"A vida é de quem se atreve a viver".


Cena de O Sétimo Selo, filme de Ingmar Bergman
Vamos falar sobre Ela?

Zuleica Porto -
 
“A modernidade elidiu a ideia da morte. É um dos fatores mais negativos de nossa sociedade. Deveria se ensinar às crianças na escola, da maneira mais natural, que temos que morrer”. Antonio Tabucchi, + 2012, em “Tristano morre”:
 
A verdade é que não gostamos muito de falar sobre ela, não é mesmo?. E no entanto, a partir do momento em que nascemos, temos um encontro marcado com a “indesejada das gentes”, como diz Bandeira em “Consoada”, um de seus poemas mais conhecidos.
 
O poeta viveu mais de 80 anos, muito mais do que prometia a tuberculose que contraiu ainda adolescente. Foi longo o seu convívio com a Dama Branca, a ponto de saudá-la com intimidade: “alô, iniludível”.
 
Num aparente paradoxo, tal proximidade com a morte o fez um grande amante da vida. É o que se percebe nos versos de “Não sei dançar”: “Sim, já perdi pai, mãe, irmãos. / Perdi a saúde também. É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band”.
 
A pulsão de vida presente inclusive no último alento, a vida que quer se perpetuar mesmo diante da morte, foi percebida pelo poeta durante a morte do seu pai, que ele presenciou e que relata numa das numerosas cartas que trocou com seu amigo Mário de Andrade: “O que se chama morte propriamente é manifestação de vida, e às vezes de uma intensidade prodigiosa. Pensei na agonia de meu pai. Todo o organismo intacto e rijo. Apenas – os canalículos renais não funcionavam. O último estertor foi um arranco desesperado para a vida. Eu senti! E estava debruçado sobre a boca dele”.
 
Encontro ressonâncias entre a voz do poeta e a do filósofo Paul Ricouer. Em “Vivo até a morte” ele medita sobre a morte e o luto, e sobre a nossa impossibilidade de representar onde estão e aquilo em que se tornaram os nossos próximos que morreram; de imaginar a nós mesmo mortos ou moribundos; e por fim, do caráter informe da massa indistinta dos mortos que são estatísticas, que pululam, abstratas, à nossa volta, nos jornais, tvs, meios digitais.
 
A impossibilidade de imaginar um além, a existência de um mundo oculto qualquer, diz Ricoeur, faz com que nossa finitude nos conduza para cá, para nosso mundo da vida, o único que temos – a vida de “aquém-túmulo” a que se refere Bandeira em um de seus poemas tardios.
 
Assim, o momento da agonia é visto, ao mesmo tempo, como de recusa e consentimento, recusa de deixar a vida que tanto amamos e a aceitação do desconhecido, do que virá quando “eu” não mais estiver.
 
Essa aceitação é o que Ricoeur chama a “boa disposição”, a despreocupação quanto a não estarmos mais, transferindo aos que ficam (e aos que virão depois) o nosso intenso desejo de viver.
 
A compreensão dessa aporia permite que nos entreguemos mais facilmente à fraternidade sóbria (quase franciscana, diz o filósofo) de ser por entre as criaturas.
Sendo por entre os outros, posso ser fraterno com cada ser que se vai, sabendo que um dia serei eu a necessitar da ajuda de outrem na passagem para o desconhecido.
 
Para ilustrar seu pensamento, Ricoeur recorre ao testemunho do escritor Jorge Semprún, que, prisioneiro junto com Maurice Halbwachs em Buchenwald, em 1945, acompanha a morte do autor de “A memória coletiva”:
 
“Então, num pânico repentino, ignorando se posso invocar algum Deus para acompanhar Maurice Halbwachs, consciente da necessidade de uma prece, contudo, com a voz embargada, digo em voz alta, tentando dominá-la, timbrá-la adequadamente, alguns versos de Baudelaire. É a única coisa que me vem ao espírito.
 
‘Ó morte, velho capitão, é hora, levantemos âncora...O olhar de Halbwachs torna-se menos vago, parece espantar-se. Continuo a recitar. Quando chego a ...os nossos corações que tu conheces estão cheios de luz,esboça-se um leve tremor nos lábios de Maurice Halbwachs. Sorri, morrendo, o seu olhar sobre mim, fraterno” (Semprún, em L’écriture ou la vie, 1994). Cogita Ricoeur que o “dar e receber” ainda está presente nos momentos finais de Halbwachs, no olhar e sorriso fraternos que lança ao amigo.
 
As diversas tradições religiosas têm seus rituais de acompanhamento aos agonizantes: os católicos, a “extrema unção”, os santos óleos com que os sacerdotes ungem as frontes dos que estão partindo; os judeus, o Kadish, os budistas o Bardo Todol, com todo o ritual detalhado de acompanhamento do morto, em seu caminho de além-túmulo, pelos mais próximos.

Os gregos antigos colocavam na boca do morto as moedas necessárias para pagar o barqueiro Caronte na travessia do Letes, o rio do esquecimento.
 
Em todos, a percepção de que um dia precisaremos de quem nos providencie os santos óleos ou as moedas para a travessia, que nos diga o Kadish ou o Bardo.
 
A intimidade com a Morte, tão presente na poética de Bandeira, está retratada em “O Sétimo Selo” (Ingmar Bergman, 1956); o Cavaleiro joga com Ela uma partida de xadrez, na tentativa de ganhar tempo para meditar sobre o sentido da vida e da morte.


Partida perdida, pois no filme só escapam os artistas mambembes, numa cena inesquecível e emblemática, como a nos dizer que do fim só escapamos pelo que legamos aos próximos – arte, pensamentos e ações de quem é entre os outros.
 
Essas reflexões me ocorreram durante a semana em que presenciamos as lamentáveis manifestações de júbilo que acompanharam a partida da Senhora Marisa Letícia Lula da Silva, companheira do que foi por oito anos Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.
 
Antes que tudo aquilo que assombrou nossa alma caia no esquecimento, quero terminar com opoema que me deu o título acima. Ele envolve dois grandes nomes da nossa literatura, os dois mortos, os dois presentes no que temos de melhor legado para os que virão.
 
Contam de Clarice Lispector (João Cabral de Mello Neto):

“Um dia Clarice Lispector / Intercambiava com amigos / Dez mil anedotas de morte,/ E do que tem de sério e circo. / Nisso, chegam outros amigos / Vindos do último futebol, / Comentando o jogo, recontando-o, / Refazendo-o de gol a gol / Quando o futebol esmorece, / Abre a boca um silêncio enorme / E ouve-se a voz de Clarice: / Vamos voltar a falar sobre a
morte?”

Vamos?

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