como as baquetas de um maestro luminoso ao se expressar de forma grandiloquente sobre um belo poema que leu ou se lembrar de um rico encontro com alguém de sua simpatia e amizade.
Estive com ele várias e saudosas vezes em companhia de sua irmã e marido e Heliana, pois morávamos em Brasília e ele vivendo no Amazonas. Então, quando passava pela capital e tinha tempo na agenda nos encontrávamos os cinco. À exceção de duas vezes, uma em Nova Iorque e outra no Congresso Nacional em Brasília. Em ambos locais participou ele de cerimônias para falar sobre sua intransigente, apaixonada e aguerrida defesa da Amazônia e os cuidados que o governo brasileiro devia e deveria ter com os povos originários, a terra, a flora e a fauna.
Encontrei-me com ele no avião de ida para Nova Iorque nos anos oitenta e marcamos de nos ver dia seguinte após o evento onde iria participar. Nos vimos então na saída do local da cerimônia e conversamos sobre sua participação ao tempo em que admirávamos a grandiosidade daquela metrópole mundial. Sua simpatia, generosidade e encanto pessoal tornava o encontro despojado e divertido sem que percebêssemos o passar do tempo.
O que me ficou marcado em seu jeito de ser foi sua observação que, ainda ali diante da magnífica modernidade urbana da metrópole, sentia falta de sua terra natal em seu Amazonas querido, seu lugar predileto de levar a vida.
Já no Congresso Nacional, anos após, onde ele foi igualmente levar aos parlamentares sua visão da Amazônia e seu recado de guerreiro defensor, presenciei o impacto que sua apresentação provocou na audiência. Salvas de palmas retumbaram de todos os lados festejadas com mais cumprimentos e saudações efusivas a ele ao final. De sua locução guardei seu recado primordial: se cada um de nós fizer a sua parte com persistência, coragem e fé, a Amazônia tem tudo para ser salva!
Sua confidência mais impactante deu-se em minha casa numa tarde de domingo após o almoço. Enquanto fora adido cultural do Brasil no então Chile de Allende, durante o golpe militar chefiado por Pinochet, ele chegou a ser preso por ter sido considerado subversivo como tantos outros brasileiros. De fato, ele era simpático à condução do país pelo então Presidente eleito. Em meio a vários brasileiros trancafiados no Estádio Nacional de Santiago, ele e os demais seriam fuzilados pelo pelotão dos “carabineiros”. Foi ele para o paredão logo na primeira leva chegando a ser colocado em posição. De repente, chega um militar ao chefe do fuzilamento, diz algo em seu ouvido e a operação é suspensa! Todos saem do local e vão para as celas na capital. Percebi nele emoção e olhos marejados com o relato.
Acreditava em prodígios, mas o que viam seus olhos e seus sentidos anunciavam, como o amanhecer e o entardecer na floresta, os curumins se banhando no rio, o sorriso puro da bela indígena, a imensidão mansa do Amazonas e o seu poema que vinha pronto desde seus mistérios interiores sagrados. O maior deles era o amor que lhe entrava pela pele todas as vezes que se emocionava e não saía mais. A ponto de ter me mostrado um poema seu com sua letra descrevendo o amor carnal e usando o verbo “foder”. Disse-me que era para transmitir a energia, o prazer e o laço de encantamento dos corpos.
Confidenciou-me após um prodígio diferente em sua vida. Tinha ido a um congresso internacional de poesia na Índia quando se deu o fato inusitado. Entrando no salão do evento apressou-se a saudá-lo um monge tibetano. Ele me contava o episódio sorrindo, mas se dizia arrepiado. O monge se apresenta e lhe confessa que acompanhava sua obra desde sempre que a conheceu. Diz-lhe o monge: lembra-se daquele dia em que você estava no paredão para ser morto? E que, de repente, foi interrompido o fuzilamento? Pois então, sabe o porquê da interrupção? Fui eu quem ajudei a interromper a operação! Thiago se surpreende na ocasião porque nunca tinha visto o monge e quase ninguém sabia do ocorrido com ele no Estádio Nacional. Então, acreditando, meio sem acreditar, desconfiado, agradece ao monge e ainda recebe uma bênção especial. Mas o inexplicável e inesperado ficou no ar.
Pelo passar dos dias, sua amizade perene e a impressão que sempre guardei de que ele viveria por muitos anos, me deixei levar por essa ilusão, acabei deixando o tempo passar e me arrependo de não ter tido com ele pelo menos uma foto de recordação. Os meus olhos externos perderam para os internos. Só minha memória mantém a galeria de imagens dele em dia.
Guardo de seu poema Madrugada Camponesa o destaque para o brilho incomparável dos versos que tão bem sabia sentir, conceber e construir como “agora vale a verdade, que se constrói dia a dia, feita de amor e de pão” e “lavro a luz dentro da cana, minha alma no seu pendão”.
Amigo Thiago, faça luz para que eu cante e cantemos nós!
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(*) José Carlos Peliano, poeta, escritor, economista.
Artigo publicado originalmente no site do Jornal GGN.
Criado em 2022-01-19 01:33:20
João Lanari Bo –
Imagine o leitor um personagem, Aleksandr Bogdanov, que foi filósofo, sociólogo, economista e médico, com especialidade em psiquiatria; de 1904 a 1907, um dos líderes da ala bolchevique do Partido Operário Social-Democrata da Rússia; e, entre 1904 e 1906, escreveu um colossal tratado de filosofia, Empiromonismo – três volumes que propõem-se a resolver o problema básico do materialismo histórico, ou seja, como a base material de uma sociedade determina seus modos de pensar.
Rival de Lênin, Bogdanov acabou derrotado e expulso do Partido em 1909, não antes de ver o desafeto escrever outra colossal obra, Materialismo e Empirocriticismo, para, dentre outros objetivos, desautorizar a sua. O livro de Lênin virou leitura obrigatória na formação de soviéticos e chegados, traduzida no mundo inteiro, lida (ou não-lida, mas citada) a rodo. O livro de Bogdanov ficou na zona fantasma das obras heréticas do Partido, retornando à superfície, assim como outros textos de sua lavra, em 1989 – no ocaso do comunismo soviético.
Em boa hora a Editora Boitempo publica um magnífico opúsculo ficcional de Bogdanov, Estrela Vermelha, lançado em 1908 – narrado em primeira pessoa, conta as peripécias de um militante intelectual bolchevique abduzido por marcianos, que se maravilha com o elevadíssimo estágio do socialismo científico vigente em Marte, o planeta vermelho. Ficção científica na aurora bolchevique.
Escolhido à revelia dentre toda a população terráquea, o personagem-narrador é no entanto modesto e observador, regozijando-se com a fluidez das relações socioeconômicas e a eficiência da gestão marciana, sempre com uma lógica de custo-benefício impecável. Não escapam ao observador o refinamento moral das interações pessoais, o desprendimento e a sinceridade dos líderes na condução dos negócios do planeta. Em Marte, não há Estados-Nação, nacionalismos ou guerras fratricidas. Conflitos e contradições ocorreram ao longo da evolução da humanidade marciana, mas prevaleceu o império da razão.
Nosso herói chega a casar-se com uma marciana – e também a ter relações extraconjugais quando a esposa parte em missão a Vênus. Não obstante, Estrela Vermelha é citado como precursor do feminismo, pelo tratamento igualitário concedido às personagens marcianas.
O altruísmo da alteridade marciana atinge o ápice com a utilização em larga escala da transfusão sanguínea: “uma troca de vida camarada não só na existência ideológica mas também fisiológica”, explica um médico local. Transfusões que vão muito além daquelas realizadas pelos terráqueos, que visam sempre um objetivo terapêutico. Em Marte, as transfusões são corriqueiras e servem para compensar as potencialidades pessoais, corrigindo os desequilíbrios e conduzindo à harmonia social.
Não faltam nesse livro pioneiro predições científico-tecnológicas embutidas nos avanços dos marcianos, como antimatéria, energia nuclear, inteligência artificial. Bogdanov possuía uma mente inquieta, e narra sua aventura interplanetária com um misto de objetividade burocrática e positivismo moralista.
Proscrito pelos bolcheviques, Bogdanov chegou a ser preso por cinco semanas em setembro de 1923. Uma de suas experiências marcantes foi ter servido como médico durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1925, disposto a materializar sua concepção ampla de transfusão sanguínea, fundou o Instituto de Hematologia e Transfusões de Sangue. Mas uma transfusão acabou custando-lhe a vida, em 1928: quando injetou em si o sangue de um estudante que sofria de malária e tuberculose, não resistiu e morreu - o estudante que absorveu sua corrente sanguínea, entretanto, recuperou-se completamente.
A vasta e eclética obra de Aleksandr Bogdanov influenciou campos modernos do saber, como teoria dos sistemas e cibernética. Em 1924 escreveu um poema, Um marciano encalhado na terra, que sugeria uma sequência de Estrela Vermelha, afinal não escrita.

