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Emanuel Cancella - Os mais angustiados, que devem muito à justiça, são Bolsonaro, Moro, Dallagnol, Roberto Campos, este ainda posa de bom moço, mas o cara foi indicado por Bolsonaro, que ainda estendeu seu mandato até 2024 (2). Tem conta que era sigilosa em paraíso fiscal usada para sonegação e lavagem de dinheiro (1).
Criado em 2023-04-18 15:01:33
Benny Schvasberg (*) -
A Assembleia Legislativa de Goiás aprovou, no apagar das luzes (último dia 16/12), o projeto de lei complementar para criação da Região Metropolitana do Entorno do Distrito Federal - RME e do Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Entorno do Distrito Federal – CODERME, com objetivo de buscar soluções para a governança metropolitana das Funções Públicas de Interesse Comum - FPICs.
Recolocou, assim, na ordem do dia, uma pauta noticiada pela mídia em dezembro de 2018 quando a criação da referida Região Metropolitana, sem o pejorativo termo “entorno”, foi aventada pelos governadores então eleitos Ibaneis Rocha/DF e Ronaldo Caiado/GO. Naquela ocasião a matéria não prosperou, pelo que registra o noticiário, porque não houve acordo entre os principais protagonistas acerca das fontes de recursos e outros aspectos operacionais e políticos para viabilizá-la.
Cabe lembrar que a Lei Federal 13.089/2015, conhecida como Estatuto da Metrópole, cuja elaboração foi coordenada pelo arquiteto e deputado federal Zezéu Ribeiro (PT/BA), estabeleceu no artigo 4º a obrigatoriedade da aprovação pelos legislativos estaduais envolvidos quando a RM envolver diferentes unidades da federação. Paradoxalmente, a matéria ressurge por propositura unilateral do governo de Goiás criando uma RM intitulada de “Entorno do DF”.
Pelo espírito da lei federal que regula a matéria o projeto de lei complementar deve ser aprovado por ambas as unidades envolvidas, ou seja, concomitante ou sequencialmente, também pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.
A discussão de matéria dessa complexidade não pode limitar-se aos aspectos legais, embora fundamentais, mas, sobretudo, enfrentar as efetivas consequências em relação ao planejamento e gestão territorial integrada das FIPICS em questão. Sobretudo, no contexto do recente aumento das tarifas do transporte público das linhas de ônibus entre o DF e os municípios que compõe a chamada Área Metropolitana de Brasília – conceito formulado na Nota Técnica 01/2014 Codeplan/GDF abrangendo o DF e 11 (onze) municípios goianos que conformam seu colar metropolitano (**). Após suspensão do aumento por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) foi anunciada pela Secretaria de Mobilidade Urbana/GDF a devolução da gestão das referidas linhas de ônibus à ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres.
O projeto goiano de RM do Entorno do DF prevê instrumentos operacionais como os Consórcios Públicos para gerir de forma integrada as FIPCs. Cabe lembrar que foi criado, em 2015, um consórcio entre a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) e o Saneamento de Goiás (Saneago), para a captação e distribuição de água visando beneficiar 1,3 milhão de moradores de parte do DF e de cidades vizinhas do “entorno” metropolitano. Entretanto, os investimentos e ações ficaram aquém, seguindo atual o desafio face à precariedade da infraestrutura urbana dos 12 (doze) municípios metropolitanos.
O PL goiano aprovado aponta outros temas à formação de consórcio, por exemplo, o desenvolvimento urbano. Como referência de consórcio público destaca-se a experiência do Consórcio Intermunicipal Grande ABC/SP constituído em 1990 para atuar como órgão articulador de políticas públicas setoriais. Desde então, tem apresentado significativos resultados para o desenvolvimento econômico, urbano e social da região.
A metropolização do DF, no vetor sul que concentra maior população e urbanização precária, demanda o esforço integrado da União, Estado de Goiás, Distrito Federal e municípios, para atender necessidades básicas de transporte público, saneamento ambiental, educação, saúde, habitação, segurança, etc.
O momento de transição de governos é propicio à construção de um modelo técnico e operacional que garanta o Direito à Cidade Metropolitana, sustentável e inclusiva, para uma população de mais de 4 milhões de habitantes, a maioria em vulnerabilidade social, que constitui a terceira maior área metropolitana brasileira.
Para deixar de ser um prato requentado e tornar-se oportunidade de ampliação do Direito à Cidade tem a palavra para o diálogo os governos do DF e Goiás, legislativos, municípios da RM e a União. Sem jamais excluir do diálogo as entidades técnicas e profissionais, sindicatos e movimentos sociais organizados de toda região, na construção dessa modelagem e sua execução democrática e participativa.
Atenção GDF e legisladores distritais: a bola foi lançada na área, é tempo de colocar a metrópole na Região Metropolitana!
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(*) Benny Schvasberg, professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB).
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(**) A área metropolitana de Brasília (AMB) é composta por doze cidades: Distrito Federal, Águas Lindas de Goiás, Alexânia, Cidade Ocidental, Cristalina, Formosa, Luziânia, Novo Gama, Padre Bernardo, Planaltina de Goiás, Santo Antônio do Descoberto e Valparaíso de Goiás.
Criado em 2022-12-28 12:11:57
Luiz Martins –
De Deodoro ao dia de ontem, nenhum governante brasileiro merecerá a classificação de “tipo-ideal”: de presidente, governador, prefeito, síndico... A não ser que o leitor requeira o contraditório para dizer ‘existiu, sim, foi o fulano de tal’. Erros, vicissitudes e, em algum momento, a dúvida sobre a excelência administrativa e, por vezes, moral será apresentada, no mínimo, em coisas do tipo ‘favoreceu parentes’, ou, ‘prometeu na campanha e não cumpriu depois’.
Em relação ao eleitor também cabe uma indagação: quem você elegeu correspondeu às suas expectativas? A avaliação atual, no entanto, nos leva a fazer uma ponderação da seguinte ordem: quem votou na base do qualquer coisa, menos PT’, está satisfeito?
Há os que, convictamente, votaram na esperança de algo melhor do que o PT. Há os que votaram e votarão no PT enquanto ele existir e qualquer que seja o candidato ‘tirado’ na convenção. E há os que, sendo ou não do PT, adotam como divisa atual a seguinte alegação: “Eu avisei!”. Já sabiam do que se tratava, não havia margem sequer para uma réstia de ilusão. Infelizmente, há uma camada de pessoas que em relação ao presidente atual o aplaude em qualquer decisão ou atitude.
Pouquíssimos continuam achando que ele é, de fato, “mito”. Só se for do grotesco, esse estágio do escárnio que ultrapassa os níveis da paródia, do pastiche, da caricatura e que tem início quando adentra a “carnavalização”, conceito adotado pelo linguista Mikhail Bakthin, que deu prosseguimento ao clássico François Rabelais.
Estamos em pleno Carnaval, esse período em que o humor se faz metalinguagem da realidade, desde as simples e ingênuas fantasias até os escrachos mais desbragados, em desfiles ou propriamente no seu lugar, os blocos de rua. O que estamos vivendo, porém, é um estabelecimento, no governo e, portanto, no Estado e na República, de um conjunto de uma obra, cuja personagem central é o Capitão Bolsonaro, um homem de extremos, escárnios, zombarias, achaques e, desde os tempos pré-campanhas, preconceitos, injúrias e agressões. Prima por fazer, a exemplo do clichê da “arminha”, o estilo do político-deboche.
Com isto, capitaliza um suposto foco dos que estão na arquibancada do protesto, sobretudo, com uma entonação para o hilário, o histriônico, o trocadinho e a gracinha, mesmo que os círculos do riso estejam se encolhendo cada vez mais. Passou a fazer chacota com coisas muito sérias, instituições republicanas e adjacências. Nem os presidentes da França e da Alemanha escaparam. Até o Papa levou um “troco”. Há os que aceitam seus convites em nome do ‘amor’ pelas causas, haja vista a atriz Regina Duarte, a fim de encarnar outra vez o papel de Namoradinha do Brasil. Do Brasil ou do Bolsonaro? Eis a questão. Eis o dilema. Até mesmo para os generais, formados sob o escopo da disciplina e dos juramentos de servidão à Pátria. Entretanto, não à toa um programa de humor adotou como slogan: “A gente tenta superar a realidade, mas tá difícil!”.
Criado em 2020-02-20 04:21:25
Danilo Firmino (*) –
Ele fabrica crises por espasmos, o faz por dois motivos: só assim pode governar um sociopata que não tem respeito pelo outro, muito menos pelo Estado Democrático de Direito. Enfim, um proativo em fazer aquilo que popularmente chamamos de "merda".
Diz uma coisa pela manhã, nega à tarde para, à noite, inventar outra versão. E assim, vai testando a paciência dos demais poderes – Congresso, Justiça, Forças Armadas. Um inimigo contumaz da estabilidade e da garantia de qualquer institucionalidade.
Amigos me perguntam: “e aí, quando será a próxima crise fabricada pelo Coiso”. Bolsonaro está a um passo de queimar seu filme com as instituições, rasgando qualquer dia dessas a Constituição e criando uma “crise-mãe” que poderá lhe afastar do poder.
O povo por sua vez, anda de saco cheio das palhaçadas presidenciais.
Sabemos - e todo o mundo também sabe - que o Brasil enfrenta uma crise de duas cabeças, ambas perigosíssimas, mortais, interligadas, irmãs siamesas. Ambas trazem fome, desespero, doenças e mortes para a nossa gente. O povo está perplexo, indignado, com medo e pronto para explodir numa revolta sem precedentes.
De um lado, um vírus mortal, o Covid-19, que é invisível, planetário, não respeita fronteiras, classes sociais, gêneros, religião, cor da pele e já matou em três meses milhões de pessoas em todos os países da Terra - e continua sua sanha fúnebre.
O outro vírus tem nome, sobrenome, endereço conhecido, e também ataca ferozmente a tudo e a todos com raiva, rancor, crueldade e ódio, muito ódio; especialmente visando desrespeitar a democracia com um imensurável desprezo pelo povo brasileiro.
Chama-se Jair Messias Bolsonaro, também conhecido internacional como Bolsonero ou simplesmente Bosovírus. Primeiro, ele afirma, contra todos os princípios do mundo científico internacional e da medicina; que a Covid-19 é uma gripezinha e que vai matar muita gente. “E daí? Vai morrer mesmo”.
O vírus (ou seria “o verme”?) humano ataca a ciência, os princípios médicos recomendados pela OMS, incentiva aos seus fanáticos seguidores a quebrarem as regras básicas do enfrentamento da pandemia – com destaque para o distanciamento social.
Ele quer ver o circo pegar fogo. Além de coveiro, quer acender o pavio jogando brasileiros contra brasileiros. Ou melhor: de uma maneira fria e nazi-genocida, assiste impassível a morte e o flagelo de milhares de brasileiros, com famílias e mais famílias que nem sequer têm o direito de enterrar dignamente seus parentes e entes queridos abatidos por doenças agravadas pelo vírus invisível.
Isso sem falar dos milhões de brasileiros se acotovelando em filas (e por consequência se contaminando uns aos outros) nas agências da CEF e da Receita Federal atrás de uma merreca de 600 reais que o governo se viu obrigado a liberar para evitar que os brasileiros morressem de fome.
Na realidade, o Bosovírus tem sido até mais letal que a Covid-19. Além de incentivar a circulação do inimigo imortal (gripezinha ou resfriadinho), maltrata e espezinha o povo e faz malcriação como um reizinho mimado, porque foi impedido pelo STF de nomear um amigo dos seus filhos milicianos e corruptos (quem matou Marielle?) para dirigir a Polícia Federal.
Em seguida vem a público, sempre perante uma plateia escolhida a dedo, e desrespeita o Supremo Tribunal Federal – nossa corte suprema, pela segunda vez.
Embora a sociedade brasileira venha repudiando tais atitudes, quer via pesquisas e/ou constantes e diários panelaços pelas principais cidades, esse tipo de comportamento fascista merece nosso repúdio diário.
Torna-se necessário, mais do que nunca, ficarmos atentos, mobilizados e conscientes de que o País caminha para um impasse. Imediato ou um pouco mais a médio prazo. E para se resolver esse impasse, não há solução com o atual des-presidente da República. Ele tem que cair fora. O Congresso Nacional tem que iniciar o processo de Impeachment já!, para atacar o vírus, teremos que afastar o verme da Presidência da República.
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(*) Danilo Firmino, do “Fala Subúrbio”
Criado em 2022-09-12 15:47:53
Nossa Conquista - que integra a coleção Navegantes /Teatro, da editora Entremares - é uma obra fictícia imagética que aponta o lugar da dramaturgia na literatura pela radicalização da forma, sustentando a dramaturgia como um texto literário. Não há, por exemplo, rubricas.
Gabriel não se vale deste artifício de condução, e opta pelo fluxo natural do texto, pela liberdade de quem for ler, interpretar ou encenar.
