“Maldito é o soldado que aponta sua arma para o seu próprio povo".

 Simón Bolívar


Peliano: "Em Saigon não se via miséria, ninguém pedindo esmolas, via-se gente vendendo produtos a pé em cima de bicicletas etc..."
Vietnam e não vi miséria, retrocesso e pessimismo

José Carlos Peliano(*) -

No sudeste asiático, península da Indochina, situa-se o Vietnam, um país pequeno limitado ao norte pela China, ao sul pelo mar da China, ao leste pelo Golfo de Tonkin e a oeste pelo Laos e Camboja.

Depois de quase 24 horas de voo dos que moravam no Brasil desde o Rio de Janeiro, indo até Paris e de lá a Saigon, sem contar outras horas de espera nos aeroportos, chegamos e nos juntamos a outros vindos de outros lugares num grupo amigo de 20 pessoas para conhecer de perto o país que sofreu 30 anos de guerra, incluindo a invasão americana, mais além da longa ocupação anterior francesa.

Por que o Vietnam? Para os mais velhos do grupo, que acompanharam à distância, dia a dia, pelos rádios e jornais as iniquidades e os horrores do conflito com os invasores, foi uma espécie de resgate histórico e emocional ao rever o pequeno país que pôs os Estados Unidos em retirada sem ter conseguido derrotar o povo vietnamita, embora tivesse produzido na região estragos irreparáveis.

Para todos do grupo, especialmente os mais novos, foi o prazer de conhecer um modo de vida diferente e diverso do ocidental nos hábitos e costumes de alimentação, na maneira de se vestir, se cuidar e cumprimentar e se despedir a quem quer que seja.

Além de desfrutar das cidades especiais, Saigon, Hoi An e Hanoi, do longo passeio de barco pelo rio Mekong, das vilas agrícolas visitadas, das praias de Phu Quóc e das exuberantes elevações de Ha Long Bay.

Aos que completaram todos os dias previstos ficou a impressão rica e majestosa de um povo forte, batalhador, gentil, alegre e acolhedor. Com uma visão de futuro, de superação e realização de dias melhores para o país.

Não se esqueceram do passado, estampado com trágicas fotos e artefatos no museu da guerra, na manutenção para visitação dos túneis usados para defesa e fuga e em alguns livros escritos, particularmente por militares que estiveram presentes nos conflitos.

Mas não ficaram por lá no passado se lamentando, se deprimindo e alimentando ainda hoje uma ira e vingança sem tamanhos. Embora com parte ateia significativa, ajudou na postura de paz com a vida a permanência do espírito religioso primitivo (cerca de 45% da população), que é seguido em cultos e atitudes, junto a outros credos menores, como o budista e católico.

Claro que esses comentários vêm de um turista ávido de informações e impressões, o que os torna uma amostra pessoal, restrita, somada aqui e ali com o que viram os demais do grupo.

De todas as formas, é evidente por que salta aos olhos, trata-se de uma população que transita bem entre redutos dos tempos idos com a exuberância dos tempos atuais, estampados nos edifícios de recortes modernos, nos veículos dos vários modelos da atualidade e nas facilidades tecnológicas contemporâneas.

E isso tudo ocorrendo hoje em um país que foi arrasado física, mental, moral, psicológica, econômica e financeiramente por conflitos brutais que se arrastaram por longos períodos.

Milhões de vietnamitas mortos (estimativas entre 1,1 milhão a 3 milhões), outros tantos feridos e incapacitados. Milhões de vidas ceifadas ainda no começo, na meia idade e no apogeu perto do fim.

Ainda está em meus olhos a foto icônica, estampada na época por todas as mídias mundiais, da menina vietnamita correndo, atônita, chorando e gritando, nua, fugindo de um ataque de napalm, quando sua vila foi atacada por fuzileiros americanos. A foto se destaca em tamanho ampliado na sala dos horrores da guerra do museu situado no antigo prédio presidencial de Saigon.

Em minha viagem, não se via miséria nas ruas de cidades ou vilas do interior, ninguém estendendo a mão pedindo esmolas ou ajuda de qualquer espécie. Via-se o que se pode chamar de pobreza, à falta de um nome melhor, para designar aqueles que viviam pelas ruas vendendo pequenas coisas ou comidas esparramadas em determinados cantos das calçadas, ou em diminutos expositores localizados em cima de bicicletas, carrinhos de mão ou carregadores de caixas.

Mas todos vestidos dignamente com roupas simples, fisionomias tranquilas, disposições físicas normais, acompanhados ou não de filhos e maridos. Ah! Esta uma característica dominante na sociedade vietnamita, a maioria dos que se valem do comércio e serviços para sobreviver é composta, administrada e dirigida por mulheres. Estaríamos em meio a um matriarcado moderno?

Incrível a quantidade de pequenas lojas e negócios por toda Saigon, Hanoi, Hoi An e as demais vilas por onde se passava para chegar de um ponto a outro. Em quase todas elas via-se construções variadas, muitas, em pleno desenvolvimento, apinhadas de trabalhadores, embora mecanizadas com máquinas e equipamentos modernos. Um país em plena expansão, sem retrocesso. Por isso mesmo, sem sinais de pessimismo. Um futuro promissor à frente.

Sob um regime comunista com características próximas à China, administração descentralizada, mas com monitoramento e acompanhamento central. Do lado da economia, os negócios funcionam à moda capitalista, todos podem ser proprietários privados de suas atividades, havendo milhares de pequenas empresas em meio a grandes grupos econômicos.

E o país segue em frente com uma população de 93 milhões de habitantes (pouco menos da metade da população brasileira), apresentando um dos menores índices de desigualdade do mundo – coeficiente de Gini de 0,35 apurado em 2014. Enquanto isso, o Brasil registra quase o dobro, algo em torno de 0,60, nos últimos anos e com sinais agora de piora.

Outro resultado positivo da evolução vietnamita é a quantidade de pessoas ditas na pobreza, de 17,2% da população em 2010 para 11,6% em 2014 – a medida é feita por pessoa que recebe menos de US$ 60 por mês, equivalente hoje a R$ 220,00.

Embora possa parecer baixo o valor, deve-se ter em conta que os produtos em geral são mais baratos que aqui, o custo de vida não é excessivo, em torno de 8% ao ano e baixando anualmente, e com forte ação do governo em políticas sociais (saúde, educação e moradia), segundo informações de habitantes e do banco de dados do Banco Mundial. Aliás, os recursos direcionados pelo governo para ajuda aos mais pobres vêm de tributos cobrados das classes mais abastadas.

A economia contribui de forma significativa para esses bons resultados, ao registrar um crescimento médio de 5% nos últimos cinco anos, o que tem permitido não só a criação de empregos formais urbanos, mas também a melhoria da produtividade na área rural.

Quem ganha ao fim e ao cabo é a própria sociedade vietnamita quando se verifica que a expectativa de vida do cidadão veio de 71 anos em 1992 para 75,9 anos em 2015. E mostra ao mundo o poder de um povo que saiu das ruínas para a reconstrução robusta e bem sucedida, atuando em conjunto com um governo que tem atuado em nome do povo, pelo povo e para o povo. Ao contrário do que faz o desgoverno atual do Brasil.

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(*) José Carlos Peliano é economista, poeta e escritor.

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