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Serviço:
Livro: Estrela Vermelha
Autor: Aleksandr Bogdanov
Edição: Boitempo - Coleção Clássicos
Páginas: 184
Formato: 16cm x 23cm
Criado em 2020-07-29 13:48:33
Alexandre Ribondi -
Anápolis, essa cidade desconhecida, está apresentando, desde o dia 19 de julho (e até o dia 24), a XXV Mostra de Teatro e o X Festival Nacional de Teatro.
Com produções locais, reservadas à Mostra, que não tem caráter competitivo, e com obras vindas de Goiânia, Brasília e apenas uma do Rio de Janeiro, o evento pode ter a capacidade de fazer com que o Centro-Oeste olha para o seu próprio umbigo e se conheça melhor.
O Distrito Federal abriu o Festival. À tarde, no Parque Ipiranga, com o espetáculo Exemplos de Bastião, do grupo Mamulengos Sem Fronteiras. À noite, o Teatro Municipal foi o palco para Os Estonianos, dirigido por Fernanda Rocha e Larissa Mauro.
Para o secretário de Cultura de Anápolis, Augusto César de Almeida, “toda a cidade se movimenta com as apresentações dos espetáculos, com as oficinas e com as políticas culturais setoriais. A beleza e a magia do teatro e do circo contagiam a cidade”.
Na verdade, Anápolis tem história para contagiar quem vem à Mostra e ao Festival, que mantém uma lotação de cerca de 80% do teatro durante as apresentações.
Um dos membros do júri, o ator e diretor Jonatas Tavares, é anapolino e foi ele um dos criadores da Mostra, quando a cidade, sobrevoada por aviões Concorde, ainda era área de segurança nacional.
Ele lembra: “Anápolis sempre foi uma cidade com pendores intelectuais, com tradição de teatro e circo. O palhaço Carijó, da tradicional família circense italiana Simonetti, era daqui”.
É provável que essa tradição tenha feito com que o secretário Augusto de Almeida tenha lembrado a importância de eventos desse porte para a afirmação de uma cidade que nascida Sant’Anna das Antas, completa agora 109 anos de vida.
No Festival, a grande e boa surpresa, para os brasilienses, tem sido Goiânia. Em primeiro lugar, foi justamente no Parque Ipiranga, um antigo brejo transformado em área de lazer pela administração do prefeito Antônio Gomide (PT), que se apresentou o grupo goianiense Carroça, com o divertido, criativo e ácido espetáculo Tartufo, Era Uma Vez, com direção de Constantino Isidoro.
E, no mesmo dia, o poético e muito bem acabado espetáculo Lágrimas de Guarda-Chuva subiu ao palco para a ovação do público.
A peça é dirigida por Danilo Alencar e teve a preparação de elenco comandada pelo palhaço, ator e diretor brasiliense Zé Regino.
Para o último dia, sexta-feira, estão programadas as peças Farsa da Boa Preguiça, do grupo Guará, de Goiânia, e As Mulheres da Rua 23, do Rio de Janeiro.
Criado em 2016-07-22 17:50:59
Dioclécio Luz (*) -
A COP27 teve fim no domingo, 20 de novembro de 2022. Foi mais uma assembleia promovida pela Organização das Nações Unidas para decidir se os seres humanos irão se tornar carne de churrasco logo – agora! - ou se demoraria mais um pouco. O resultado anunciado foi o mesmo de sempre: todo mundo se compromete a mudar desde que não mude nada. Ou seja, o churrasco é pra já.
Mas atenção: essa decisão não veio dos governantes. Nem Lula nem Biden são capazes de definir como restringir o uso de derivados de petróleo, o fim dos desmatamentos ou das queimadas. Quem decide isso é o mercado. O sistema é capitalista. Diz o mercado: “eu gero riqueza, emprego e renda; tenho poder, grana; logo eu determino as regras; o Estado depende de mim. Logo, só vai ocorrer as mudanças que eu quiser”. E os dirigentes se submetem.
Essa reunião da ONU com representantes de países para decidir sobre a continuidade da vida humana no planeta coincidiu com uma polêmica criada pela velha mídia (sim, a velha mídia) a propósito de uma fala de Lula. O presidente eleito disse que sua grande preocupação no novo mandato é acabar com a fome que atinge hoje mais de 30 milhões de brasileiros. Também disse que para fazer isso precisaria ir além do teto de gastos. A velha mídia imediatamente reagiu e avisou que o mercado – um ser invisível que vez ou outra aparece para dizer quem manda no pedaço - não aceitaria isso. “Opa! Matar a fome do povo com o nosso dinheiro? Jamais!”. Logo foi produzida uma carta, assinada por três velhos representantes arqueológicos do mercado, criticando a decisão de Lula. Quem conhece um pouco desse velho jornalismo oportunista sabe que a carta foi escrita exatamente para legitimar as críticas que o mercado fazia. A velha mídia faz isso porque, embora se fantasie de defensora da democracia e da sociedade, ela é o mercado.
O mercado, é bom lembrar, invadiu o Brasil em 1500 e determinou que aqui seria uma colônia. A sua primeira versão foi o agronegócio: vamos saquear a natureza. Depois os minerais. E então veio o gado e a carne de gado; o café, o algodão. O agronegócio cresceu a partir da mão-de-obra escrava vendida pelo mercado – os escravos eram commodities e produziam as commodities da época. Até hoje, vez ou outra, fiscais do Ministério do Trabalho descobrem que existe escravidão no agronegócio - isto é, no mercado.
O mercado do agronegócio é o nosso atraso. Ele confirma que o Brasil continua colônia: aqui se produz o que determina a matriz - como há 500 anos. Conforme Caio Prado Junior (in Formação do Brasil contemporâneo), os fazendeiros dos tempos coloniais não permitiam que os escravos tivessem uma horta ou pomar para ter o que comer. Foi preciso um decreto imperial para que pudessem, por conta própria, produzir comida. Algo parecido acontece hoje: os latifúndios de soja, milho, algodão, capim, são imensos desertos verdes espalhados pelo país, onde, naquela imensidão vazia aparece um barracão onde se abrigam os poucos trabalhadores que o agronegócio emprega, alimentando-se da cesta básica que deixam.
Os fazendeiros “modernos” nem moram no campo. Ficam nas grandes metrópoles, obedecendo às ordens das transnacionais – uma meia dúzia de empresas que decidem quem passa fome e quem se alimenta no mundo. Eles nem gostam do termo “fazendeiros”, pedem para ser tratados como “produtores de alimentos” - marketing.
O agro não é pop, como diz a propaganda exibida na velha Globo. Matéria da revista Piauí (nº 192, setembro de 2022), assinada por Marcos Emílio Gomes, questiona o agro como responsável por 27,4% do Produto Interno Bruto. De onde vem essa matemática? De Harvard. Revela o jornalista que essa universidade (conhecida por desenvolver métodos científicos de controle dos países em desenvolvimento) criou uma metodologia onde o agro é uma cadeia econômica que agrega tudo que se relaciona ao campo. O prego na estaca da cerca é agronegócio; a borracha da bota do fazendeiro é agro. Ao que parece estão contabilizando como agro a fiação de energia e os telefones celulares que circulam no campo. Por isso o agronegócio se fez tão importante na nossa economia: com a mentira vinda de Harvard. A matéria da Piauí revela essa farsa e mostra que a participação real do agro no PIB nacional não passa de 7%.
Bem, talvez esse setor pague impostos... Nem isso. A contribuição fiscal desse pretenso gigante do mercado para o Estado é ínfima. Nas palavras do jornalista: “o governo não cobra imposto de exportação sobre produtos agropecuários. A agricultura, a pecuária e os serviços relacionados, todos juntos, recolheram aos cofres públicos, ao longo de 2019, a quantia ridícula de 16 mil reais”.
O agronegócio é um exemplo de como funciona o mercado no Brasil. Graças a esse poder (de 500 anos) sobre o Estado o setor recebe regalias: tem a seu serviço um ministério inteiro (MAPA) e uma empresa de pesquisa de gabarito internacional (Embrapa); os insumos são isentos de impostos (agrotóxico não paga IPI nem PIS/Cofins). O agro também recebe muito dinheiro do Estado (o Plano Safra 2022/23 foi de 148 bilhões). E pagar não é problema: todo ano o Estado perdoa as dívidas do setor. Sabe aqueles carrões que os fazendeiros usam para desfilar nas cidades? São comprados com isenção de imposto. Em resumo: o agronegócio é mantido pelo povo brasileiro. Mas eles que mandam no país.
O Brasil tem dono. E não é a população, mas um pequeno e seleto grupo de ricos, donos de 95% da riqueza nacional. Representam a nata do mercado. Um mercado se dá bem no clima de terror e morte instalado no governo Bolsonaro. Foi bem mais fácil negociar com um coronel ignorante instalado em um posto civil do que com um servidor público que conhecia o assunto.
Por isso o mercado ficou quieto diante do orçamento secreto criado pelo presidente Bolsonaro e sua turma (“a maior corrupção do planeta”, segundo a senadora Simone Tebet).