"Meu anseio com a criação de Nossa Conquista é contar uma história e deixar para o leitor a tarefa de ativar a própria imaginação. O esforço da escrita foi para experimentar as possibilidades de radicalização da forma dramaturgia, distanciar o texto do processo de montagem da peça no teatro e trazer as personagens e o contexto para perto, numa relação intimista”, afirma.
A história se passa às margens do rio Nossa Conquista, onde convivem os povos que desejam ardentemente atravessar as fronteiras para as grandes capitais em busca de uma vida mais digna. O desejo por essa travessia, no entanto, não é visto com bons olhos por aqueles que habitam o outro lado.
Por isso, a região é monitorada por seus Soldados da Paz, cuja presença ostensiva parece ter como meta a contenção do fluxo migratório incontrolável. Na contramão do trabalho destes soldados, os bixos da fronteira estão sempre prontos para, em troca de um bom negócio, atravessar ilegalmente aqueles que dariam tudo - até mesmo os próprios filhos - pelo sonho de uma vida melhor.
Em Nossa Conquista, o leitor acompanha a épica íntima de três personagens - Machépé, um bixo da fronteira; Zizú, um soldado da paz; e Neydí, a primeira ministra da grande capital do norte. Pelas suas trajetórias e pensamentos, apresenta-se um universo fabular que ilustra, seja por meio de metáforas, seja por exemplos bem reais, as relações intrínsecas entre as dinâmicas da colonização, da diáspora negra, as subjetividades humanas, e o destino fatal do meio ambiente, cuja exploração pelo capitalismo predatório parece apontar, sem meias palavras, para a escatológica queda do céu. Nos encontros e desencontros de Machépé, Zizú e Neydí, todos mediados pelas margens do rio Nossa Conquista, fica a certeza de que nas profundezas desse rio, que nos une e nos separa, que é caminho mas também fronteira, há mais mistérios do que se pode imaginar.
O trabalho de Gabriel Cândido busca reverberar temas aos quais vem se dedicando, a partir de uma construção literária elaborada.
Se por um lado Nossa Conquista sugere debates sobre colonialismo, diáspora negra, imigração, refúgio, encontros e desencontros, por outro, busca compreender a perspectiva do sonho, da imaginação. “Para construir uma dramaturgia que se propõe a discutir, de modo interseccional, o neoliberalismo, o colonialismo, o racismo, as crises migratórias e a emergência climática em fricção com os saberes ancestrais dos povos indígenas e negros do Brasil e da diáspora, pensar na imagem de uma espiral para conduzir esta história foi fundamental no processo de criação". E finaliza: “A ficção nos dá muitas possibilidades de metáforas”, referindo-se à passagens do livro como o rio, as fronteiras e os muros, “e também abre espaço para várias questões subjetivas do indivíduo e da sociedade”.
A parte I da trilogia Escombros, intitulada Fala das Profundezas (2018, Editora Javali - MG), ganhou montagem, em 2022, pelo Núcleo Negro de Pesquisa e Criação (NNPC) e cumpriu temporada de estreia no Sesc Belenzinho (SP). Foi ainda experimentada em formato de leitura encenada (2018-2019) e em versão teatro radiofônico (2020).
A publicação do livro Nossa Conquista foi viabilizada pelo ProAC - Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo - Edital 19/2021 de Apoio à Literatura / Ficção / Não-Ficção / Poesia /
O autor
Gabriel Cândido nasceu em São Caetano do Sul (SP), no mês de fevereiro de 1992. Atua como dramaturgo, diretor, performer, ator e produtor. É coidealizador e diretor do Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo e cofundador e integrante do Núcleo Negro de Pesquisa e Criação (NNPC). É autor das dramaturgias Socorro! Tem Uma Cidade Entalada na Minha Garganta, publicada pelo Grupo Editorial Letramento (2019) e Fala das Profundezas, publicada pela Editora Javali (2018), da qual também assina a direção da montagem que estreou em 2022 e dos seus formatos em versão teatro radiofônico (2020) e leitura encenada (2018-2019).

Gabriel também é diretor e roteirista do curta-metragem Jardim Peri Alto em Cena (2019); autor das performances Rastros (2022) e Cuidado com Nós (2019). Formado pela SP Escola de Teatro no curso de Atuação (2015), colaborou com a instituição como artista-orientador, entre 2021 e 2022.
Foi também artista-orientador de teatro do Programa Vocacional da Prefeitura de São Paulo (2022).
Sinopse
Nossa Conquista - Às margens do rio Nossa Conquista convivem os que desejam atravessá-lo e ir para as grandes capitais em busca de uma vida digna. Tal desejo não é bem-visto por aqueles que habitam do outro lado; e seus Soldados da Paz monitoram a região a fim de conter o fluxo migratório.
Contra eles, os bixos da fronteira atravessam ilegalmente quem daria tudo - até os próprios filhos - pelo sonho de uma vida melhor. Em Nossa Conquista, o leitor acompanha as trajetórias de Machépé (bixo da fronteira), Zizú (soldado da paz) e Neydí (primeira ministra da grande capital do norte).
Em seus encontros e desencontros, apresentam-se as relações intrínsecas entre a colonização, a diáspora negra, as subjetividades humanas, e o destino fatal do meio ambiente cuja exploração pelo capitalismo predatório aponta para a queda do céu.
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Serviço:
Lançamento/livro: NOSSA CONQUISTA
Autor: Gabriel Cândido
Editora: Entremares - @entremares
Loja virtual: https://editoraentremares.minhalojanouol.com.br/catalogo/sulear/c
Foto: Júlio Aracackde História, na Universidade de São Paulo (FFLCH/US
Criado em 2023-02-09 13:55:09
Romário Schettino -
Reimont Otoni (PT), atual presidente da Comissão de Cultura da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, fala nesta entrevista sobre a situação de um dos setores que mais sofreram com a política de terra arrasada do ex-prefeito Marcelo Crivella e com a pandemia do coronavírus.
A crise econômica na Cultura, com espaços culturais fechados, desemprego, falta de perspectivas, obriga a busca de soluções como o auxílio emergencial e a renda mínima. Reimont, neste início de novo mandato, diz o que tem feito e o que pretende fazer em defesa da cultura do Rio de Janeiro.
Sobre o projeto de revitalização do Centro do Rio, Reimont disse que esse é um assunto que deve estar no bojo da discussão do Plano Diretor que entra em discussão na Câmara de Vereadores. “Sabemos que é preciso, sim, aumentar a densidade demográfica do centro, mas temos que ampliar a discussão. É importante que haja planejamento, vide a experiência da Área Portuária. Há muita coisa boa por lá, mas, faltou mais diálogo e respeito pela população que ali residia antes da revitalização”, defende.
Apesar das últimas medidas de restrição anunciadas pelo prefeito Eduardo Paes, Reimont critica a demora na tomada de decisões diante da grave crise da pandemia na cidade. “Os trabalhadores, por falta de opção, ainda estão se aglomerando nos transportes urbanos. É preciso um programa mais eficiente para conter a disseminação do vírus e vacinação para todos e todas”.
A seguir, a íntegra da entrevista:
O Rio de Janeiro sempre foi uma cidade vocacionada para a indústria do turismo como geradora de emprego e renda. O que ainda pode ser feito em termos de infraestrutura para a retomada da tradição do Rio como cidade da Cultura, do Carnaval, do Esporte, durante e após a pandemia?
Reimont Otoni – A Câmara de Vereadores do Rio vai entrar na discussão do Plano Diretor, e esse é o momento oportuno para que este debate seja travado. A sociedade tem de ser motivada a se envolver nestas questões e nosso mandato está empenhado nessa tarefa.
É sabido que o governador afastado e em vias de ser impedido Wilson Witzel e o ex-prefeito Marcelo Crivella destruíram o sistema cultural do Rio. Esse processo começou muito antes da pandemia. Quais as suas propostas para melhorar a situação?
R.O. - A primeira medida é abrir o diálogo com a sociedade civil. Existem grupos nas várias áreas de atuação com os quais estamos buscando trabalhar em sintonia.
O Museu de Arte do Rio, o MAR, um dos espaços culturais mais importantes da cidade, que recebia de 300 a 400 mil visitantes por ano, sofreu uma intervenção drástica. No apagar das luzes do governo Crivella o MAR foi entregue a uma instituição internacional sem nenhuma tradição de administração de museus. Além disso, não está integrada com a vida da cidade. A OS que administrava o espaço está agora sendo subcontratada para poder se utilizar da Lei Rouanet, já que entidade estrangeira está impedida de se beneficiar desses incentivos fiscais. Ou seja, uma confusão administrativa atrás da outra. O que o senhor acha disso e como intervir no governo Eduardo Paes?
R.O. - Já temos um pedido de audiência com o novo Secretário de Cultura, Marcus Faustini. O que vemos entre uma gestão e outra é a descontinuidade das ações governamentais. É preciso planejamento para que os equipamentos culturais funcionem adequadamente em todas as regiões.
Pode-se afirmar que há um projeto neoliberal de privatizar todo o sistema cultural do Rio, retirando do Estado qualquer responsabilidade sobre a memória e a cultura. O que o senhor pensa sobre isso? Como impedir esse avanço?
R.O. - Não há outro caminho a não ser fazer valer a Lei 6.708/2020, que dispõe sobre o Sistema Municipal de Cultura. Um caminho para barrarmos a política de encolhimento do Estado.
Quais seriam, então, as prioridades de seu mandato?
R.O. – Para a retomada do setor cultural, o primeiro passo será ouvir os trabalhadores da área. Além disso, vamos defender um orçamento justo e adequado para a cultura; trabalhar pela aprovação do Plano Municipal de Cultura para nortear as políticas públicas para os próximos 10 anos; acompanhar a implementação do Sistema Municipal de Cultura recentemente aprovado; constituir um Fundo Municipal de Cultura, com orçamento transparente e aplicação dos recursos com participação do Conselho Municipal de Cultura; revisão na composição do Conselho Municipal de Cultura e realização da IV Conferência Municipal de Cultura, com garantia de ampla participação social.
Além do turismo e da cultura, os moradores do Rio exigem atenção à saúde, educação, segurança, transporte/mobilidade urbana. Quais projetos poderiam melhorar o ambiente na cidade?
R.O. - Ano passado, realizamos o Seminário Qual Cidade Queremos. Recebemos muitos retornos da sociedade para todas as áreas temáticas da cidade. Na cultura, recebemos muitas propostas relativas à ocupação criativa e cultural das praças, um ambiente da coletividade. Mas, agora, nos tempos de pandemia, tudo isso se tornou inviável. Também colhemos outras sugestões, como: a) atenção para o subúrbio da Leopoldina e central; b) incentivo às culturas das favelas; c) cinema e teatro nas periferias; d) criação de pontos de cultura nos bairros e comunidades; e) desenvolver as potencialidades culturais de cada território; f) ocupação de praças públicas com eventos culturais; g) abertura de editais mais específicos, direcionados às linguagens artísticas pouco contempladas, como é o caso do teatro de bonecas e do circo; h) defender a utilização dos imóveis ociosos do patrimônio municipal para a criação de mais espaços para a cultura, devidamente equipados e acessíveis à população, nos bairros historicamente desprovidos de equipamentos culturais, promovendo a preservação de patrimônios históricos materiais e imateriais, bem como de patrimônios naturais e ambientais; i) apoiar a criação, revitalização e manutenção: cinemas, bibliotecas públicas e comunitárias, pontos de leitura, telecentros e teatros, trabalhando pela reabertura dos cinemas de rua, com o incentivo do cineclubismo e a exibição de filmes nacionais nas escolas e nas comunidades tradicionais.
O que o senhor acha do projeto de revitalização do Centro do Rio?
R.O. - Entendo que este é um assunto que deve estar no bojo da discussão do Plano Diretor. Sabemos que é preciso, sim, aumentar a densidade demográfica do centro. Acho que temos que ampliar a discussão sobre este projeto. Importante que haja planejamento, vide a experiência da Área Portuária. Há muita coisa boa por lá, mas, faltou mais diálogo e respeito pela população que ali residia antes da revitalização.
O Museu da Imagem e do Som em Copacabana é uma obra abandonada. Dinheiro público jogado fora. Mesmo sendo esse Museu uma responsabilidade do Estado, não seria o caso dos vereadores cobrarem a sua conclusão?
R.O. - Avalio que é preciso que haja abertura das contas para os gastos envolvidos na obra. E, sempre que possível, as casas parlamentares devem trabalhar complementarmente.
O que senhor achou das últimas medidas do prefeito Eduardo Paes em relação à crise sanitária?
R.O. - Esta é uma matéria que dói falar sobre ela. Estamos diante de um quadro sem precedentes. Falta clareza de intenção por parte do Poder Executivo local. O prefeito tem demorado muito na tomada de decisões, se não há um programa claro, transparente, dá margem para mais aglomerações. Além disso, é preciso um programa que pense a questão dos transportes coletivos. Os trabalhadores, sem opção, estão se aglomerando nos transportes urbanos. Esperamos que a prefeitura também amplie a vacinação para todos e todas.