O mercado não se manifestou quando Bolsonaro atuou contra a vacinação, contribuindo para a morte de quase de 700 mil pessoas; quando a Amazônia teve queimadas recordes; quando o governo cortou o dinheiro que se destinava as pesquisas; com o aumento do desemprego; quando a educação foi entregue a pastores evangélicos; quando governantes entregaram escolas públicas à Polícia Militar.
O mercado ficou calado quando o governo tentou inviabilizar as universidades federais e ficou quietinho quando as Forças Armadas decidiram questionar as urnas (o que é ilegal) e quando quase 80 mil militares receberam auxílio alimentação (isso é corrupção). Ainda recentemente o Exército pretendia gastar 5 bilhões de reais na compra de tanques e o mercado achou bom.
O problema do mercado é o teto de gastos? Não, porque Bolsonaro estourou por cinco vezes esse teto e ninguém reclamou, nem mesmo essa velha mídia. O problema é que o mercado mandava no governo fascista que estava aí, dava-se bem com ele e seus negócios. Já com Lula vem a tal da democracia, “coisa de comunista”, diria um capitalista. Pior: Lula “quer acabar com a fome usando o nosso dinheiro!”
Há mais de 60 anos o pernambucano Josué de Castro, dirigente da FAO na época, escreveu que a fome não é um fenômeno da natureza, mas uma criação do mercado. O mercado entende que a fome abre uma janela de negócios. O problema não é ter, hoje, 40 milhões de crianças passando fome no Brasil, mas o governo Lula pretender acabar com o cenário de business gerado pela fome, como diriam os Young-boys da Faria Lima, uma garotada que fala americanês na tentativa de se tornar um norte-americano.
No governo Bolsonaro o preço dos alimentos disparou, a fome se alastrou, e o mercado descobriu que vender osso de boi e pele de galinha para os famintos era negócio. Em plena pandemia da covid-19, com milhares de pessoas morrendo, o mercado aumentou os preços dos alimentos, dos produtos e serviços; a gasolina e o diesel dispararam, os planos de saúde foram reajustados em valores acima da inflação.
O mercado é assim mesmo: parceiro da morte. Os laboratórios não fizeram vacinas contra a covid-19 por razões humanitárias, mas por se tratar de um negócio de bilhões. O mercado é Tanatos, o desejo de morte freudiano.
O mercado se dá bem com governos tiranos, com ditadores. O mercado fez o golpe de 1964 – conspirou contra João Goulart, forneceu dinheiro e equipamentos para que as Forças Armadas caçassem (torturassem e matassem) os contrários ao regime; e faturou muito com a ditadura. A Odebrecht, por exemplo, entre outras obras, fez a usina nuclear de Angra I e II sem licitação; depois de conspirarem para o golpe de 1964, as Organizações Globo e o SBT de Sílvio Santos, atuaram na defesa do regime e ganharam concessões de rádio e TV. Não é somente no Brasil. O governo de Adolf Hitler, na Alemanha, como o de Mussolini na Itália, e o de Francisco Franco na Espanha, foram extremamente benéficos para o mercado local e internacional. Governos sanguinários, violentos, cruéis com o povo, costumam ser doces e amigáveis com o mercado.
Quando teve fim a Segunda Guerra, os donos de indústria alemã, responsáveis por vender equipamentos e máquinas para o projeto assassino de Hitler, foram considerados inocentes no julgamento de Nuremberg. Os dirigentes da IG Farben, um conglomerado de empresas químicas formado pela Bayer, Bosch e Agfa, entre outras, que produziram (e venderam) o Zyklon-B, gás que matou milhares de judeus e comunistas, foram inocentados. Terminada a guerra, o alemão e nazista Werner Von Braun, criador do foguete V2, responsável por milhares de mortes na Europa, foi trabalhar para o mercado norte-americano onde desenvolveu o programa espacial e se tornou herói nacional.
Representantes do mercado estavam lá na COP27. Montaram estandes e até participaram de debates. A ideia era mostrar que o mercado estava preocupado com o planeta e que a culpa pela crise climática era dos governantes. Um engodo devidamente digerido por celebridades, ecologistas, cientistas, ONGs, ex-ministras e ex-ministros, e difundido pela velha mídia. O discurso da velha mídia repete essa mentira: “tudo que acontece de ruim é culpa da política e dos políticos”. Não dizem a verdade: quem está destruindo o planeta é o mercado, não são os políticos.
O fato é que há um projeto de satanização da política. “Político é tudo igual; político nenhum presta; político é tudo corrupto”. Jessé de Souza em seu livro Como o racismo criou o Brasil, relata que satanizar a política e os políticos, descolando o povo da política, é parte de um projeto cultural construído nos Estados Unidos (Harvard tá nessa, claro) que objetiva fazer o controle da colônia sem precisar usar de canhões e bazucas como antigamente.
Os golpes mudaram o formato - vide o caso do impeachment de Dilma – agora é o Congresso quem promove o expurgo de presidentes que desagradam aos Estados Unidos, o mercado. A fórmula é a seguinte: botam o povo na rua criticando o governo; botam no Congresso parlamentares comprometidos com o mercado; militares ameaçam dar um golpe; a velha mídia dá visibilidade às ameaças, alimentando as manifestações populares, o medo do povo e a indignação nos quarteis. Pronto.
Agora é só votar pelo impeachment, não importa se a acusação tem fundamento ou não. Quanto ao mercado... Ele não gosta de democracia, e muito menos de quem se anuncia defensor de uma melhor distribuição de renda. Daí o ódio a João Goulart, Dilma Rousseff, Lula, e todo aquele que tocar no assunto. Não por acaso, toda vez que tem um golpe o mercado está ao lado dos golpistas.
Tudo isso tem o mau cheiro da Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA). Os Estados Unidos costumam destruir todo governo que fale em acabar com a desigualdade, melhorar a distribuição de renda ou acabar com a fome. Lula que se cuide: eles já devem estar tramando como derrubar seu governo (conseguiram prender Lula e eleger Bolsonaro com a Lava Jato).
Bem que os estudiosos da gloriosa Harvard poderiam escrever um livro mostrando como as democracias morrem. Ah, já escreveram? Sim, mas um livro fake que se tornou best-seller. Em nenhum momento os autores dizem que os EUA são os maiores promotores de golpes e destruidores de democracia do planeta. Fuja dessa mentira.
Jessé de Souza faz notar que o espírito de cachorro vira-latas do brasileiro é fruto desse projeto de colonização. Criou-se uma cultura: o brasileiro se acha um nada. Basta ouvir o que o que o brasileiro diz dele: “brasileiro é ladrão, bandido, corrupto, tem sempre um jeitinho de se dar bem”. Eles são os inteligentes. “Não somos como os de fora, os branquinhos, eles gostam de trabalhar, o brasileiro não. Eles são a inteligentes, nós somos a força bruta; somos o corpo e eles o espírito. Somos essa mistura de negro (ladrão) e índio (vagabundo). Não podia dar certo”. Por essa razão o racismo não acaba: ele é estrutural, como diz o professor e hoje ministro Sílvio Almeida.
Conforme o Atlas da violência de 2022, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de cada quatro jovens mortos pela polícia, três são negros. Escolas públicas da periferia, frequentada basicamente por negros e pobres, poderiam ensinar sobre democracia e atacar o racismo, mas estão sendo entregues aos policiais militares.
O mercado, enquanto isso, tenta ampliar seu poder sobre a educação, pegando escolas públicas e privatizando as universidades federais. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 206/19, em tramitação na Câmara dos Deputados, abre caminho para a privatização das universidades. Seu autor é o deputado General Peternelli do PSL de São Paulo (não foi reeleito). Não estranha que um general apresente projeto nesse sentido: fazer a defesa do mercado é considerado patriotismo nas forças policiais. “No empresariado não há corrupção”.
Na verdade, políticos e servidores corruptos são apenas os atravessadores do mercado nos seus negócios corruptos. Quem ganha de fato com a corrupção é o corruptor, o empresariado.
Cada vez que um prefeito superfatura a compra de uma ambulância, ele leva 5%; o vendedor pega 10%; a empresa que fabrica, 50%. A fraude na licitação de uma obra favorece o servidor corrupto com 5%, mas a empresa aumenta seus ganhos em 50% ou 100%. Vide o que aconteceu na Odebrecht: o negócio de pagar propina era tão bom que ela montou uma empresa dentro da empresa.
A velha mídia é a voz maquiada do mercado. O mercado é o mocinho, e o político, o vilão. O mercado quer pegar tudo que a natureza oferece, todo patrimônio estatal, tudo que couber na mala, mas, como gera riqueza, é bonzinho para o país. Foi o mercado, através da velha mídia, que convenceu a população de que Fernando Henrique estava certo em lhe entregar a Vale do Rio Doce; Bolsonaro deveria entregar a Eletrobrás para uma elite; ajudou o governador Ibaneis Rocha, em Brasília, a vender a Companhia de Eletricidade de Brasília (CEB).
O mercado gosta de se apossar de empresas públicas. Olha o caso da Petrobrás. Por mais de meio século o Brasil investiu na empresa, formou um patrimônio espetacular, uma equipe técnica de primeira linha, e então o mercado, com a velha mídia e seus especialistas em economia, espalhou que ali era um antro de corrupção, e que o melhor era privatizar. Não aconteceu tudo. O governo Bolsonaro vendeu refinarias e algumas empresas estatais, entregou o pré-sal. Então veio o melhor para o mercado: enquanto o povo passava fome e morria de covid-19 os militares patriotas colocaram em funcionamento a paridade de preços internacionais. Então, os acionistas (gente que não trabalha) festejaram. A grana foi muita. Somente em julho de 2022 os dividendos distribuídos entre eles foi de 87 bilhões de reais.
Esse é o mercado. Ele sabe como convencer governantes a lhes entregarem tudo, inclusive itens estratégicos. A água, por exemplo. O Brasil é rico em água doce. Essa água deveria pertencer ao seu dono, o povo brasileiro. Mas o mercado logo disse: “a água tem que ser minha”.
Hoje é assim: 70% da água boa de beber vai para o agro (mercado); 20% vão para a indústria (mercado); 10% para o consumo humano (quase do mercado). A água do agronegócio, tomada de rios, riachos, lagos, é transformada em commodities do campo e exportada para a matriz. Fica o deserto, rios contaminados por agrotóxicos ou fertilizantes, animais que morrem por não ter lugar para viver. A água da superfície já não basta para alimentar o deserto verde.
Então o agro faz poços para captar a água do subsolo – isso mesmo, boa parte da soja que o Brasil exporta bebe água mineral. Resultado: a água que corria nos campos está se acabando. Quanto as águas do subsolo, que pertenceriam ao povo brasileiro, conforme a Constituição, elas também têm dono: o mercado – Nestlé e Coca-Cola dominam o setor.
Por tudo isso, a próxima COP deveria ser com os representantes do mercado e sob a fiscalização severa da sociedade civil. É hora de chamar a indústria, o comércio, banqueiros, especuladores do mercado, acionistas, pecuaristas e sojicultores, e mostrar para o mundo que eles estão acabando com o planeta. Mostrar que essa gente é perigosa para a vida na terra – pelo que faz e fez, por não assumir a sua responsabilidade.
Quanto àquelas ações individuais ou comunitárias, como a gestão adequada de resíduos, o uso adequado dos bens naturais? São inúteis. Todo nosso esforço para a redução de consumo, plantando árvores, uso de transportes menos poluentes, não serviu para nada: o calor aumentou, o clima ficou caótico. E vai ficar pior. Sim, porque todo dia o mercado faz exatamente o contrário do que era para fazer: estimula mais consumo, mantém o mesmo sistema de produção, polui mais ainda, gera mais Gases de Efeito Estufa. E faz isso numa escala gigante. Tudo que você fizer pelo planeta é muito pouco; tudo que eles fazem contra o planeta é muito grande. Daí a o anunciado churrasco do planeta terra. Nesse momento é preciso que as pessoas que têm a luz e a coragem se manifestem sem medo dessa do mercado. É o caso de Sônia Guajajara, a nova ministra dos Povos Originários. Logo depois de tomar posse ela repetiu a verdade: “não existe agronegócio sustentável; não existe mineração sustentável”.
É o Antropoceno. E a terra decidiu se rebelar contra aqueles que a agridem: o mercado em suas muitas representações. Como diz o filósofo francês Bruno Latour, falecido há pouco: os super-ricos, negam o que está acontecendo, não assumem a responsabilidade pela crise e não apresentam uma solução. Os antropólogos Débora Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, escreveram um livro indagando “Há um mundo por vir?” Eles partem da concepção de que para esta humanidade o mundo já era.
Ailton Krenak, indígena e filósofo, ainda recentemente apresentou um bote salva vidas com seu grande-pequeno livro Ideias para salvar o mundo? Mas o mercado vai mudar depois desses alertas? Claro que não. Tanatos só produz velórios.
Parte do empresariado brasileiro é insensível aos problemas do povo. Só lhe preocupa o capital. Por isso se incomoda com a nomeação de Fernando Haddad para o Ministério da Fazenda. Entre eles predomina o pensamento colonial: “vou pegar o que puder e meu filho vai estudar na Europa”. O grande desafio de Lula é mostrar-lhe que o Brasil não é do mercado e que a democracia voltou. Voltou para redistribuir a riqueza nacional com todos e todas. O mercado não gostou, mas a esperança voltou.
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(*) Dioclécio Luz é jornalista e escritor, mestre em jornalismo pela UnB, autor, entre outros, de A escola do medo: vigilância, humilhação e repressão nas escolas militarizadas e Radiojornalismo nas rádios comunitárias.
Criado em 2023-01-07 02:55:06
Wilde Cardoso (*) -
Brisa. Isso mesmo. Esse é o nome dela.
Brisa vive caminhando pela cidade. Se está no Plano Piloto, caminha e vai ao trabalho. Se está em Taguatinga, caminha e vai ao comércio. Se está em Ceilândia, caminha e vai para casa.
Brisa refresca o ar onde passa. Aproveitando o fato de que não usa mais máscara quando anda pelas calçadas da cidade, agregou um sorriso ao “bom dia, bom dia” que emite ao passar por outro caminhante. Raros não respondem. Afinal, quem pode negar um “bom dia” para Brisa.
Essa semana, encontrei Brisa resmungando. Isso é difícil de se ver. Me disse de cara: quero ser governadora de Brasília. Perguntei por que e ela não titubeou. Alugou meus ouvidos por bom tempo e começou a prosa. Pensei que era só um dedinho, mas logo vi que era um pé inteiro.
E assim começou.
Não é possível entender as pessoas. Querem ficar em forma e andam o tempo todo de carro. Querem gentileza e vivem buzinando no trânsito. Querem ficar tranquilas e não perder tempo na vida e acabam ficando horas sentadas, estressadas, esperando o carro da frente avançar. Por que não caminham?
- Se caminhassem veriam o mundo que vejo. Falo com as pessoas, ao menos cumprimento. Sorrio e recebo sorrisos de volta. E estou bem na fita. Bem saudável, se querem saber.
Até entendo. Muitas vezes é difícil mesmo você achar que está segura nas calçadas do DF. Estreitas, esburacadas, com muita coisa onde tropeçar. Quando existem, é claro. Por exemplo, tentei caminhar no Setor Policial Sul e não tive como. Parece que só pensaram nos carros por lá.
Sem parar, agora como um pequeno vendaval, Brisa continuou.
Será que não existe um órgão que cuide efetivamente das calçadas? Ouvi dizer que quem executa as obras é a Novacap. Mas também, de tanto ouvir, sei que depois que fica pronta, ninguém mais cuida delas. Se são estragadas por alguma razão, por um buraco para passar um cano, por um caminhão que passou em cima ou por uma viatura de polícia que não sei por que cisma de trafegar ou parar sobre ela, parece que não tem jeito, ninguém conserta.
Muitas vezes desço do ônibus e pronto: cadê a calçada? Outras vezes vou atravessar a rua e não tem passagem pintada. Quando tem, é fácil tropeçar. Cadê a rampa para quem tem dificuldade para andar? Cadê o rebaixamento do meio fio para o idoso ou para uma dificuldade temporária, quebrou a perna por exemplo, ou para quem quer passar com um carrinho de bebê? Quase sempre não tem. E olha que às vezes tem rampa de um lado da pista e não tem do outro. Bizarro, mas isso é o normal em Brasília.
Mas o que você acha que deve ser feito, Brisa? Interroguei. Não adianta ficar só reclamando.
Olha, amigo. Eu acho que sei o que fazer. Primeiro, vou perguntar para todo mundo se quer ir para o trabalho, a escola, o comércio, o hospital, o barzinho. A resposta será “sim”. Aí ponho a questão: gostaria de ir a pé? Quase todo mundo deve também responder “sim”. Isso posto, farei a seguinte proposta: deixa comigo, vou colocar calçada em todo lugar que você precisar. Será uma calçada simples, mas com largura e piso adequados. Será feita para durar. Pode ser que aconteça algum estrago na calçada. Aí o governo vai logo arrumar. Haverá um órgão público competente para projetar, construir e cuidar das calçadas.
Se você precisar de alguma indicação para onde ir, haverá sinalização tipo “você está aqui”. Se alguma pessoa com dificuldade para enxergar precisar de apoio, aos poucos vamos equipando a cidade com piso tátil, proteção contra objetos no caminho, mapas táteis, o que precisar. Rampas ainda? Sim, farei em todas as travessias. Todas. E os particulares também farão a sua parte para que elas também existam no comércio e nas residências. Se não fizerem, uma Lei proporei. Conversada com todos, é claro, uma lei democraticamente elaborada e aprovada. Se não cumprirem, o governo age: multa, execução do que precisa e cobrança dos custos daquele que não fez o que devia.