Quem é Reimont
Professor, bancário e teólogo, Reimont Luiz Otoni Santa Bárbara nasceu em Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais, em 02/09/1961, e vive no Rio desde 1989.
Reimont é vereador do Partido dos Trabalhadores e está em seu terceiro mandato. É uma das principais lideranças do partido no Rio, com atuação destacada contra o golpe, em defesa da Democracia, do Estado Social e do patrimônio nacional e na luta por um PT mais socialista, democrático e de massas.
Iniciou a vida política em Belo Horizonte/MG. Padre da Ordem de São Francisco, sempre esteve alinhado à Teologia da Libertação. Foi pároco da Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca/ Rio, onde hoje mora.
A vivência cotidiana dos problemas da população mais empobrecida consolidou a sua vocação política. Ainda na igreja, participou da fundação de diversos projetos sociais e comunitários, como o Instituto de Prevenção à AIDS (IPRA) e o Grupo de Estudo e Formação de Educadores Populares (GEFEP). Deixou de exercer o sacerdócio em 2002, sendo casado e tendo uma filha.
Como vereador, trabalha em favor de questões que beneficiem as populações mais empobrecidas: Defesa do Estado Democrático de Direito, Educação Pública, Cultura, Comércio Ambulante, Transporte Público, Moradia Popular Adequada e População em Situação de Rua.
É autor de mais de 30 leis municipais, entre elas, as Leis da População em Situação de Rua, do Fomento ao Samba Carioca, do Artista de Rua, do Comércio Ambulante e do Orçamento Criança e Adolescente. Defende a participação da sociedade, na discussão e controle do Orçamento Municipal, sendo também o autor da lei que institui o orçamento participativo na cidade.
É o atual presidente da Comissão Permanente de Cultura da Câmara Municipal, membro da Comissão Permanente de Direitos Humanos e preside as seguintes Comissões Especiais: de Acompanhamento da Agenda 2030 (ODS), de População em Situação de Rua, de Habitação e Moradia Adequada, de Comércio Ambulante e de Políticas Públicas para a Juventude.
Criado em 2021-03-05 19:30:48
Romário Schettino –
O vereador Lindbergh Farias, atual líder da bancada do PT na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, fala, nesta entrevista a este site e ao jornal Brasil Popular, que a principal missão de seu mandato é buscar solução para o enfrentamento da pandemia do coronavírus e da consequente crise econômica no município e no Brasil.
Para derrotar Jair Bolsonaro, Lindbergh defende a “união das esquerdas em torno de um projeto de reconstrução do Brasil, da soberania nacional e da geração de empregos”.
Para o vereador, “o neoliberalismo perverso que vem sendo aplicado no nosso país [pela dupla Bolsonaro-Paulo Guedes] tem gerado consequências sociais graves e destruição da economia do Brasil. É necessário diálogo com amplos setores [políticos e sociais] que tenham compromisso com a soberania nacional e a geração de empregos”.
Sobre a crise que se estabeleceu no Rio de Janeiro, Lindbergh disse que o governador afastado Wilson Witzel [que está indo embora com o julgamento de seu impeachment], o ex-prefeito Marcelo Crivella [que já se foi] e Bolsonaro, “que logo chegará a sua vez”, são os responsáveis pela destruição do sistema cultural do Rio de Janeiro. “Eles odeiam a cultura, mas o povo do Rio jamais vai se deixar dominar por essa corja, produtora de mentiras e falsidades”, conclui o vereador.
A seguir, a íntegra da entrevista com Lindbergh Farias, eleito com 24.912 votos dos cariocas:
O Rio de Janeiro sempre foi uma cidade vocacionada para a indústria do turismo como geradora de emprego e renda. O que ainda pode ser feito em termos de infraestrutura para a retomada da tradição do Rio como cidade da cultura, do carnaval, do esporte, durante e após a pandemia?
Lindbergh Farias - É importante ressaltar que além do turismo o Rio também é um grande polo de serviços, visto que aqui estão sediadas grandes estatais, como Petrobrás e Eletrobrás, assim como é o Estado que concentra a maior produção do Pré-Sal. Temos também o setor naval que é um grande empregador e está em crise atualmente por causa da política econômica de Paulo Guedes e Bolsonaro, que estão encomendando plataformas de petróleo em outros países e levando os empregos daqui para fora.
Em relação à cultura é necessário buscar formas de incentivar a manutenção dos espaços culturais existentes permitindo que os trabalhadores possam ter uma forma de auxílio para poder atravessar o período de pandemia, assim como os trabalhadores do carnaval. Em relação aos esportes, temos um Parque Olímpico que foi completamente abandonado pelo governo Crivella e é urgente que eles sejam ativados para atender a população do Rio, dando prioridade aos alunos de escolas públicas do município, assim como é fundamental a reativação das Vilas Olímpicas para que nossos jovens tenham atividades esportivas.
O governador afastado Wilson Witzel e o ex-prefeito Marcelo Crivella destruíram o sistema cultural do Rio. Estabeleceram terra arrasada, tudo fechado, abandonado. Esse processo começou muito antes da pandemia. O que o senhor tem a dizer a esse respeito?
L.F. - A esses dois que você citou eu acrescento o Bolsonaro, eles odeiam a cultura e os setores culturais de maneira geral, porque a cultura resgata e preserva a história de um povo e suas lutas e o que eles mais querem é um povo sem memória, sem educação e sem cultura para que eles possam dominar com suas mentiras. Mas o povo brasileiro e em especial o do Rio, jamais vai se deixar dominar por essa corja, o Crivella já se foi, o Witzel está indo e logo chegará a vez de Bolsonaro.
A Câmara de Vereadores tem um papel fundamental nesse processo, o município precisa ter políticas públicas claras de incentivo ao setor cultural e cabe a nós vereadores fazer proposições para que isso ocorra. Com a pandemia, os trabalhadores ligados ao setor cultural foram fortemente impactados. Criada pelo Congresso Nacional, a Lei Aldir Blanc foi instituída para auxiliar esses trabalhadores e repercutiu na cidade do Rio através da construção do Cadastro Municipal Carioca, que mapeia os profissionais e espaços culturais.
Precisamos manter esse mapeamento constante e articular com o Conselho Municipal de Cultura, de forma a facilitar a retomada do setor da cultura no pós-pandemia, garantindo a geração de emprego e a retomada de postos de trabalho.
O Museu de Arte do Rio, o MAR, um dos espaços culturais mais importantes da cidade, que recebia de 300 a 400 mil visitantes por ano, sofreu uma intervenção drástica no apagar das luzes do governo Crivella. O museu foi entregue a uma instituição internacional sem nenhuma tradição de administração de museus, muito menos com a vida cultural da cidade. A Organização Social que administrava o espaço está agora subcontratada para poder utilizar a Lei Rouanet, já que uma entidade estrangeira está impedida de se beneficiar desses incentivos fiscais. O que o senhor acha disso e como intervir no governo Eduardo Paes?
L.F. - Essa política de precarização dos empregos dos trabalhadores brasileiros vem desde o golpe que destituiu a presidente Dilma, e vem sendo seguido por empresários e governantes sem escrúpulos como o ex-prefeito Crivella.Farei um requerimento de informações para a Secretaria Municipal de Cultura para analisarmos as informações e tomar as devidas providências contra mais esse absurdo.
Pode-se afirmar que há um projeto neoliberal para privatizar todo o sistema cultural do Rio, retirando do estado qualquer responsabilidade sobre a memória e a cultura. O que o senhor pensa sobre isso?
L.F. - Somos contra a privatização não apenas do setor cultural, mas também dos vários setores fundamentais da economia, e nisso os liberais e a extrema direita têm acordo. Estavam sucateando o SUS e agora não param de fazer pose com jalecos do SUS, porque é ele que está salvando milhares de vidas nessa pandemia. Em relação à cultura do Rio é necessário a mobilização de todos os "atores" culturais da cidade para revitalizarmos nossa cultura e exigir, tanto do governo municipal quanto dos governos estadual e federal, recursos, não só para sobreviver mas também para levar cultura a todos os cantos dessa cidade.
Diante desse quadro quais seriam as prioridades de seu mandato?
L.F. - Existe prioridade nacional que é acelerar a vacinação da população para barrar a Covid, é preciso pressionar esse governo genocida do presidente Bolsonaro e seu General Ministro que atuam a passos de tartaruga para barrar essa pandemia. Aliás, se fosse de tartaruga seria até bom, o que eles são é contra a vacinação da população, para que continuem reféns do medo e não possam ir para a rua se manifestar contra esse desgoverno.
O Rio é uma das cidades que mais perdeu postos de trabalho nos últimos tempos. Só em 2020 o Estado do Rio de Janeiro perdeu mais de 100 mil empregos, grande parte na cidade do Rio e na região metropolitana. Nossa luta é para reabrir postos de trabalho no Rio que foram fechando aos poucos com a destruição econômica que vivemos desde o golpe contra Dilma em 2016.
Outra prioridade do nosso mandato é a recontratação dos profissionais de saúde e reaparelhamento das UPAS, além reabertura das que fecharam. Posso citar como exemplo a luta que estamos travando em conjunto com as comunidades para reabertura da UPA de Manguinhos.
Vamos lutar junto com os sindicatos, movimentos sociais, prefeituras e outras câmaras de vereadores do Estado para reativação do setor Naval, possibilitando a geração de empregos. Vamos cobrar da Petrobras que ela exerça o seu papel como empresa estatal que ela é, defendendo a soberania nacional e investindo em melhorias para o povo.
Outra prioridade é a melhoria dos transportes coletivos na cidade do Rio, o BRT está uma vergonha, várias estações completamente abandonadas, sem falar nos vários bairros em que a população não tem transporte adequado. Na zona oeste apenas 28% da frota de ônibus está em circulação no meio de uma pandemia. É um massacre com os trabalhadores.
A educação em qualquer época tem que ser uma prioridade de todos os governantes com um pouco de decência, estaremos sempre ao lado dos professores e pais de alunos lutando por melhorias na qualidade do ensino e valorização do professor.
O senhor acha que é possível o Rio voltar a ser a cidade da oportunidade, da prosperidade, refletindo a cara do Brasil?
L.F. - O Estado do Rio passa por uma crise muito grande, tanto pelo desastre dos últimos governos, quanto o ataque que a Lava Jato fez na Petrobrás e nas empresas brasileiras, gerando uma quebradeira e tendo como resultado milhares de pais e mães de família desempregados. O Rio é o estado mais atingido pelo desemprego, que já é gigante no Brasil. E pensar que nos governos do Lula tínhamos pleno emprego, com o presidente que temos e com um governador interino, dificilmente essa situação mudará. Nossa prioridade é a organização do povo para trazer de volta políticas públicas que beneficiem a maioria da população que está completamente esquecida e abandonada.
O que está achando das primeiras medidas do novo prefeito Eduardo Paes em relação à crise sanitária e em relação a vida urbana?
L.F. - O prefeito nomeou como Secretário de Saúde um epidemiologista da FIOCRUZ, que está dando voz à ciência e tocando o processo de vacinação e reorganizando o que o Crivella destruiu. Por enquanto, entendo que esteja no caminho certo, um senão é em relação ao fechamento da UPA de Manguinhos, que com certeza com nossa luta conseguiremos reabrir em breve. Em relação a vida urbana, um mês é muito pouco para se ter uma avaliação.
O que o senhor acha do projeto de revitalização do Centro do Rio?
L.F. - Acho muito importante e vamos acompanhar de perto, é preciso que a prefeitura dê prioridade à questão habitacional, com foco maior na população trabalhadora e de baixa renda, para que elas possam morar perto do trabalho. O centro do Rio precisa de um projeto de revitalização que estenda os braços para o povo e não se torne um objeto de especulação imobiliária.
O Brasil vive um governo cheio de escândalos. O caos vem se instalando dia após dia. Como o senhor está avaliando a conjuntura política, econômica e social em relação ao governo federal? É possível prosperar um pedido de impeachment de Bolsonaro ainda este ano?
L.F. - O caos é para o povo pobre e trabalhador, para os milionários, banqueiros e multinacionais o Brasil é o paraíso na terra. O governo Bolsonaro é um governo de terra arrasada, para o pobre, a classe média e a pequena empresa, e isso vem desde antes da pandemia, a crise sanitária só demonstrou o quanto esse governo é incompetente e desastroso para o país. O Ministro das Relações Exteriores, se é que se pode chamar aquilo de ministro, Ernesto Araújo era o capacho do Trump, agora nem a aliança do ex-presidente americano sobrou para eles. Estão mais perdidos do que cachorro quando cai de caminhão de mudança e completamente isolados. Precisamos mobilizar pelo Fora Bolsonaro e denunciar a destruição do Estado e da soberania nacional realizada por esse governo. O processo de impeachment só poderá ocorrer depois de um grande acúmulo de forças e organização dos movimentos populares.