Voltando à questão original, para aqueles que responderem “depende”, direi: você tem a opção de ter um ônibus de qualidade, uma parada confortável, com horário de cada linha afixado junto a ela. E o ônibus vai respeitar isso. Os motoristas te dirão “bom dia”, igualzinho quando eu passo nas calçadas, e os passageiros dirão “bom dia, bom trabalho, senhor”.
E mais. Se possível for vai ter tarifa zero. Se não der, a tarifa será congelada até que um dia fique tão pequenininha que não valha mais a pena cobrar. Sabe por quê? Porque nós precisamos ser justos. Quem anda a pé ou de ônibus e contribui para uma cidade mais humana tem que ser pago por aqueles que não o fazem. Podemos chamar isso de “prestação de serviços urbanos”, uma ação que beneficia a todos, mas somente alguns fazem. Acho que poucos não aceitarão andar a pé, de bicicleta ou, quando necessário, pegar um coletivo.
Mas e para aqueles que não quiserem, que insistirem em usar o carro? Indaguei.
Bem, respeitaremos a opção. Acho que não serão muitos, mas se forem, tentarei induzir para que mudem de opção: estacionamento pago, redução de pistas em favor dos ônibus e das ciclofaixas, calçadas mais largas, farei tudo que muitas cidades modernas, como Brasília nasceu para ser, estão fazendo a algum tempo. Para quem é da modernidade, essa cidade está ficando arcaica antes do tempo.
Esqueci de dizer, se eu for eleita governadora do DF, no início, bem no início do governo, vou propor uma política urbana altiva e forte para que todas as cidades sejam realmente cidades completas. A grande maioria das pessoas poderá morar, estudar, trabalhar e se cuidar onde mora. Assim, o transporte entre elas, quando necessário, será minimizado, podendo ser feito preferencialmente por ônibus, ou até por metrô se recursos financeiros houver. Farei ciclovias para permitir a circulação entre as cidades mais próximas e cuidarei para que o trânsito seja gentil: velocidade controlada, respeito às passagens de pedestres, quase sempre no nível do carro. Afinal, porque o caminhante precisa andar mais, subir e descer, quando deveria ser tratado igual aos carros, atravessando a pista no mesmo nível deles?
E continuou. Você vota em mim?
Refleti. Você acha mesmo que vai mudar a cidade rapidinho e vai obrigar as pessoas a mudarem seu comportamento com essa conversa? Acho que provoquei a Brisa.
Ela me sorriu e finalizou: ninguém obriga ninguém. A gente conversa, sensibiliza, discute abertamente e decide. O meu argumento será sempre: quero você feliz, saudável, generoso. Quero isso também para seu vizinho e, também, para os vizinhos das outras cidades. Vote em mim porque eu quero o que você quer, uma cidade para a gente, para mim, para você, para nós, para todas as pessoas. Vamos caminhar juntos.
Não tem jeito. Vou votar na Brisa.
Criado em 2022-09-16 13:24:08
José Paulo Netto, um dos maiores estudiosos do marxismo no Brasil e reconhecido crítico literário, selecionou e organizou para apresentar ao leitor um alentado ensaio sobre a vida e a arte de Manoel Maria de Barbosa du Bocage, autor português do século XVIII.
Em Da Erótica: muito além do obsceno (Editora Boitempo), José Paulo destaca, em seus comentários o aspecto libertino do controvertido poeta, sem deixar de ressaltar sua qualidade literária, cada vez mais reconhecida, que lhe garante lugar seguro entre os clássicos da literatura portuguesa.
A apresentação, e nas muitas notas de rodapé, há uma profusão de informações por si só igualmente interessantes, compondo um variado e valioso painel relativo ao poeta português, referências bibliográficas e um útil índice onomástico.
“A compilação que José Paulo Netto organizou oferece os textos quiçá mais relevantes desse caminho, incluindo obras maiores da poética bocagiana, também alguns dos seus atrevimentos pícaros, discutindo nuns casos a autoria, noutros garantindo a origem, sempre comentando e ilustrando aqueles versos com notas detalhadas, sem as quais nos perderíamos no labirinto de alusões e diversões do poeta”, escreve Francisco Louçã no prefácio da obra.
José Paulo (Foto, abaixo) afirma em sua apresentação: “Penso que Bocage deve ser abordado, explicado e compreendido como um libertino [...] – e notadamente sua erótica (mas não só ela), na sua essencialidade, como amostra privilegiada e mais expressiva da concepção libertina possível no Portugal da última década do século XVIII. Resumindo, tenho a erótica bocagiana como exemplar privilegiado e ímpar da literatura libertina portuguesa do seu tempo”.

Trecho - “É mais que necessário atentar para as diferentes formas de gratificação, simbólicas ou não, dos sujeitos envolvidos na produção/difusão do que então se passou a considerar “pornografia” – que se desenvolveu, em todos os seus sentidos, com a profissionalização do escritor sob o capitalismo a partir da mercantilização do seu ofício e a sua progressiva e imparável inserção numa específica divisão social e técnica do trabalho.”
“Na sua boca Vênus faz morada,
Nos olhos tem Cupido as setas posto,
Nas mamas faz lascívia o seu encosto,
Nela, enfim, tudo encanta, tudo agrada.”
Sobre o organizador
José Paulo Netto, Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de honoris causa recebidos na América Latina e na Europa, é conhecido pelo seu trabalho como ensaísta e tradutor na área das ciências sociais. Para a Boitempo, organizou antologias e edições de autores clássicos e publicou recentemente Karl Marx. Uma biografia (2020). Iniciou-se, porém, na imprensa de Minas Gerais, nos anos 1960, como crítico literário e estudioso da estética. Depois de seu retorno (1979) de anos de exílio, só episodicamente exercitou a crítica literária. O longo ensaio que abre esta antologia de Bocage marca o seu regresso ao trato das questões da história da literatura.
Sobre o poeta português
Bocage (1765-1805) é considerado o maior representante do Arcadismo e o precursor do Romantismo. Junto com os poetas Camões e Antero de Quental, forma o trio dos maiores sonetistas líricos da literatura portuguesa (Ilustração, abaixo).

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Ficha técnica:
Título: Da Erótica: muito além do obsceno
Autor: Manuel Maria de Barbosa du Bocage
Seleção, organização e apresentação: José Paulo Netto
Prefácio: Francisco Louçã
Preço: R$ 75
Criado em 2022-12-05 03:21:30
Romário Schettino -
Para explicar a origem da Humanidade é preciso conhecer a história da África negra. É assim que o professor Muleka Ditoka wa Kalenga Magloire começa a conversa com o site Brasiliários.com - Jornal do Romário - sobre sua trajetória no Brasil. Nascido na República Democrática do Congo, Muleka estudou jornalismo em Paris e fez mestrado em publicidade e propaganda em São Paulo.
Muleka estudou também parapsicologia e inventou um sistema informatizado capaz de unir conhecimentos de jogos africanos, egípcios e chineses. É dele a criação de um jogo de alfabetização chamado Tatuzinho Comilão, que foi aplicado, em 2008, pela Secretaria Municipal de Educação de Jequié (BA). Esse processo de alfabetização e de aprendizado da matemática foi experimentado com grupos de controle com o uso do jogo e sem o jogo. As crianças que brincaram com o Tatuzinho Comilão tiveram melhor resultado.
Aposentado, Muleka vive na Bahia e é casado com Mwewa Lumbwe, formada em administração e com mestrado em crítica cultural pela Universidade do Estado da Bahia.
O professor Muleka passou por Brasília e deu a seguinte entrevista:
Brasiliários – O que trouxe o senhor para o Brasil?
Muleka – Eu vim para o Brasil em 1981 para fazer mestrado na Eca/USP na área da comunicação/publicidade e propaganda, e me formei em 1985. Eu tenho diploma de jornalismo da École Supérieure de Journalisme de Paris e também sou graduado em Relações Internacionais pela Universidade da República Democrática do Congo.
Brasiliários - E continuou estudando...
Muleka - Depois fiz doutorado na área de cibernética, sempre na ECA/USP, defendi a minha tese de doutorado em ciências em 1989. Além disso, estudei parapsicologia com o professor Pierre Weil, da Universidade Holística Internacional de Brasília.
Brasiliários – Então, o senhor é jornalista, cientista e parapsicólogo. Primeiro, como jornalista, como avalia o respeito à liberdade de imprensa em seu país?
Muleka - Como em qualquer país democrático no mundo, a República Democrática do Congo possui sua Constituição, promulgada em 2006 e revisada em 2011. Nesta Constituição há dois artigos que interessam a imprensa. O artigo 23 garante a liberdade de expressão e o artigo 24 defende o direito à informação e o de ser informado.
Brasiliários - Mesmo assim, a mídia internacional apresenta o governo atual do seu país como sendo uma ditadura que oprime as liberdades fundamentais, como a liberdade da imprensa. O que pensa sobre isso?
Muleka - Em primeiro lugar vamos falar sobre a ditadura. O que é ditadura? Segundo o dicionário, a ditadura é uma forma de governo em que o governante exerce seu poder sem respeitar a democracia. A característica principal da ditadura é a falta da divisão dos poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Na República Democrática do Congo, temos os três poderes, uma Constituição, o Presidente da República, deputados e senadores eleitos. Há eleições até ao nível do município. A conclusão é que não existe ditadura na República Democrática do Congo.
Brasiliários – Mesmo assim, a mídia internacional trata o governo do seu país como sendo ditatorial. Como explicar isso?
Muleka - A mídia internacional pertence às potências e às multinacionais que exploram os países do terceiro mundo. Todo dirigente terceiro-mundista que combate a dominação estrangeira é tratado pela mídia como um ditador. Vamos dar dois exemplos. O ex-presidente Robert Mugabe do Zimbabwe foi considerado ditador pela mídia internacional. Sabe por quê? Porque, desde que Mugabe assumiu o poder, ele acabou com a dominação dos brancos sobre a economia e distribuiu as terras produtivas aos negros de seu país. Outro exemplo. O líder africano Nelson Mandela foi declarado herói pela mídia internacional e não pelos negros africanos. Sabe por quê? Porque Mandela libertou o seu povo da dominação política, mas deixou toda a economia sul-africana nas mãos dos brancos. Então, Mugabe, que lutou para a liberdade econômica do seu país é considerado ditador, enquanto Mandela que deixou a economia nas mãos dos brancos é declarado herói.
Brasiliários – Mas, voltando ao seu país. Como funciona a liberdade de imprensa por lá?
Muleka – Da mesma forma que não existe ditadura em meu país, não há restrição à liberdade de imprensa nem aos partidos políticos. A República Democrática do Congo possui 450 nações ou tribos e mais de quinhentas religiões. Existem mais de quinhentas mídias e mais de 700 partidos políticos. Na RDC, a imprensa dita de oposição critica o presidente da República sem ser ameaçada. Há casos extremos punidos segundo a Lei. Eu duvido se em toda a África existe um país com estas características: mais de 500 religiões, praticamente uma para cada tribo; mais de 500 mídias, praticamente uma mídia para cada tribo; mais de 700 partidos políticos, ou seja, quase dois partidos políticos por tribo. Si isso é ditadura, então não sei mais o que é ditadura.
Brasiliários – Como o senhor analisa a relação entre países ricos e as nações em desenvolvimento?
Muleka - É preciso saber que em relações internacionais há três fatores que determinam as relações entre os Estados. De um lado, temos o princípio da soberania nacional, de outro o princípio do poder econômico, militar e informacional e, por fim, o principio do interesse nacional. Este princípio é a variável de controle nas relações internacionais. O princípio da soberania nacional diz que cada Estado é soberano e que não existe nenhum outro Estado superior aos outros. Este princípio é puramente retórico e moral. Pois tudo depende de dois outros fatores: interesse nacional e poder.
Os países que possuem o poder, em nome do seu interesse nacional esmagam, oprimem os países menos potentes. Em nome do interesse nacional e do poder as potencias ocidentais chegam até a matar os líderes revolucionários do Terceiro Mundo. Eu posso citar os casos de Patrice Emery Lumumba, que foi o primeiro Primeiro Ministro da República Democrática do Congo. Por ter ameaçado os interesses dos europeus e dos Estados Unidos, Lumumba foi assassinado, seus ossos foram colocados num líquido que os fez desaparecer. Então, enquanto os países do Terceiro Mundo não se libertarem economicamente, serão sempre dominados, quer seja do ponto de vista da cooperação bilateral ou da cooperação multilateral.
É preciso responder à seguinte pergunta: como os países africanos podem se libertar se há sempre africanos que hospedam os opressores, como diria Paulo Freire? As potências ocidentais estão sempre dispostas a assassinar qualquer líder que se opuser aos seus interesses nacionais. A resposta será sempre dada pela evolução da História. Como dizia o filósofo russo Ouspensky: “Nada pode evoluir sem parar e nada pode permanecer parado sem evoluir”.
Brasiliários – Como cientista, o senhor defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo. Qual foi o seu tema?
Muleka - O tema da minha tese foi ideológico, mas de uma maneira oculta. Eu quis desconstruir as teorias racistas segundo as quais os negros não são inteligentes em relação aos brancos. Aqui no Brasil, temos todas as teorias de Nina Rodriguez [autor de Os Africanos no Brasil, com base racista]. Na Europa, temos as teorias do filósofo Voltaire. Este francês declarou que a inteligência do negro é proporcional ao tamanho do seu cabelo: cabelo crespo, curto, inteligência curta. Temos a pseudociência de dois americanos que lançaram a teoria das curvas do sino ou parábola. Segundo eles a inteligência dos negros se situa na base da curva do sino e a inteligência dos brancos se situa no topo da curva.
Brasiliários – Como o senhor reagiu a essas teorias?
Muleka – Como negro, fiquei preocupado. Não queria admitir essas teorias racistas. Os trabalhos do matemático e antropólogo africano, Cheikh Anta Diop, demonstram três hipóteses: A primeira, afirma que a África é o berço de toda a Humanidade, isto é, o primeiro ser humano era negro e que, até 40 a 20 mil anos antes de Cristo só havia negros neste planeta. Isto é, todas as outras raças são mutações do negro. A segunda hipótese afirma que a África é berço da ciência, da matemática, da geometria, da álgebra e que os gregos, como Pitágoras e Arquimedes, estudaram a geometria no Egito. A terceira hipótese diz que até a 18ª dinastia no Egito, este país era povoado apenas por negros. A pergunta é: se a raça negra está na origem de tudo, como que ela não pode ser a origem da inteligência e como que ela pode ter uma inteligência inferior ou nenhuma em relação à raça branca que é apenas a sua derivada?
Brasiliários – Com as teses do professor Cheikh Anta Diop o senhor desconstruiu as teorias racistas, mas quais são as suas próprias contribuições?
Muleka - Cheikh Anta Diop demonstrou que a matemática, a geometria e a álgebra são de origem egípcia. Mas os cientistas europeus fazem um grande esforço para propagar as ideias segundo as quais o Egito não se situa na África mas no Oriente Médio. Há livros sobre África e sobre o Egito, assim como há livros sobre o Brasil e sobre a América Latina. A tendência difusa é mostrar que os egípcios não eram negros. É assim que a Europa chega a destruir as teorias de Cheikh Anta Diop. A minha contribuição consiste em partir das teorias de Cheikh para demonstrar que os negros inventaram a linguagem binária e criaram os primeiros computadores da Humanidade.
Brasiliários – Como o senhor chegou a demonstrar isso?
Muleka - Eu defendi, na ECA/USP, minha tese de doutorado intitulada “Kissolo: modelo africano para processamento de dados e informações”. A tese, defendida em 1989 foi orientada pelo pedagogo e matemático brasileiro Osvaldo Sangiorgi. Analisei dois jogos, ou oráculos, africanos: o jogo Kissolo ou Awale e o Livro do Destino egípcio.
Brasiliários - Quais foram os resultados da sua pesquisa?
Muleka - Numa abordagem da cibernética e da teoria da informação, eu descobri as equações do Kissolo e do livro do Destino egípcio, de mais de seis mil anos. Eu demonstrei que o jogo Kissolo (Jogo de Búzios ou Awale de 16 conchas) é uma calculadora digital de 16 bits. Demonstrei também que o Livro do Destino é um processador digital de 32 bits. Tudo indica que, por um motivo qualquer, a calculadora foi separada do processador. Para estabelecer um diálogo entre a linguagem matemática do Kissolo e do Livro do Destino, eu inventei um algoritmo matemático de 8 bits que chamei de Sistema Micro-Digital Kisis (MDK-53). Isto é, eu estabeleci o elo perdido entre a matemática do Livro do Destino e a matemática do Kissolo.
Brasiliários – O que o senhor fez com suas descobertas?
Muleka – Com as equações matemáticas do Kissolo, do Livro do Destino e do MDK-53, eu implementei vários jogos e programas de computadores. Um destes jogos é o jogo de alfabetização que chamei de Tatuzinho-Comilão. Por que Tatu? Porque este jogo é um verdadeiro computador manual ou vídeo-game manual. Como tal ele possui os seus cursores representados pelo animal brasileiro tatu, enquanto que os computadores eletrônicos trabalham com os cursores chamados de mouse ou rato. Por que Comilão? Por que os cursores capturam as letras no tabuleiro e o jogador usa estas letras para formar palavras representando as imagens programadas.

Brasiliários – O senhor criou também alguns programas de computador?
Muleka - Sim. Um destes programas chama-se Sistema Micro-Digital Kisis (MDK-53). Trata-se de um oráculo eletrônico. Com este sistema programei os dados do Jogo de Búzios, do Livro do Destino, do I Ching chinês e até da Bíblia Sagrada. O MDK-53 é um tipo de Pai ou Mãe de Santo eletrônico. A pessoa faz uma pergunta e o sistema responde. O consulente pode escolher um tema, uma pergunta dentro do tema e seguir algumas instruções até chegar a uma resposta. O MDK-53 possui também um programa aleatório. A pessoa não faz nenhuma pergunta e o sistema descobre aleatoriamente o problema que a pessoa tem e responde. O MDK-53 funciona como um sistema que faz o diagnóstico dos problemas ocultos no subconsciente das pessoas.