O senhor tem defendido a união das esquerdas para enfrentar Bolsonaro. E o que mais é preciso fazer?
L.F. - Precisamos de união das esquerdas em torno de um projeto de reconstrução do Brasil, da soberania nacional e da geração de empregos. O neoliberalismo perverso que vem sendo aplicado no nosso país tem gerado consequências sociais graves e destruindo a economia do Brasil. É necessário diálogo com amplos setores que tenham compromisso com essas pautas. Reconstruir a economia do país é dar mais uma vez a oportunidade da população mais pobre sonhar com um futuro melhor com acesso a educação, emprego e renda. Nos tempos de Lula o povo podia fazer um churrasquinho com a família nos finais de semana e sonhar com a casa própria, hoje os preços nos mercados dispararam e as pessoas têm dificuldade de comprar o básico, além disso, a população de rua aumentou absurdamente nos grandes centros urbanos.
Criado em 2021-03-12 21:52:47
Roberto Amaral (*) -
“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista.” Dom Hélder Câmara
A humanidade avançou em todos os campos do conhecimento; dominou a Terra e seus recursos e partiu para a conquista espacial: estabeleceu os mais fantásticos progressos no domínio do conhecimento científico, e foi capaz de avanços tecnológicos antes insuspeitados.
O desenvolvimento da medicina, da genética, da informática, da nanotecnologia, da robótica, criou condições para o aumento da expectativa e da qualidade de vida da espécie. O milagre da tecnologia – reduzindo o mundo a uma casca de noz – faz de todo ser humano, potencialmente, um vizinho de seu semelhante mais distante.
O progresso científico-tecnológico e o crescimento econômico, sob a égide da ética capitalista, todavia, não foram suficientes para tornar o homem mais feliz, nem construíram a paz, pois não foram postos a serviço de toda a humanidade. Ao contrário, fizeram-se instrumento da concentração de renda, da desigualdade social, do império do capital que submete povos, nações e Estados. Fizeram-se igualmente instrumentos da guerra que volta a ameaçar a sobrevivência da vida no planeta. A humanidade de hoje, no ápice do desenvolvimento científico-tecnológico, é marcada pela fome, pela miséria, pela exclusão de milhões de seres humanos, definitivamente condenados ao atraso e ao subdesenvolvimento.
Pela primeira vez na História, há produção de alimentos suficiente para atender às necessidades de toda a população do mundo. No entanto, mais da metade do planeta passa fome. Temos recursos econômicos, materiais e tecnológicos que assegurariam a todos, não fosse a concentração econômica e o imperialismo, moradia, trabalho, escola, saúde e lazer. Não há explicação científica para a pobreza e a fome.
No último dia nove de agosto, o jornal O Globo ilustrou metade de sua primeira página com uma matéria que dispensava legenda, embora cobrasse indignação que ainda não se fez sentir: a fotografia de um grupo de pessoas, homens e mulheres, crianças e velhos, catando alimentos de um caminhão de lixo. Onde? No Haiti? Em Bangladesh? Foto antiga de flagelados nordestinos fugindo da seca de 1958? De onde nos chegava aquela cena de miséria humana, mais forte que as tintas de Portinari? A foto de Onofre Vieira tirada na rua do Rezende, no centro da cidade do Rio de Janeiro, um ou dois dias antes.
E, no entanto, o Brasil é o terceiro produtor mundial de alimentos.
Mas neste país, uma das maiores extensões de terra e reserva de água do planeta, de agricultura capitalista moderna, país do poderoso complexo agroindustrial, cerca de 20 milhões de pessoas residentes nas regiões metropolitanas vivem em situação de pobreza, quadro que ainda se agrava sob a paranoia bolsonarista: de 2020 a 2021 esse contingente de deserdados da civilização aumentou em cerca de quatro milhões de brasileiros. Cinco milhões estão abaixo da linha de pobreza extrema.
Um líder ruralista explica que o papel do agronegócio é produzir alimentos (preferentemente para exportar, acrescento) e não para matar a fome da população, problema que não lhe diz respeito. A classe dominante brasileira, fiel às suas origens (o latifúndio e o escravismo), não tem compromissos nem com o país, nem com sua gente. Rejeita cogitações éticas.
Quando nos autoproclamamos uma das dez maiores potências industriais do mundo capitalista (já ocupamos a sexta posição nesse ranking), a população de pobres passa de 65,4 milhões em 2020 para 71,9 milhões no começo de 2021. Em 2014, os 40% mais pobres das regiões metropolitanas registravam R$ 515 de renda média. Em 2019, esse valor havia recuado para R$ 470. No ano passado, desceu a míseros R$ 396 (O Globo, 9/8/2022).
Relatório da ONU (Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2022-FAO) informa que o número de pessoas afetadas pela fome em todo o mundo subiu para 828 milhões em 2021 – uma alta de cerca de 46 milhões em um ano – e, hoje, afeta 10% de toda a população do planeta. A esses números agregam-se outras cerca de 2,3 bilhões de pessoas, ou 30% da população global, em situação de insegurança alimentar.
Este, o legado da vitória insofismável do capitalismo.
Cerca de 130 milhões de brasileiros passam por alguma forma de insegurança alimentar, algo como 59% da população. É um acréscimo de 60% em comparação a 2018. A fome avança em 2020 e já atinge 33 milhões de pessoas (Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar-Rede Penssan).
A insegurança alimentar grave (fome), em domicílios com crianças menores de 10 anos, subiu de 9,4% em 2020 para 18,1% em 2022.
Em 1955 o governo federal instituiu a Campanha da Merenda Escolar para atenuar a pobreza nutricional das crianças amparadas pela escola pública. Em regra subalimentadas e carentes de assistência médica. Esse programa, mantido até aqui com melhorias significativas introduzidas pelos diversos governos, é considerado a mais importante política pública do país. Lauro Oliveira Lima, o educador, considerava-a “a mais importante reforma pedagógica” da história brasileira desde Pombal. A essas crianças, que têm na chamada “merenda escolar” uma das mais importantes refeições do dia, na maioria dos casos a única refeição do dia, Bolsonaro acaba de negar o direito à alimentação, ao vetar reajuste de 34% ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), aprovado pelo Congresso Nacional.
Se o povo vai mal, se o país regride economicamente, se a crise social se agrava, o capitalismo vai bem. Em 2021 o lucro dos bancos somou R$ 81,63 bilhões. É o maior desde 2006.
A balança comercial do agronegócio brasileiro apresenta superávit de US$ 105,1 bilhões em 2021. É o resultado do recorde histórico nas exportações, que atingiram US$ 120 bilhões em 2021, o que corresponde a uma alta de cerca de 20% na comparação com 2021. No mesmo período o PIB do agro cresceu 8,36% (IPEA).
Percorri os jornalões à cata das repercussões da matéria de O Globo. Animava-me conhecer o aprofundamento do tema, discutindo as causas dessa mazela que nos persegue desde a Colônia. Que nos teriam a informar os analistas de plantão, os especialistas, os acadêmicos? Nenhum comentário. Nenhuma análise. Silenciam editores e nada nos têm a dizer os articulistas. O tema volta à tona nas páginas do jornal dos Marinhos, na forma de entrevista com um dos catadores de comida estragada. Nada que perfure a casca de ovo.
Ninguém parece se perguntar por que há tanta gente passando fome.
Essa realidade, não obstante sua contundência, o fracasso do modelo capitalista, também passa ao largo da campanha eleitoral; uma vez mais a esquerda socialista se omite de seu dever – político, ideológico e inarredavelmente ético – de denunciar o capitalismo como responsável pela tragédia social que nos assola. Abdica de seu dever de contribuir para o nível de politização das massas; enreda-se em metas eleitorais e a elas se limita, uma vez mais confundindo meio com objetivo, tática com estratégia; renuncia ao debate ideológico, omite-se quando seu dever é o confronto político, e assim deixa o caminho livre para o avanço do neoliberalismo autoritário e da extrema-direita.
Ocorre que o socialismo, como nenhum progresso histórico, escala a lista das possibilidades revolucionárias como fruto do acaso ou de doação divina. A inexistência, presentemente, da opção socialista é o resultado do atraso do processo social brasileiro. E simplesmente registrá-lo, ou a ele ceder, ou seja, não intervir e deixar-se governar por ele, é uma postura contrarrevolucionária, porque quando contemplamos a realidade como fato em si, como dado acabado, optamos por conservar o statu quo. A realidade, consabidamente, é um produto histórico construído pela ação humana. O marxista das Teses sobre Feuerbach é aquele que conhece a realidade para poder modificá-la.
A visão conservadora do processo histórico consagra a história das classes dominantes brasileiras, que, das feitorias do século XVI à República, dos escravocratas e traficantes da Colônia aos locatários da Faria Lima e da avenida Paulista, sempre se opuseram a qualquer sorte de mudança ou reforma, permitidas tão-só aquelas que não alteravam a natureza do mando. A ruptura do statu quo é rejeitada e em seu lugar se sobrepõe a conciliação, instrumento de conservação do poder da casa-grande.
O socialismo é, antes de tudo, um humanismo. Trata-se de um projeto de nova sociedade, de um novo padrão de dignidade humana. A divergência insanável com o capitalismo é a exploração do homem pelo homem, que lhe é intrínseca, é a extração da mais-valia; trata-se de um conflito ético, portanto intransponível, e que não pode ser ignorado em momento algum da política. O enfrentamento ao neofascismo é indissociável do combate ao capitalismo, que deve ser permanente, como o proselitismo socialista.
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(*) Com a colaboração de Pedro Amaral.
Criado em 2022-08-15 20:41:40
Dioclécio Luz*
Faltando dois dias para a posse de Lula, prestes a perder o emprego onde não costumava aparecer para trabalhar, o ex-presidente Jair Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos, mais exatamente para Orlando, onde está o Walt Disney World.
A fuga para Disneylândia é coerente com a sua história: ele nunca foi muito de trabalhar, seu maior talento é a diversão. E não é de hoje. O deputado federal Jair Bolsonaro passou 28 anos na Câmara sem fazer nada de produtivo; ele ocupava a tribuna para vomitar seu ódio contra a esquerda e pedir a volta da ditadura. Foi uma nulidade, um estupendo exemplo da mediocridade que às vezes acomete o Congresso Nacional. Antes do parlamento, porém, ele passou pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). E no Exército ele se anunciou como um fiasco, uma vergonha para a farda - Bolsonaro feriu o regimento, quebrou a hierarquia e foi processado por planejar um ato terrorista. Saiu das Forças Armadas pela porta dos fundos.
Essa história não é nova. Ela mostra a absoluta incapacidade do ex-presidente dialogar com quem quer seja e sua total falta de preparo para administrar qualquer coisa. Daí, nos quatro anos em que disse governar o Brasil, Bolsonaro promoveu um desastre em todos os setores. Mexeu até no caráter da população. Graças a ele muita gente perdeu a vergonha em se assumir como racista, LGBTfóbico, machista, grosso, burro, estúpido, golpista. Bolsonaro disse a essa gente para sair da fossa. E ela saiu.
O ex-presidente gosta mesmo é de se divertir. Ele sempre deu um jeito de escapulir do trabalho para passear, visitar uma padaria, circular de moto, tomar banho de mar, cavalgar nas festas do agronegócio. Estudiosos mostraram que Jair Bolsonaro “trabalhou” menos de 5 horas por dia. Bem, depois de passar 30 anos na Câmara e não fazer nada o que se esperaria dele?
O problema é que suas diversões eram bancadas pelo Estado e contavam com o apoio das Forças Armadas. Por diversas vezes ele pegou um jet-ski da Marinha, botou a filha na garupa, e foi se exibir para banhistas bolsonaristas, fazendo acrobacias, piruetas, essas coisas que playboys fazem nas praias. Perguntei a Marinha (via Lei de Acesso à Informação, em 12/04/2022) se o que eu tinha visto era verdade: um presidente tinha ido se divertir na praia com um equipamento da Força! A resposta (assinada pelo GSI) é patética, ridícula. Ela tenta dar uma seriedade ao que não é sério. Conversa fiada. Eis:
“Quanto à utilização de moto aquática da Marinha do Brasil pelo Presidente da República, no litoral do Estado de Santa Catarina, conclui-se que foram planejadas e implementadas medidas de segurança visando garantir a integridade física e moral do Presidente da República e familiares, por ocasião da prática de atividades em meio aquático, no litoral do Estado de Santa Catarina”.