Brasiliários – Bem, com esse sistema deixamos a ciência para entrar na parapsicologia. Qual foi a sua área de pesquisa na Universidade Holística Internacional de Brasília com o professor Pierre Weil?
Muleka - Na Cidade da Paz, ou Universidade Holística de Brasília, eu fazia parte do grupo de pesquisa fundamental. A minha área era do estudo dos sistemas de adivinhação ou oráculos. Estudei o I Ching, o Jogo de Búzios e o Livro do Destino procurando a sua lógica matemática. Trabalhei à luz de algumas teorias: as teorias da física quântica, teorias dos cem macacos de Lair Ribeiro; teorias do poder da imaginação de Ponder; teorias das leis da causa e do efeito de Tanigushi; teorias da união dos opostos de Carl Gustav Jung; o poder das letras hebraicas como nomes de Deus, vibrações, arquétipos etc. A minha hipótese é que, aplicando estas teorias e o sistema Micro-digital Kisis assim como a meditação é possível curar algumas doenças de origem psicossomáticas ou doenças causadas pelo stress ruim.
Brasiliários – Como assim?
Muleka - Para colocar em prática esta minha teoria, criei um curso chamado “Kangoterapia-Pestanod: como sobreviver num mundo estressante”. Uso algumas palavras chaves como: ka, ngo, terapia, pes, ta, nod, stress.
Brasiliários – O que significam essas palavras e quais suas funções no curso Kangoterapiua?
Muleka - Em primeiro lugar quero dizer que a Kangoterapia é um curso de auto-ajuda, um curso de auto-hipnose para a cura das doenças ditas psicossomáticas. Para melhor entender isso, vamos explicar o significado de cada palavra-chave:
- Ka e Ngo: estas palavras pertencem à língua africana kiluba da República Democrática do Congo e são o equivalente das palavras taoístas de ying e yang, os opostos, porém complementares. Segundo Jung podem ser unidos e criar uma terceira força capaz de curar doenças.
- Terapia: esta palavra remete ao processo de cura das doenças sem uso dos remédios, isto é, cura milagrosa.
- Pes: esta palavra cunhada pelo parapsicólogo brasileiro José Silva [autor do livro intitulado “O método de controle mental”, em 1977] possui dois significados: percepção extrassensorial e percepção sensorial efetiva. A percepção extrassensorial é uma faculdade que cada um de nós tem para manifestar os poderes da mente. A percepção sensorial efetiva é algum tipo de viagem astral rumo a uma dimensão que contém tudo, que contém os problemas e as suas soluções; que contém as doenças e suas curas respectivas.
- Ta: este termo, criado pelo psiquiatra alemão Johannes Heinrich Schultz, denominado “treinamento autógeno”, ou auto-hipnose. Isto é, utilização poderosa da imaginação para resolver problemas.
- Nod: Nomes de Deus. Segundo o Rabino Yehuda Berg, as letras hebraicas são vibrações energéticas. Combinadas três a três, estas letras formam 72 Nomes de Deus ou códigos, chaves, senhas para abrir a dimensão que contém tudo, ou Baú da Felicidade. Durante a meditação, quando alguém atinge o estado Alpha - (quando o seu cérebro pulsa ao ritmo entre 7 e 14 ciclos por segundo) - este alguém pode operar milagres.
A Kangoterapia ensina como entrar no estado Alpha, como praticar a percepção sensorial efetiva e como manusear as senhas, os códigos, os arquétipos chamados Nomes de Deus. Com estas técnicas cada um pode curar suas doenças ditas psicossomáticas ou doenças provocadas pelo stress.
- Stress: trata-se de uma pressão, opressão, constante, indesejável e inevitável que reduz a capacidade imunológica do organismo possibilitando o surgimento de doenças orgânicas criadas pela mente.
Portanto, a Kangoterapia é um conjunto de técnicas parapsicológicas utilizadas durante a meditação para curar as doenças psicossomáticas. A Kangoterapia é um curso de auto-ajuda ou de auto-hipnose. A Kangoterapia é diferente de outros cursos de auto-ajuda, de yoga, de meditação. Enquanto nos outros cursos as pessoas fazem exercícios sem saber claramente o problema que querem resolver, a Kangoterapia utiliza os Sistema Micro-Digital Kisis capaz de diagnosticar, identificar os problemas ocultos no subconsciente e que podem ser resolvidos durante o curso.
Criado em 2018-02-22 00:11:14
Marcos Helano Montenegro (*) -
Segundo a associação que reúne os fabricantes de embalagens de vidro (Abividro), “a reciclagem sempre teve grande destaque na indústria vidreira, e ganhou força nos últimos anos com os grandes investimentos feitos para promover e estimular o retorno da embalagem de vidro descartável como matéria-prima”.
De fato, com um quilo de cacos de vidro se faz outro quilo de vidro, mas é preciso que o vidro, transformado em cacos selecionados segundo a cor e livre de impurezas, chegue até uma fábrica.
Ainda segundo a Abividro, as fábricas de garrafas de vidro estão localizadas apenas nos seguintes estados: RS, SP, RJ, MG (Uberlândia), PE e SE.
A distância de transporte entre a fábrica mais próxima de uma determinada cidade é que determina a viabilidade da reciclagem de vidro nesta cidade.
É por isso que no DF a reciclagem de embalagens de vidro praticamente não tem viabilidade. No caso de Brasília, o custo do transporte torna o caco de vidro proveniente das embalagens aqui descartadas não competitivo.
Portanto, no DF embalagem de vidro não pode ser tratada como reciclável.
Assim, no DF praticamente todas as embalagens de vidro descartadas nos domicílios, hotéis, bares, restaurantes e similares estão sendo aterradas após o consumo da bebida ou de outro produto.
Quem paga pelo custo de coletar e aterrar este resíduo? Evidentemente, nós, como cidadãos pagando a TLP, ou como consumidores, no preço do produto.
Mas, há alternativa. Aproximadamente metade das embalagens produzidas anualmente no Brasil é constituída de recipientes retornáveis, como as garrafas de cerveja e refrigerantes. Essas embalagens são reutilizadas para a mesma finalidade por mais de 30 vezes, sendo lavadas em altas temperaturas e com detergentes antes de cada nova utilização. Esta possibilidade é uma das características positivas das embalagens de vidro.
Por outro lado, os próprios fabricantes de bebida afirmam que a embalagem de vidro retornável possibilita vendê-las mais barato para o consumidor final.
Mas hoje, a decisão de embalar uma bebida em uma determinada embalagem é uma decisão apenas de marketing, que visa naturalmente maximizar o lucro do fabricante.
Tem que ser assim? Os ônus ambientais não devem ser levados em conta?
Pergunto então porque não privilegiamos aqui, no DF, a embalagem retornável quando consumimos bebidas como os refrigerantes, a água mineral e as cervejas em embalagens de vidro?
Com esta atitude, estaríamos evitando aumentar a quantidade de resíduos encaminhados para o aterro sanitário e contribuindo para economia de recursos (matérias primas, energia etc).
Afinal, uma embalagem de vidro retornável faz o papel de dezenas de embalagens descartáveis.
Não compre refrigerante, água mineral e cerveja em embalagens de vidro não retornáveis.
Não venda refrigerante, água mineral e cerveja em embalagens de vidro não retornáveis.
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(*) Marcos Helano Montenegro é engenheiro e presidente da Seção DF da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES).
Criado em 2017-01-24 13:26:02
"Por ora, a cor do Governo é puramente militar, e deverá ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada." (Aristides Lobo - Diário Popular, 18/11/1889)
Roberto Amaral (*) -
Implantada por um golpe militar, a República brasileira sucede um Império anacrônico, sem pretender romper com sua ordem econômico-social, fundada no escravismo e na lavoura. Com ela sobrevive a sociedade patrimonialista, excludente, profundamente desigual e conservadora que hoje nos espanta. Despida de republicanismo (doutrina que jamais chegou ao povo e era desconhecida pelas tropas que desfilaram pelas ruas do Rio de Janeiro em 1889), a república nascente conservaria as duas características básicas da monarquia, a cuja natureza reacionária seus líderes não se opunham de fato: a ausência de povo e de representação, fragilidade que a perseguirá por quase um sesquicentenário, o tempo de sua vida até aqui. A reforma, na realidade, jamais foi objetivo dos oficiais golpistas; pretendendo derrubar um gabinete malquisto por eles, terminaram destronando o imperador longevo – pelo qual, aliás, o país nutria reconhecida empatia.