Não foi a primeira vez que o ex-presidente usou equipamentos das forças policiais para a sua diversão. Em Brasília, no dia 31 de maio de 2020, por exemplo, em uma das (muitas) manifestações contra a democracia, Bolsonaro demonstrou seu apoio aos golpistas desfilando para eles como um cowboy: pegou um cavalo da Polícia Militar e, feliz, saiu cavalgando pela Esplanada dos Ministérios, para delírio da garotada, digo, dos seus apoiadores. Era a sua Disney. É ilegal pegar um cavalo da PM? Claro. Mas a PM do DF – a mesma que acompanhou com redobrado carinho as ações dos terroristas em Brasília no dia 8 de janeiro – aceitou.
Esses brinquedinhos de Bolsonaro não lhe pertencem, são equipamentos do Estado, das forças militares, mas o ex-presidente se apropria e usufrui como se fosse particular. Fez isso durante todo o mandato. Os gastos com o cartão corporativo, por exemplo, mostram que ele usou dinheiro público para se exibir e se divertir com os amigos – a sociedade bancou suas farras com os amigos motoqueiros. Bem que o ex-presidente – como menino maldoso e esperto - tentou esconder esse fato, decretando sigilo de um século para as festinhas bancadas pelo cartão, mas o novo governo não aceitou.
Cada vez que Bolsonaro ia para um evento era acompanhado por centenas de militares – os tais seguranças e assessores. É de se imaginar a felicidade desse reizinho medíocre que chegava nos locais para se divertir tendo ao lado um monte de militares. Eles garantiam a festa do reizinho. Com esse aparato Bolsonaro participou de motociatas por todo país sem usar capacete. Isso é ilegal, claro. As forças militares, porém, não proibiram. Perguntei (via lei de acesso) à Polícia Militar de Pernambuco (um dos estados onde ele se divertiu numa motociata) por que foram lenientes com Bolsonaro quando ele descumpriu a legislação de trânsito. Resposta da PM de Pernambuco: “o trajeto percorrido no interior de Pernambuco foi numa BR, sendo de competência legal da Polícia Rodoviária Federal (PRF)”.
As imagens e os testemunhos mostram que não foi bem assim: Bolsonaro transitou em rodovias urbanas, estaduais e federais, quase sempre sem capacete. De qualquer forma, fui saber da PRF (via Lei de acesso) porque aceitaram que uma pessoa circulasse de moto sem capacete numa rodovia federal. Resposta da Polícia Rodoviária Federal:
“As informações solicitadas envolvem operação de caráter estratégico, envolvendo o Excelentíssimo Senhor Presidente da República, cujo planejamento foi mormente idealizado pelo Gabinete de Segurança Institucional-GSI, sendo que a PRF apenas apoiou a logística do evento”.
E assim aprendi com a PRF que dirigir moto sem capacete é parte de uma operação estratégica! O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) foi responsável pela operação e a PRF obedeceu, mesmo sendo ilegal. Nesse país que Bolsonaro e os militares criaram, nesse país de fantasia, essas coisas eram reais.
Na Disney é assim. Porque a Disney não é um lugar, mas um símbolo, é o sonho de paraíso do ex-presidente. A presidência, o poder e a exibição que marcam a função, cristalizaram a Disneylândia de Bolsonaro. E ele foi para a verdadeira, em Orlando – a terra do Pateta e do ratinho Mickey – cogitando ficar ali para sempre. Menino teimoso, não aceitou o resultado das urnas e a perda da função e foi esconder sua frustração na Disney de verdade.
É sintomático que o último ato de Bolsonaro como presidente tenha sido esse. Ele mostra sua altura. Aproveitando tudo o que o poder ainda lhe permitia, pegou um avião militar, da Força Aérea Brasileira (FAB), e fugiu para Disneylândia com uma comitiva de 30 serviçais, a maioria militares.
No dia 7 de janeiro, via lei de acesso, fiz algumas perguntas ao novo governo. A resposta do Gabinete de Segurança Institucional chegou no dia 23 de janeiro. Eis:
- A viagem do ex-presidente foi a trabalho ou passeio?
A viagem presidencial para Orlando, Flórida, EUA, no dia 30 de dezembro, tratou-se de uma atividade privada do Presidente da República, acionada pelo Gabinete Pessoal do Presidente da República.
- Se foi a passeio, qual o motivo de utilizar o avião da FAB?
O emprego da aeronave VC-1 para deslocamento do Presidente da República foi realizado em consonância com a legislação em vigor.
- Quais servidores acompanharam o presidente nessa viagem? Que função desempenharão em apoio ao presidente?
A aeronave VC-1 transportou a Comitiva Oficial, Comitiva Técnica e demais membros da Comitiva de Apoio (segurança imediata), além das tripulações, da viagem presidencial para Orlando, Flórida, nos EUA.
Consta que mais de 30 pessoas acompanharam o ex-presidente no seu último passeio como presidente.
E assim termina a história de um menino mal que virou imperador do Brasil. Como se constatou depois, e o mundo inteiro viu na TV, no Palácio da Alvorada, ficaram sinais de sua fúnebre e nojenta passagem pelo poder. Mas quem melhor relata o cenário pós-Bolsonaro é o colombiano Gabriel Garcia Márquez no romance “O outono do patriarca”. É como se ele narrasse o que restou do Palácio, antiga morada do bisonho e ridículo presidente do Brasil que, terminado seu mandato, fugiu, para se esconder num parque de diversões. O romance começa assim...
“Durante o fim de semana, os urubus meteram-se pelas sacadas do palácio presidencial, destroçaram a bicadas as malhas de arame das janelas e espantaram com suas asas o tempo parado no interior, e na madrugada da segunda-feira a cidade despertou de sua letargia de séculos com uma morna e terna brisa de morto grande e de apodrecida grandeza”.
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*Dioclécio Luz é jornalista e escritor. Publicou artigos e livros sobre arte, cultura, comunicação e meio ambiente. É autor do livro “A escola do medo: vigilância, repressão e humilhação nas escolas militarizadas”, entre outros.
Criado em 2023-02-14 14:29:08
QUE TAL UM SAMBA?
Um samba
Que tal um samba?
Puxar um samba, que tal?
Para espantar o tempo feio
Para remediar o estrago
Que tal um trago?
Um desafogo, um devaneio
Um samba pra alegrar o dia
Pra zerar o jogo
Coração pegando fogo
E cabeça fria
Um samba com categoria, com calma
Cair no mar, lavar a alma
Tomar um banho de sal grosso, que tal?
Sair do fundo do poço
Andar de boa
Ver um batuque lá no cais do Valongo
Dançar o jongo lá na Pedra do Sal
Entrar na roda da Gamboa
Fazer um gol de bicicleta
Dar de goleada
Deitar na cama da amada
Despertar poeta
Achar a rima que completa o estribilho
Fazer um filho, que tal?
Pra ver crescer, criar um filho
Num bom lugar, numa cidade legal
Um filho com a pele escura
Com formosura
Bem brasileiro, que tal?
Não com dinheiro
Mas a cultura
Que tal uma beleza pura
No fim da borrasca?
Já depois de criar casca
E perder a ternura
Depois de muita bola fora da meta
De novo com a coluna ereta, que tal?
Juntar os cacos, ir à luta
Manter o rumo e a cadência
Esconjurar a ignorância, que tal?
Desmantelar a força bruta
Então que tal puxar um samba
Puxar um samba legal
Puxar um samba porreta
Depois de tanta mutreta
Depois de tanta cascata
Depois de tanta derrota
Depois de tanta demência
E de uma dor filha da puta, que tal?
Puxar um samba
Que tal um samba?
Um samba
Fonte: Biscoito Fino
Criado em 2022-06-20 13:32:15
Alexandre Ribondi –
o mundo que eu vejo,
o imundo que eu olho,
passam pela
lente da minha primeira memória:
um homem velho,
muito velho,
cansado e imóvel,
deitado numa cama,
para tossir até morrer.
Vivi muito pouco, quase nada,
ao lado do meu irmão amado,
muito amado,
porque ele era ladrão,
tinha que fugir da polícia
e não tinha tempo para mim
-mas, entre um roubo e outro,
entre uma fuga e mais uma,
ele me sorria e me beijava.
Meu doce pai,
meu muito doce pai, quis se matar
com um revólver apontado
para a cabeça cansada.
Minha mãe, minha mãe,
minha muito mãe,
me levava pela mão
aos encontros que tinha
com o amante dela,
e ele me dava dinheiro
para eu não contar nada.
Eu comprava torrones
cobertos com chocolate
com o dinheiro do amante
e foram os melhores torrones
com chocolate que já provei um dia.
Eu era o viado
que merecia o desprezo
e o riso maligno
na escola, na rua,
na igreja, nas festas de aniversário
e até os meus amigos
tinham que explicar às suas mães
que eu não oferecia perigo.
Mas, apesar de tudo,
mesmo sabendo de cada uma
das merdas que deram aroma e sabor
à minha vida,
nunca tive um momento de tristeza real,
de ódio,
ou de nota baixa na escola.
Sempre fui
aluno perfeito,
sempre fui um amargurado risonho,
um desesperado incapaz de sofrer.
Sou
superficial
para suportar a profundidade
que a tosse do velho, o mundo e o imundo
me obrigaram a ter.
Criado em 2021-02-23 20:18:10
Marcos Bagno (*) –
A narrativa dos progressos científicos precisa ser periodicamente reavaliada, criticada e, se for o caso, refeita. Afinal, como diz o provérbio, quem conta um conto aumenta um ponto, e esse ponto vem sempre desenhado pela inescapável ideologia. E foi bem isso o que aconteceu na virada do século 19 para o 20. E, ao contrário do clássico de Marx e Engels, A ideologia alemã, aqui vamos falar de uma ideologia antialemã.
Em 1864, a Prússia (ancestral da Alemanha) promoveu uma guerra contra a Dinamarca, da qual saiu vitoriosa. Em 1866, venceu a Áustria em outra guerra. E em 1870-1871, foi a vez de combater a França, que se viu derrotada e humilhada com a ocupação de Paris. Mais adiante, a Alemanha, já unificada, promoveu a Primeira e, bem depois, a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso fez surgir e crescer, na Europa ocidental, um forte sentimento antigermânico. Ora, o século 19 foi totalmente dominado, no campo dos estudos linguísticos, por estudiosos de língua alemã. Isso se deveu, em boa parte, ao desenvolvimento de um importante sistema universitário, que resultou na institucionalização de diversas áreas do conhecimento, entre elas a Sprachwissenschaft, “ciência da linguagem”, que em outros idiomas veio a se chamar linguística.
Há exatos duzentos anos, em 1821, o grande pioneiro dos estudos histórico-comparatistas, Franz Bopp (1791-1867), se tornou o primeiro ocupante de uma cátedra de linguística numa instituição acadêmica, a recém-fundada Universidade de Berlim. Enquanto em outros países os intelectuais e cientistas tinham de se virar sozinhos para pesquisar e publicar seus trabalhos (pensemos, por exemplo, em Darwin, que nunca atuou numa universidade), em terras alemãs, a instituição universitária lhes garantia boas condições de trabalho e de subsistência. Assim, os nomes que brilharam na linguística do século 19 compõem uma lista quase toda de sobrenomes alemães: Schlegel (dois irmãos), Bopp, Humboldt, Schleicher, Grimm (dois irmãos), Benfey, Pott, Müller, Schuchardt, Osthoff, Brugmann, Curtius, Sievers, Paul e por aí vai. Mesmo os não alemães que se destacaram nesse campo fizeram seus estudos na Alemanha, como o estadunidense William D. Whitney e, claro, o suíço Ferdinand de Saussure.
É fácil então levantar a hipótese (tão ideológica quanto qualquer outra) de que os estudiosos da linguagem, no início do século 20, queriam se desembaraçar do predomínio alemão, desejo que refletia o impregnado sentimento antigermânico que mencionei acima. Quando, em 1916, os alunos de Ferdinand de Saussure publicaram o Curso de linguística geral, aquele desejo pareceu milagrosamente satisfeito: quem melhor do que um recatado professor suíço (ou seja, da terra da “neutralidade”) de língua francesa para ser mitificado como o “pai da linguística moderna”, um pensador cuja (suposta) originalidade faria a linguística alemã do século anterior se tornar obsoleta e anacrônica da noite para o dia? Não admira que somente a partir da segunda edição do Curso, em 1922 (ou seja, no período entre as duas guerras mundiais), o livro que Saussure não escreveu tenha começado a ser visto como a bíblia da tal linguística moderna. E assim tem início a narrativa laudatória que até hoje todos escutamos (e reproduzimos) em nossas aulas de introdução à linguística de tantas e tantas universidades. No entanto...