A República, um projeto das elites que não cogitou do concurso do povo, se impõe para que, mudando-se o regime, em nada fosse alterado o mando: o Brasil agrário da monarquia sobreviverá na República da lavoura exportadora do café, herdeira das exportações de madeira, açúcar e ouro, matriz da sociedade exportadora de grãos, carne e minérios in natura. No império e na república, continuamos cumprindo o papel de fornecedores das mercadorias que o mundo rico demanda. Para cumprir com seu destino chega descasada da democracia, exatamente um século após a matriz cunhada pela revolução francesa. Nos estertores do século XIX continuávamos sendo um país cuja política desconhecia a participação popular: sem povo, sem partidos, fizéramos a independência e construíramos o império; sem povo deveríamos fazer a república sereníssima. Entre nós, a res publica é capturada pelo interesse privado. Somos conservadores até com relação à classe-dominante: herdeira da casa-grande, é a mesma desde o Brasil-Colônia.
Contra o unitarismo monárquico, no entanto abraçado pelos jacobinos que articularam o golpe, a constituinte fundadora da República (1891), dominada pelos representantes da ordem descaída, optou pelo federalismo defendido pelo latifúndio e pelo escravismo, que, assim, sem serem frustrados pela História, como veríamos, esperavam conservar o mandonismo local, aquele sentado na grande propriedade. A terra continuava vencendo. A República vai consolidar-se como o regime da hegemonia das oligarquias, que só conheceria seu declínio com o golpe de 1930, sobretudo com o Estado Novo (1937-1945) que, por sinal, investirá contra o federalismo. E hoje, ainda lutando pela consolidação do nosso limitado processo democrático, podemos registrar dois fracassos rotundos: o da República, jungida aos interesses privados, e o do federalismo, inviabilizado pelos escandalosos desníveis regionais, caldo de cultura de uma crise em gestação.
Mal saído do escravismo, cujas marcas conservaria até os dias que correm, o país dava os primeiros passos na aventura capitalista preso aos interesses da terra dominantes desde a colônia: a República era a solução das elites para a crise política agudizada pela Abolição. Na República, como no império, sob os traficantes de escravos e senhores de engenho ou sob o cutelo dos “coronéis”, o país continuaria sem projeto, sem rumo, preso às forças do atraso que obstaculizavam a industrialização. Numa história recorrente, o antigo regime colonial se projeta no império agrarista, que por seu turno sobreviveria numa república indiferente à manifestação da soberania popular, eis que dominada por um sistema eleitoral escandalosamente fundado na fraude. Como falar de República em sociedade pervadida pela desigualdade social e a exclusão das grandes massas da cidadania? Em vez da ruptura que abriria as portas ao progresso, impõe-se a conciliação que mantém a ordem do passado. Daí a indiferença com a qual foi recebida a fratura política aparentemente tão radical. Para a classe-dominante, a transição de regime não passaria da simples troca de um imperador vitalício por um presidente eleito pro-tempore. No fundamental, tudo continuaria como dantes no quartel de Abranches. E assim continuou.
O 15 de novembro, movimento das elites sem raízes na organização social, foi, não obstante suas consequências institucionais e políticas, uma quase ópera-bufa, encenada por atores que, no seu conjunto, ignoravam o papel que lhes cabia desempenhar. O mais deslocado de todos era o velho marechal, retirado da cama de enfermo para se transformar em herói. A cena contempla momentos burlescos.
Convencido, após muita relutância, de que deveria atender ao chamamento político de seus comandados, posto em sua farda de gala com o auxílio do ordenança, Deodoro monta em um cavalo que lhe é trazido por um miliciano, atravessa a pequena distância que o leva ao Campo de Santana e, sem espada, mão direita levantada, saúda como saudavam os comandantes assumindo a tropa: “Viva o Imperador!”, a que a tropa (atendendo a um reflexo condicionado, como de hábito) ecoou: “Viva, para sempre!”. O capitão José Bevilaqua, positivista e seguidor de Benjamin Constant, narra o episódio a que assistiu: “Chega o momento supremo da proclamação. O general Deodoro hesita ainda ante nossas instâncias, a começar pelo Dr. Benjamin, Quintino, Solon, etc., etc. Rompemos em altos e repetidos vivas à República! Abafamos o viva ao Senhor D. Pedro II, ex-Imperador, levantado pelo general Deodoro, que dizia e repetia ser ainda cedo, mandando-nos calar! Por fim, o general, vencido, tira o boné, e grita também: Viva a República! A artilharia com a carga de guerra salva a República com 21 tiros!” (Vide MENDES, R. Teixeira. Benjamin Constant. Rio de Janeiro. Ed. do Apostolado Positivista do Brasil,1913. pp. 356-7).
Implantado, por um golpe militar levado a cabo pela oficialidade do exército sediada na então capital do Império, repita-se, o novo regime é a avenida pela qual trafegam rupturas constitucionais e irrupções militares que chegam aos nossos dias. Nasce com o golpe de 1889, a que se seguem o golpe frustrado de Deodoro (1891), o golpe de Estado de Floriano e a primeira ditadura republicana, conhecida como “ditadura da espada”, e de permeio contabiliza duas revoltas da armada (uma contra Deodoro e outra contra Floriano, que assumira já confrontando a constituição republicana recém promulgada) e o levante das fortalezas de Santa Cruz e Laje (1892). Consolida-se o militarismo que havia sido atenuado pela assembleia constituinte (formada por representantes da lavoura, quase todos vindos do antigo regime) e influenciada pelo liberalismo de Rui Barbosa.
Mas era só o começo de uma série de crises políticas e intervenções militares que parece não ter fim: duas cartas outorgadas (1937 e 1967); duas longevas ditaduras (a de 1930-1945, com o intermezzo constitucional de 1943-1937 e a de 1964-1985); após os levantes das fortalezas de Santa Cruz e Laje (1892) a revolta da armada contra o presidente Floriano (1893), após a “ditadura da espada” (1891-1894), seguida pelo massacre, pelo “exército pacificador de Caxias”, dos camponeses de Canudos (1896-7) e o massacre, pela Marinha, dos heróis (previamente anistiados) da Revolta da Chibata (1910); três levantes militares (1922, 1924 e 1935); a insurreição paulista de 1932; o putsch integralista de 1938; o golpe militar de 1945 que derrubou o Estado Novo que outro golpe militar havia implantado em 1937; o golpe de 1954 que depôs Getúlio Vargas; a tentativa de golpe para impedir a posse de Juscelino Kubitscheck (1955); o golpe militar para garantir a posse dos eleitos (o 11 de novembro de 1955); os motins da aeronáutica contra o governo JK (Jacareacanga em 1956 e Aragarças em 1959); a tentativa de golpe para impedir a posse de João Goulart (1961), o golpe parlamentar de 2016 e o continuado projeto de golpe sustentado pelos militares no governo Bolsonaro que se mantém de pé até hoje, podendo ameaçar a posse de Lula e acompanhar seu governo.
Como visto, a preeminência sobre a vida civil e a ruptura da ordem democrática são a marca indelével da caserna insubordinada na vida republicana, e assim ela chega aos nossos dias, valendo-se das armas – que a nação lhe entrega para a defesa da soberania – para promover seguidos atos de desestabilização institucional contra os interesses do país.
Na raiz de tantos males a impunidade, o outro nome da “conciliação” que permeia uma história dominada pela cada-grande.
À insolência das notas dos atuais comandantes das forças militares do Estado brasileiro sobre o processo eleitoral, coordenadas pelo ainda ministro da defesa, soma-se recente carta de antigo comandante do exército, missivista do golpismo desde sua agressão à autonomia do STF. De qualquer forma é estranho que, privado da fala e dos movimentos, possa ditar e escrever uma declaração pública em que estimula a insurreição contra a soberania do voto e trata como patriota uma escória que vai à porta dos quartéis pedir mais um novo golpe.
A questão republicana mais urgente – sem dúvida o desafio político-institucional de maior relevo – é a erradicação do militarismo a que tanto deve a tragédia nacional. Não se trata, tão-só, da efetiva subordinação do soldado ao poder civil. Trata-se de seu rigoroso enquadramento disciplinar. Ou seja, da repressão à sua permanente insubordinação, tanto mais repugnante quanto se opera mediante o uso ilegal da força contra pessoas e instituições desarmadas.
É chegada a hora de colocar o guizo no gato. Este, o desafio republicano.
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Um medalhão na Big Apple – Com uma fala abjeta proferida num convescote empresarial em Nova York, aonde ministros do STF (irregularmente sobre-remunerados por empresa privada especializada em lobby) foram flanar e falar de temas brasileiros, Dias Toffoli, exemplarmente medíocre como advogado e juiz, conseguiu ofender a memória de dois países ao mesmo tempo: a Argentina e o Brasil – a cuja Constituição, democrática, deve respeito e obediência funcionais. Como dizia o inesquecível Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada, mesmo”. Ou sai porcaria.
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(*) Artigo escrito com a colaboração de Pedro Amaral
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(**) Matéria na Folha de S. Paulo sobre a palestra ofensiva de Dias Toffoli em Nova Iorque:
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/11/fala-de-toffoli-sobre-punicoes-do-passado-e-alvo-de-questionamento.shtml
Criado em 2022-11-18 11:58:51