No entanto, no subsolo do Curso de linguística geral se agitam, invisíveis, as verdadeiras fontes das teses apresentadas na obra como originais e inovadoras, fontes que, entretanto, nunca são mencionadas (o livro nem sequer traz uma bibliografia no final!). E uma das mais notáveis dessas fontes é a obra do linguista (surpresa!) alemão Hermann Paul (1846-1921), cujo centenário de morte se completa este ano. O livro que Paul, sim, escreveu e publicou em 1880, Prinzipien der Sprachgeschichte (“Princípios de história da língua”), foi, durante quarenta anos, a leitura obrigatória, o manual básico para qualquer pessoa que se aventurasse nos estudos linguísticos. Fosse para adotar a teoria ali exposta ou para rejeitá-la, a obra de Paul se tornou incontornável. O livro teve três edições posteriores (1886, 1898 e 1920), sempre com acréscimos e retificações, o que demonstra o desenvolvimento constante do pensamento do autor.
Quando comparamos os Prinzipien de Paul com o Curso atribuído a Saussure, o que logo chama a atenção é a profundidade e a sofisticação das teses de Paul, que contrastam com a pobreza e a superficialidade de temas abordados no Curso. De fato, o Curso não vai além de uma linguística da palavra (o tal signo linguístico que, ao fim e ao cabo, a gente nunca sabe exatamente o que é), enquanto Paul dedica vários capítulos ao estudo da morfossintaxe, que é o núcleo duro do estudo do funcionamento das línguas humanas. A crítica textual acaba também por revelar, no Curso, um grande número de paráfrases, quando não de traduções literais do que aparece no livro de Paul publicado, é sempre bom lembrar, 36 anos antes. Vamos mostrar apenas algumas delas.
No livro de Paul, é possível ler o seguinte: “A partir da comparação dos organismos individuais da língua, pode-se obter uma certa média, em que se determina o que é realmente normal na língua, o uso geral”. Pois lá no Curso de linguística geral aparece: “Entre todos os indivíduos assim conectados pela linguagem se estabelecerá uma espécie de média”. Paul escreveu: “Toda criação linguística é obra de um único indivíduo”. Saussure (não) escreveu: “Todos os fenômenos evolutivos têm sua origem na esfera do indivíduo”. Lemos nos Prinzipien: “Fornecer tal descrição de um estado de língua [...] não é, portanto, uma tarefa fácil e, em certas circunstâncias, uma tarefa muito difícil”. Lemos no Curso: “É muito mais difícil fazer linguística estática do que histórica. [...] [A] linguística que se move entre valores e relações coexistentes apresenta dificuldades bem maiores”. Em Paul aparece: “A atração mútua se baseia sempre numa correspondência parcial do som ou do sentido ou do som e, ao mesmo tempo, do sentido”. Em Saussure (?) aparece: “Ora se tem comunidade dupla do sentido e da forma, ora somente comunidade de forma ou de sentido”. Por fim, a famosa exclamação de Paul – “Abaixo todas as abstrações!” – reaparece no Curso como “não existe nada de abstrato na língua!”. Tem-se a impressão de que o Curso de linguística geral é uma espécie de “apostila” que resume, para fins didáticos, as teorias dos autores mais divulgados na época.
Além disso, as famosas dicotomias “saussurianas” (língua/fala, diacronia/sincronia, significante/significado, conceito/imagem acústica, relações paradigmáticas/relações associativas) se encontram todas nos Prinzipien de Paul, evidentemente com outros nomes. A célebre image accoustique atribuída a Saussure corresponde à Lautbild (“imagem sonora”) de Paul, assim como o Sprachusus corresponde à langue e a individuellen Sprechtätigkeit corresponde à parole. As relações associativas e sintagmáticas (rapports associatifs et syntagmatiques) do Curso remetem (sem dar os créditos) aos conceitos de stoffliche und formale Gruppen (“grupos materiais e formais”), de Proportionengruppen (“grupos de proporção”) e syntaktischen Verbindungen (“conexões sintáticas”) e kombinatorische Tätigkeit (“atividade combinatória”). A ideia de que a língua é uma estrutura não aparece nem uma vez no livro que, veja só, os estruturalistas elegeriam como o suposto ponto de partida de suas teorias, ao passo que no livro de Paul essa conceitualização da língua é diversas vezes enunciada.
Na ciência, nada se faz ex novo nem ex nihilo, isto é, a partir do nada, graças a alguma iluminação repentina, a um “estalo” de genialidade ou como Minerva da cabeça de Júpiter (uma pitada de mitologia sempre dá um tom chique ao argumento, né?). A história da maçã que caiu na cabeça de Newton e assim fez ele “descobrir” a lei da gravidade é desmentida pelo próprio Newton que disse: “Se consegui ver mais adiante foi porque fiquei de pé sobre os ombros de gigantes”.
A linguística é um campo de conhecimento que vem se construindo, na cultura ocidental, há mais de 2.500 anos. A tese da arbitrariedade do signo, por exemplo, é discutida por Platão, por seu discípulo Aristóteles, passa pelos estoicos, por santo Agostinho, por Dante Alighieri, atravessa os séculos, reaparece pelas mãos de Wilhelm von Humboldt na virada do século 18 para o 19, é retomada pelo estadunidense William D. Whitney (outra das fontes importantes do Curso de linguística geral nunca devidamente reconhecidas), de modo que não representa novidade alguma quando é enunciada por Saussure.
Mas também não é o caso de querer substituir um “pai” por outro, de fazer um teste de DNA para cobrar pensão alimentícia. Hermann Paul foi, sim, um importante pioneiro da linguística moderna, mas seu livro principal é recheado de referências aos pensadores (devidamente nomeados) que contribuíram para a sua formação. Procurar “pais fundadores” de disciplinas científicas é negar a própria natureza do empreendimento científico. Ainda mais quando esses pais, como no caso de Saussure (que jamais aspirou a esse título nem tomou conhecimento de que lhe tivesse sido atribuído), parecem reproduzir, quase literalmente, as palavras dos avós.
_______________

(*) Marcos Bagno (na foto, acima) é professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador associado do Instituto da Língua Galega, da Universidade de Santiago de Compostela. Escritor, poeta e tradutor, se dedica à pesquisa e à ação no campo da educação linguística, com interesse particular no impacto da sociolinguística sobre o ensino. Ministra cursos no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Espanha, Itália, Colômbia e México. Tem diversos livros publicados, entre os quais se destacam A língua de Eulália – novela sociolinguística; Preconceito linguístico – o que é, como se faz; Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa; A norma oculta – língua & poder na sociedade brasileira; Nada na língua é por acaso – por uma pedagogia da variação linguística; Não é errado falar assim – em defesa do português brasileiro; Gramática pedagógica do português brasileiro; Gramática de bolso do português brasileiro.
(Este artigo foi publicado originalmente no blog da Editora Parábola)
Criado em 2021-03-16 01:22:27
Sandra Crespo -
A decisão da Comissão de Direitos Humanos da ONU, seis anos depois da petição feita pelos advogados de Lula, é uma grande vitória, ainda que não possa reparar a tragédia que desabou sobre o Brasil com o advento da lava jato.
Eu só lamento que a maioria dos jornalistas analistas não lembre que a decisão tardia do Supremo Tribunal Federal sobre a ilegitimidade do foro em Curitiba deveria ter sido julgada preliminarmente pelo STF - já que esta foi alegação primeira da defesa de Lula.
Se assim tivesse feito o Supremo, a história poderia ter sido outra.
Porém, mesmo certo de que as alegações de sua defesa não obtinham um décimo da atenção que o juiz Moro concedia aos procuradores justiceiros, Lula cumpriu todas as decisões judiciais. Não hesitou em se apresentar para o cumprimento da pena e a aceitar o veto à sua candidatura em 2018.
Lula se colocou à disposição das instituições judiciais, perdendo a sua liberdade por 580 dias. Isso, sendo um ex-presidente da República, e apesar das tantas evidências da não observação do devido processo legal pelo juizeco e seus miquinhos deslumbrados.
Pois é, gente. Lula respeita as decisões da Justiça brasileira, mesmo que as considere injustas.
Lula é um democrata. Ao contrário da abominação que comanda o Brasil, dessa pilantragem, dessa molecagem a que assistimos se consolidar desde a lava jato. O Brasil vive uma crise moral sem precedentes em sua história.
Mas eu tô com a alma lavada com esse reconhecimento da ONU, mesmo que seja apenas simbólico; e ainda que não haja reparação do Estado a Lula (pelo menos por ora), como aliás recomenda o comitê.
Todas as alegações da defesa contempladas, apesar do tempo e das vidas que o Brasil perdeu nesses longos e escuros seis anos.
Criado em 2022-04-29 01:04:07
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Criado em 2020-12-16 18:30:32
Talha-mar (Rynchops Níger): Voa rente à água com o bico aberto para capturar peixes na superfície.
Também conhecido como Corta-água, Talha-mar-preto, Corta-mar, Bico-rasteiro e Gaivota-de-bico-tesoura. Mede aproximadamente 50 cm de comprimento. O bico é, em grande parte, preto, com uma pequena parte vermelha, coloração também presente nos pés da ave. Voa rente à água com o bico constantemente aberto para a captura de peixes miúdos e camarões presentes na superfície. Pesca preferencialmente ao crepúsculo e à noite, tanto em águas claras como turvas, profundas ou rasas. Habita praias de grandes rios, lagos e estuários ao longo da costa. Ocorre ainda desde os Estados Unidos até a Terra do Fogo, na Argentina. Fonte: Wikiaves e outros. Registro feito em 02.12.2015, na Reserva Biológica do Rio Descoberto, em Brasília (DF).

Criado em 2016-11-25 17:49:37
Zuleica Porto -
“No admirável mundo novo do futuro ao nosso alcance não haverá espaço para tiranos, muros ou guardas, pois a verdadeira segurança é conviver em uma comunidade de amigos. Não podemos mais viver ilhados como náufragos e amontoados como formigas, com medo uns dos outros. Será preciso realizar uma ocupação mais inteligente dos espaços, com bem-estar social e planejamento familiar que permitam um equilíbrio entre as gerações, para o convívio saudável entre todas as idades”.
Sonho manifesto, o novo livro do Sidarta Ribeiro, já está nas livrarias. Em boa hora nos chega, em capa alegremente psicodélica, o “lado político do Oráculo”, como define o autor. Para quem ainda não leu, O oráculo da noite – a história e a ciência do sonho, (Cia. das letras, 2019) é um livro que alia os saberes da neurociência, medicina e psicanálise às narrativas literárias e históricas dos povos, com algumas memórias oníricas do escritor – é um sonho de infância, recorrente e assustador, que abre o livro – para traçar uma história da mente humana.
No livro mais recente, o escritor fala do sonho na segunda acepção da palavra em português: sonho como anelo, desejo, vontade de que uma nova sociedade seja engendrada pelas gerações que hoje habitam o planeta. Justa, igualitária, sem fronteiras, guerras ou diferenças sociais, em que todas as espécies sejam felizes.
O livro é a manifestação de um “sonho acordado” e também uma declaração pública em que o escritor sugere mudanças para alcançar o “mundo novo” deste sonho, em tudo o inverso do pesadelo imaginado por Aldous Huxley, evitando que se tornem reais as previsões mais terríveis do Admirável mundo novo publicado em 1932.
Somos capazes de mudar esse mundo antes que as trevas sejam irreversíveis, é o que lembra o Sonho manifesto de Sidarta. Ele é composto por 10 capítulos, ou dez exercícios urgentes de otimismo apocalíptico, como diz o subtítulo. O primeiro passo, perceber a oportunidade de mudar, remete o leitor ao “vírus que colocou todo o planeta de joelhos” e obrigou a humanidade a reconhecer o estado de sofrimento em que já vivíamos, mesmo antes da pandemia. Sofremos no corpo e na mente, “imersos em 1,4 bilhões de carros e 3 bilhões de smartphones”, lembra o autor. E segue o inventário de desgraças que assolam o planeta: fome crônica, violência desatinada, descaso pelas vidas de populações inteiras. Nem precisamos sair de casa para testemunhar tudo isso; pela TV, rádio, jornais, pelas telinhas dos tais “telefones espertos”, ou mesmo andando pelas ruas de qualquer grande cidade brasileira.
Esta semana, caminhando pelo Setor Comercial Sul da cidade de Brasília, me deparei com um cenário que bem poderia ilustrar o livro: enquanto os edifícios que antes abrigavam escritórios comerciais estão vazios, uma multidão de vendedores ambulantes ocupa os pilotis e demais espaços disponíveis, oferecendo todo tipo de mercadorias, de toalhas e camisetas do Lula a frutas e legumes de ótimo aspecto (realmente, bem mais bonitos que os das prateleiras dos supermercados). São os desempregados que lutam para fugir da fome e conseguir manter um teto sobre a sua cabeça e as dos seus familiares. Comprei uma camiseta e uma toalha do Lula na mão de uma moça muito simpática, que estava com o marido e um filhinho de uns 6 anos, os dois de camisas do Flamengo. Conversamos sobre o Lula, o Flamengo, as férias escolares que obrigam o casal a levar o Marcus Vinícius para o batente diário. Cabe a pergunta: por que os atuais trabalhadores do Setor Comercial Sul não podem morar em seu local de trabalho?
O segundo exercício de otimismo apocalíptico é compreender que estamos diante da oportunidade, “preciosa”, de sair do turbilhão insensato que torna impossível um futuro nesse planeta, por enquanto ainda habitável. Além de oportuno, o momento também é urgente, alerta Sidarta Ribeiro. Diz o escritor que “nós, os primatas superinteligentes, criamos (na natureza) um enorme desequilíbrio: enquanto uma fração muito pequena da população humana – os materialmente ricos – experimenta condições que permitem evitar qualquer tipo de dor, a maioria das pessoas e dos outros animais experimenta estresse e dor por toda a vida, com morte cruel e precoce”. E este é o momento em que podemos, agindo com sabedoria e técnica “impecáveis”, diminuir o sofrimento humano e não humano, “criando um paraíso digno de ser exportado para outros planetas”.
Caso contrário, mantendo a marcha da insensatez, o futuro que nos aguarda é mais e mais sofrimento para todas as espécies. Um dos horrores possíveis, que a ficção também já apontou, é a especiação humana: a formação de uma espécie de humanos ciborgues, inteligentíssimos e longevos entre os mais ricos e, entre os miseráveis, uma espécie de desnutridos, atrofiados biológica e culturalmente, vivendo das migalhas. Como a troca genética e cultural entre os do “andar de cima” e os do “andar de baixo” é quase nula, não é difícil imaginar essa possibilidade. Há outras desgraças possíveis, como a perda de todo o acervo cultural dos povos indígenas, bem como da biodiversidade de regiões extensas, como a floresta amazônica, com a ocupação predadora dos espaços. É longa a lista. Vivemos, portanto, um momento paradoxal de potência destrutiva e construtiva, e para que lado iremos?
A resposta virá de nossas ações e inações. Valorizar e cuidar do que de bom temos em nossa herança cultural, o que nos trouxe até aqui, e jogar fora “o lixo tóxico” que veio junto na bagagem, que nos atravanca, envenena e faz sofrer. O autor fala de curar a nossa pior ancestralidade. No Brasil, a sociedade injusta e desleal gerada pela tradição patriarcal, trazendo em si o machismo, racismo, homofobia, opressão, e segue o rol. Nas sociedades judaico-cristãs, a demonização do sexo e da maternidade torna “feias” as palavras ligadas à procriação e ao prazer...É muito lixo que precisamos descartar.
Por outro lado e ao mesmo tempo, é urgente honrar e preservar o que temos de melhor em nossa herança, ou a nossa melhor ancestralidade. Como a capacidade de cooperação, praticando o que o monge budista e cientista (Ph.D. em genética celular) Mathieu Ricard considera A revolução do altruísmo (publicado no Brasil pela Palas Athena, 2015), título do alentado estudo em que advoga que sobrevivemos não principalmente por nossa agressividade, mas pela nossa capacidade de ajudar uns aos outros. Para nos inspirar, os exemplos surgem em nossa melhor ancestralidade. Em seu extenso currículo, Sidarta inclui a condição de formando do Grupo Capoeira Brasil, e recorre à história de vida e resistência de dois famosos Mestres capoeiristas, Pastinha (fundador da Capoeira Angola) e Bimba (fundador da Capoeira Regional). O que nos ensina a capoeira? “Todo mundo gosta de vencer; o difícil é aprender a cair, a levantar e a se esquivar, com um sorriso no rosto e nova demanda para jogar”, um ensinamento precioso nesta luta-dança, cheia de música, respeito e alegria. “Visto de cabeça para baixo, esse mundo torto até que pode ter jeito”, diz o capoeirista Sidarta, e me ocorre a visão de minha neta Cecília, espanhola batizada Corajosa na Capoeira, que descobriu o mundo de ponta-cabeça, e o visita sempre que pode...Ambientalista, feminista, militante das boas causas, Cecília me faz lembrar a menina Greta, sueca que sacudiu a juventude com suas “Sextas para o futuro”, afinal o futuro é deles e delas, jovens que têm direito ao melhor mundo ainda possível.
Seria longo demais descrever todas as ações propostas nesse pequeno, valente e precioso Sonho manifesto, que surge em consonância com o pensamento de gente como Ailton Krenak, que busca de um “futuro ancestral”. Ou Davi Kopenawa, que alerta para a doença do dinheiro de que sofremos nós, “o povo das mercadorias”. Ou a feminista italiana Silvia Federici, que em Reencantando o mundo – o feminismo e a política dos comuns (Editora Elefante, 2022) reúne uma série de artigos, dela e de outros pensadores, reivindicando uma nova política, em que o comum em que viveram (e ainda vivem) muitas culturas ancestrais, seja retomado como modelo. É o que busca também a líder comunista Yolanda Díaz, propondo uma política sem partidos ou siglas, em que todas as classes sociais tenham voz. Greta. Federici, Yolanda, Cecília. O futuro, além de ancestral, tem rosto e nome de mulher. Há de ser alegre, solidário com todos os seres e colorido, este futuro. Ou não será.
______________________
Sonho Manifesto
Autor: Sidarta Ribeiro
Companhia das Letras, 2022
Criado em 2022-07-13 01:01:07
Maria Lúcia Verdi -
“O homem é um tubo sonoro por onde passam ventos que misturam nossa respiração ao cosmos.” (Bachelard, epígrafe da tese de doutoramento de Luiz Olivieri)
Nestes tempos em que as emoções são, quase todas, melancólicas ou indignadas, visitei a mostra Extraclasse: sondiagem e escuta como métodos de invenção, do artista e professor Luiz Olivieri, atualmente no Centro Cultural Banco do Brasil-BSB (CCBB-Brasília). Emocionou-me adentrar um espaço despojado e instigante e descobri-lo engajado e cósmico - imersão num universo poético-político mais do que oportuna.

Na instalação criada por Olivieri faz não apenas uma análise crítica do sistema educacional brasileiro - um Eletrocardiograma dele, como se intitula um dos trabalhos expostos - como também uma amostragem do que a imaginação de um industrioso artista pode fazer. Dada a complexidade do exposto, para escrever esta matéria senti necessidade de ler a tese de doutoramento do artista em Artes, pela UnB, da qual retiro as citações. A mostra e a tese têm o mesmo nome. As obras da instalação precisam ser vistas e ouvidas, mostra aural que é, difícil de aqui ser descrita.

Tendo a escuta como método de investigação enquanto educador e artista, Luiz desenvolve o que chama de “sondiagem”, seu modo de estar no mundo, sondando a vida numa “vadiagem” prazerosa, ao construir sua “cartofonia individual”. A partir dos estímulos sonoros, mapeia a realidade que o cerca e na qual se insere como “espião” e “estrangeiro”, palavras que emprega na referida tese, ao explicar sua postura enquanto professor. Encarando a escola como residência artística, escutando a sala de aula e o que está ao redor dela, como sugere Paulo Freire, Luiz propõe recriar a educação tradicional.
“Muitas vezes me vejo como um espião dentro da escola pelo simples fato de estar à escuta. Um professor-espião em exercício efetivo na Secretaria de Educação do DF, que escuta as atrocidades e violências diárias do Sistema Escolar. Um professor diante do tempo-surdo das escolas.”
E além de espião, estrangeiro, pois faz parte da estratégia do artista-professor ficar dois anos em cada escola, de modo a não se acomodar no espaço, não “fazê-la casa”, amortecendo sua profícua inquietação.
“O estrangeiro entende o espaço como vivo, o professor-estrangeiro escuta as pulsações da escola e estimula os seus alunos a também a estranharem.” É ambiciosa a tese, propondo que a educação incorpore conceitos e atitudes do filósofo, do psicanalista, fazendo com que o par aluno-professor, quase como na relação socrática, questione e repense a realidade.
Escutar o outro é agir politicamente. O professor que pratica uma geopoética da escuta amplia seus horizontes e os dos alunos. Em nosso presente, que o professor-artista chama de tempo-surdo – surdo à escuta do outro, das minorias – é urgente que os educadores despertem para o papel da escuta e não apenas da fala, fala na maioria das vezes “cacofônica”, institucionalizada e castradora. Identificar palavras-pulsantes (“arma sonora contra a cacofonia da escola”) na fala dos alunos, e que eles também possam identificá-las como vibrantes, significativas, em suas vidas e em seu entorno - palavras como estrelas-guias para a vida, penso.
“A geopoética da escuta desconstrói o espaço, revela seu antiespaço, evidencia sua sombra sonora, os sons em penumbra. Talvez por isso, a escuta seja essa grande abertura, a fissura provocada pelas oscilações no\do espaço, uma sismografia por dentro.”
Os sons em penumbra, o sem espaço para ser dito numa sociedade que luta como nunca antes para não ser hegemônica, mas que ainda o é, em que as instituições e a mídia silenciam as vozes dissonantes. Os sons em penumbra das populações indígenas e afrodescendentes, da população Lgbtqia+, pontuados pela poética de Hilda Hilst, João Cabral de Mello Neto, Waly Salomão, Hélio Oiticica e outros, são tornados audíveis numa tese que remete às vozes de lideranças, pensadores e artistas que se afirmam no atual momento da história brasileira.
Na sua instalação, composta por cinco obras, feita “em parceria” com ex-alunos, Luiz Olivieri faz uso de elementos fundamentais da escola tradicional, como a lousa e as carteiras, provocando a imaginação do visitante. A coautoria se deve ao fato de Luiz expor em quadros frases anotadas pelos alunos a partir da escuta desde suas casas, sons que Luiz chama de “paisagens-sonoras”.
No centro da sala (foto, abaixo), a obra Ponto de encontro, um círculo de carteiras em torno de um centro vazio, círculo que se repete, em outra obra, no desenho feito por uma agulha de toca-discos de vinil. Círculos que remetem ao cosmos, aos enigmas que os signos cotidianos podem trazer. Círculo de cadeiras à espera do diálogo, da troca de ideias. Essa mostra consegue ser um grito ao mesmo tempo agudo, poderoso - pelo que traz de informação e reflexão sobre o dilema da educação neste hiper complexo século XXI – e grave, delicado, em seu aspecto visual despojado.

Na série Cacofonias, composta por sete blocos, sons (palavras, frases) recolhidos na escola em que trabalhava o artista, referências culturais, breves depoimentos de educadores, registros da atenta escuta de um artista comprometido com o significado das informações que nos vêm de um mundo eminentemente visual, rapidíssimo, no qual dificilmente se chega à compreensão das inúmeras verdades e inverdades que nos circundam.


A obra Lousa, palavra cacofônica ou mato da escola - recorte a laser sobre fórmica verde utilizada na lousa escolar, de longe, se vê como uma quase “pintura” verde e na qual, de perto, podem ser lidos textos – é talvez o exemplo central da síntese político-poética da mostra. Textos são transformados em mato, ilegíveis à distância, identificáveis de perto.
Em outro trabalho, Educação por ondas, de 2019, igualmente sintético e desafiador, que não faz parte da exposição em pauta, Luiz grava “as ondas eletromagnéticas da escola” (sua “topofonia”, título de uma das obras expostas na mostra em questão) e as reproduz em ripas de madeira, dando “à escola e a seus acontecimentos a dimensão cósmica”. O cosmos que também é anunciado como signo e pergunta no círculo vazio que as cadeiras escolares delimitam, bem como no círculo que a agulha do toca-discos desenha.
Obra ícone da postura existencial-política de Olivieri é Antena de Altitudes, de 2015, na qual o artista registra em áudio, vídeo e foto uma apropriação do mastro da bandeira nacional, instalada no mastro da Praça dos Três Poderes. Símbolo de um dos piores momentos da ditadura, durante o governo Médici, Olivieri registra os sons da “estrutura metálica, aparentemente silenciosa, que reverbera nos tubos gerando um som complexo, capturado por microfones de contato.” A bandeira não aparece no vídeo, fazendo com que haja um desconhecimento em relação ao suporte da obra: “É comum me perguntarem se as imagens e sons da obra são de uma estação espacial, um foguete ou uma usina atômica.” Segundo Olivieri, o trabalho pode ser visto como uma abertura para o questionamento das relações entre o indivíduo e o Estado. “Antimonumento”, Antena de Altitudes é proposta como “experiência de imersão no desconhecido cotidiano.”
Desconhecido cotidiano que Luiz, como um engajado flaneur latino-americano, mapeia. O mundo a partir de múltiplas ondas sonoras e da profunda inserção na realidade sociocultural do país. Em liberdade, o artista-professor escuta sons da terra, do ar e do espaço provocando o desejo em nós de também escutá-los.
(As fotos são de Joana França)
__________________
Serviço:
Mostra: Extraclasse: sondiagem e escuta como métodos de invenção
Autor: Luiz Olivieri,
Em cartaz: até 17 de abril
Local: Galeria 4 do CCBB-Brasília - SCES Trecho 2.
Horário de visitação: de 3ª. a domingo, das 9h às 20h30.
Criado em 2022-03-27 22:08:18
Angélica Torres -
Gol de placa, o primeiro dia de 2023 no Brasil! O país chorou um rio amazonas diante de tanta cena comovente naquele cenário niemeyeriano histórico da Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes. Catarse individual e coletiva da vitória de nossa dura guerra de seis anos contra o golpismo e o fascismo – guerra aliás enfrentada sempre de forma pacífica, com incontáveis análises, com criatividade, arte, o nosso sempre-humor, a nossa “manemolência” que nos põe a salvo de sagas de derramamentos de sangue.
Lula lá no palco histórico ensinando como é que se volta à cena "por cimíssima de tudíssimo"¹. A Aula Magna do Ser e do Fazer Político (em pessoa e em tempo real e ininterrupto desde 1978), ali no alto da rampa, coroado, mais que "enfaixado", por representantes dos segmentos minimizados da nossa diversidade étnica e cultural – da qual ele se constitui o símbolo, por excelência, por destino, por missão indubitável.
E, então, a gente “se raoniu" ² na rampa, ao som de Villa-Lobos em seu/nosso Trenzinho Caipira! E Pelé vendo tudo mais do alto, sua alma fascinada sobrevoando o povo, desenhado no chão como uma alfombra de flores de flamboyans entre os monumentos de Niemeyer, enquanto o seu corpo de campeão, preparado para o funeral na madrugada seguinte à desse dia de glória, sinalizava um Brasil que se vai e outro que volta, renovado, em passes quase de mágica.
(De quebra, aqui, a lembrança deste registro jornalístico do início dos anos 1980: Quando interessado em saber sobre personalidades brasileiras, o trabalhador médio europeu só perguntava por dois nomes. Um era Pelé. O outro, Lula. Portanto, que curioso desfecho o deste dia 1o, nesse roteiro envolvendo os dois pop stars do Brasil – e sem a mão física de um autor o assinando, hein, companheiros?).
E o minuto de silêncio, na abertura da cerimônia na Câmara dos Deputados, à partida do ídolo do futebol brasileiro? Bem, este, cada um de nós sabe como lhes bateu na emoção. Aliás, cada brasileiro certamente que ontem se tornou uma espécie de jornalista e tem tudo guardado em seu íntimo relicário pra contar aos das novas gerações o que viu e sentiu, ao longo da nossa longa temporada no inferno e mais ainda desse grandioso 1º do ano. É um dia que não cabe num só dia.
Enfáticos pormenores
Entre tantas percepções, uma especial, impossível de não ser captada (por esta escriba, ao menos): aqueles que acossaram, condenaram, humilharam, torturaram Luís Inácio da Silva, nos deram o prazer de vê-los baixar a cabeça, guardar o rabo murcho entre as pernas e reconhecer a maestria da personagem Lula, em toda a sua espetacular trajetória, própria de uma bela ficção literária. Abaixa sim a crista, cambada!
Era visível a expressão de suas máscaras, detrás dos largos ou de mal disfarçados sorrisos, flagrando (ufffa!) o contraste com a tragédia que subjugou o país nesses últimos seis anos. Os da mídia corporativa, os militares, os parlamentares, os do judiciário, os das polícias, os da área econômica, todos esses que tentaram sufocá-lo, agora tendo de dar a mão à palmatória para Lula, em seu já clássico papel de mandatário exemplar para todo o Planeta.
Mas ele, o “companheiro Lula”, com seu ar de um duende profundamente emocionado e ao lado de sua bela, natural, espontânea, toda swingada princesa plebeia, também expunha na face de pele rosada as marcas honrosas da dor nordestina de tanta luta travada na vida e as de toda a sua experiência acumulada – contrastando com os demais rostos, todos mais jovens, morenos, quase sem marcas, que o cercavam em cada ato da Posse.
E os discursos dele nas duas tribunas? E na voz embargada, e arranhada que nos preocupa, o vigor posto com todas os tons das cores do arco-íris na defesa ao nosso povo? E a subida apoteótica ao Palácio do Planalto, com a cadelinha Resistência atordoada à frente e cercado por cacique, negro, mulher, deficiente e lgbtqia+. Eu, que era a favor de Dilma passar a faixa, me dei por extasiada e bem vencida nessa queda de braços. Céus, que lindeza de cena! Que felicidade vermos nossa inteireza ali recuperada!
E os dois elegantes casais presidenciais desfilando juntos no rolls-royce? – ah essas quebras de protocolo, que só descontraem (e engrandecem) a pompa e circunstância da turma convicta do "style" noblesse oblige!
E essa “primeira dama”, que dá um peteleco nos modos empedernidos das antecessoras no posto e sai se metendo, palpitando, decidindo sobre pontos fundamentais, transformando e adequando tudo à medida do povão todo nosso?
E quem no mundo dos cerimoniais presidenciais é chamado por todos em seus apelidos carinhosos, como Lula e Janja?
É muita coisa para processar, reescrever, reencaixar e assim nos reencontrarmos de fato e de feitos com nossas raízes únicas e de por elas lutar pra que a "Democracia Para Sempre" se torne um milagre brasileiro!
Darcy Ribeiro e Joãozinho Trinta – eita, se ainda conosco! – poderiam juntos dirigir o próximo Desfile das Escolas de Samba, com todas elas dando a sua personal leitura desse dia pleno. A Praça da Apoteose se fundiria com a dos Três Poderes e viveríamos felizes para sempre... até quarta feira, que é hoje a segunda-feira nossa de, ainda, desfrutarmos dessa dulcíssima memória, mesmo que exaustos.
Porque a seguir é arregaçar as mangas e rolarmos a pedra para o alto da rampa, todo santo e herege dia, sem trégua. É para nunca mais nos esquecermos do conselho enfático do nosso sábio Presidente: "Você tem que lutar todo dia!". Pois.
Então, Feliz Ano Novo em folha de lutas com finais assim felizes, meu Brasil brasileiro!
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¹ Referência ao mantra de John Lennon, antes de entrar com os Beatles nos palcos.
² Referência ao verso do poeta Luis Turiba Ou a gente se Raoni ou a gente se Sting, sobre o célebre encontro do músico inglês com o Cacique, no Xingu, em 1989.
Criado em 2023-01-02 23:31:11
Romário Schettino -
Com a insistência do PDT de Ciro Gomes e do MDB de Simone Tebet de permanecerem no pleito, a única possibilidade é a de levarem a disputa para o segundo turno entre Lula e Bolsonaro. A última pesquisa Data Folha enterrou de vez as pretensões da dupla Ciro e Simone, que encantava a terceira via.
Agora, ainda conforme a pesquisa, resta ao PT esperar pelo voto útil (e trabalhar por ele) para encerrar a eleição no primeiro turno. O PT tem que rearrumar suas estratégias nesse final de campanha com mais agressividade e respostas mais objetivas no campo da economia e das políticas sociais para o futuro.
A violência e os crimes eleitorais estão cada vez mais escancarados e o presidente Bolsonaro fazendo cara de paisagem ou estimulando todos os tipos de abuso.
Não é bom para a democracia brasileira esperar para ver até onde vão as ameaças de Bolsonaro e suas tropas civis e militares. O risco é muito grande.
Lula precisa liquidar essa fatura logo para dar tranquilidade ao país e Ciro Gomes, especialmente, tem que contribuir e parar de se aliar a Bolsonaro como vem fazendo. Os dois pontos que Ciro perdeu provavelmente foram para Bolsonaro.
O país está em suspense, mas ainda há esperança. O PDT e o MDB não podem ficar presos ás vontades de quem não tem compromisso com a liberdade e com fraternidade.
Criado em 2022-09-10 13:25:40
Antônio Carlos Queiros (ACQ) -
Na pátria das chuteiras são inevitáveis as metáforas do futebol nas análises dos fatos políticos, ainda mais se o centro das críticas é Lula, o corinthiano.
Falando da entrevista do virtual futuro presidente ao Jornal Nacional, Maria Cristina Fernandes, uma das melhores jornalistas do Brasil, colunista do Valor Econômico, tascou: “Lula entrou no jogo em busca de um empate, mas saiu com um saldo de gols”.
Há duas boas maneiras de medir a plausibilidade da avaliação de Maria Cristina. Uma, impressionista, baseada nas opiniões a sangue quente de coleguinhas que no passado foram críticos ferozes de Lula e dos governos do PT, como Merval Pereira, Vera Magalhães, Reinaldo Azevedo, Felipe Neto e Miriam Leitão. Todos eles e elas admitiram que Lula saiu-se muito bem na bancada do Jornal Nacional.
A outra forma de julgar a performance de Lula é mais científica, como fez o instituto de pesquisas Quaest, medindo o número de pessoas impactadas por postagens nas redes sociais durante a entrevista. O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, resumiu no Twitter o desempenho de Lula:
1) Na média, 15 milhões de pessoas foram impactadas com postagens sobre a entrevista durante a sua exibição;
2) A entrevista obteve a melhor média de postagens, em comparação com as de Bolsonaro (9 milhões) e a de Ciro Gomes (2 milhões);
3) Os três momentos de melhor desempenho de Lula: a) quando defendeu as medidas anticorrupção no seu governo; b) quando defendeu a aliança com o ex-governador Geraldo Alckmin; e c) quando defendeu que política não é lugar de ódio;
4) Os três momentos em que Lula se saiu pior: a) quando não respondeu sobre a lista tríplice para a escolha do Procurador Geral da República; b) Quando atacou Bolsonaro, chamando-o de bobo da Corte; c) quando disse que a solução para o orçamento secreto é conversar com os deputados;
5) Na média, considerando toda a extensão da entrevista, Lula obteve 48% de menções positivas, contra 52% de menções negativas. Foi pior que Ciro (54%) e melhor que Bolsonaro (35%);
6) “Bobo da Corte”, “orçamento secreto” e “combate à corrupção” foram as palavras mais citadas pelas pessoas que comentaram a entrevista.
Muitos sites de informação aprofundaram as análises, classificando as afirmações de Lula em “fake”, “fato” ou “não é bem assim”, para deleite da turma do “jornalismo adversativo”, na expressão de Thomas Traumann, jornalista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas.
Traumann, que já foi porta-voz da presidenta Dilma, escreveu: “Hoje é o dia das análises de jornalismo adversativo: “Lula foi bem no JN, MAS…” e aí o sujeito cita que ele não criticou a atuação do Murilo Benício em Pantanal, os erros do VAR no Brasileirão e a separação da Simone e Simaria. Francamente! A semana do JN era uma oportunidade única para os candidatos se mostrarem a 40 milhões de eleitores. Lula e Ciro aproveitaram. Bolsonaro, não. O resto é tentativa besta de doisladismo e escamoteamento da realidade”.
“Doisladismo”, no caso, é aquele princípio dos jornalistas relativistas, que não admitem a objetividade da verdade. Ora, no final das contas, futebol é bola na rede, e o Lula saiu da entrevista ao Jornal Nacional com um saldo de gols, como bem argumentou a Maria Cristina Fernandes.
Na minha própria opinião, um dos melhores momentos do bate-papo de Lula com o William Bonner e a Renata Vasconcelos foi quando ele afirmou que a polarização em política é positiva. O que não pode é o ódio, disse o virtual futuro presidente da República. Aqui Lula fiel à ideia clássica do liberalismo de que a democracia representativa é um campo de permanentes conflitos entre os times. Em oposição a esse princípio, há outro, o da paz dos cemitérios; obviamente, depois da eliminação dos adversários, tornados inimigos.
Lula mandou muito bem também quando, por exemplo, disse que Bolsonaro não manda porra nenhuma, refém que é do Centrão com o orçamento secreto; quando afirmou que o Ministério Público foi corrompido pela turma da Lava Jato (sem citar o nome do marreco de Maringá!); quando defendeu o MST (o maior produtor de arroz orgânico do País); quando disse que os governantes devem, mais que governar, cuidar do povo; e quando disse que “o povo brasileiro tem que voltar a comer um churrasquinho e uma picanha e a tomar uma cervejinha”.
Em resumo, Lula disse que, como já fez uma vez, durante os oito anos de seu governo, pode voltar a fazer, isto é, pode tirar o País do buraco econômico, social e moral em que Bolsonaro e os fascistas o meteram. Com um detalhe: por meio de processos democráticos, transparentes.
Aos 76 anos de idade, serelepe, Lula confirma ser mesmo um dos três maiores estadistas da história do Brasil, como diz o cientista político Christian Lynch. Os outros dois são Dom Pedro II e Getúlio Vargas.
Na noite da última quinta-feira, 26 de agosto, Lula estava tão inspirado na defesa dos mais fracos que, na resposta à falsa questão do “eu contra eles” formulada pelo Bonner, posicionou-se ao lado do Vasco da Gama: “A torcida do Vasco é nós e a do Flamengo é eles”.
Criado em 2022-08-27 02:24:49