"A distância social mais espantosa no Brasil é a que separa e opõe os pobres dos ricos.
A ela se soma, porém, a discriminação que pesa sobre negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros".

Darcy Ribeiro


"Outubro”, de China Miéville (Boitempo). é uma narrativa de tirar o fôlego dos meses que antecederam a Revolução Russa
1917, outubro – nada será como antes

João Lanari Bo -

Fazer a cronologia dos eventos históricos significativos é uma tarefa que pode ser burocrática, repetitiva – o tempo todo nos deparamos, na imprensa e na TV, com algum gráfico, com alguma contagem de tempo que busca elucidar tendências, explicar variações ou simplesmente confirmar suspeitas.

A História – com H maiúsculo – parece organizar-se em um fluxo diacrônico, linear, pontuada por inflexões aqui e ali, que sugerem um percurso lógico e compreensível.

Em alguns momentos, entretanto, a coisa definitivamente não funciona. A inversão brusca das condições desmonta os sujeitos da história: 1789 em Paris foi um deles, a Bastilha caiu e com ela a ordem divina e aristocrática que definia a França (e a Europa); 1917, em São Petersburgo, foi outro, mais radical ainda, demolidor do poder autocrático e absoluto do maior império do planeta, a Rússia.

Para celebrar o centenário dessa vertigem histórica comunista, o escritor inglês, China Miéville, foi fundo: coligiu um incrível repertório de depoimentos e informações, deglutiu tudo e escreveu “Outubro”, lançado mês passado pela Boitempo Editorial. O resultado é uma narrativa, de tirar o fôlego, dessa fenda histórica que foram os meses de fevereiro a outubro de 1917 na (alucinada) cena russo-soviética. Sincero, porém radical.

Miéville, que se autodenomina um autor “new weird”, escreve também ficção científica e história em quadrinhos, sempre nesse clima “estranho”.

Nas horas vagas completou doutorado em filosofia do direito internacional na London School of Economics. Com um background desses, não surpreende que tenha transitado com desenvoltura no espaço teatral de alta voltagem que foi a revolução bolchevique.

Primeiramente, montou a história com uma hábil mescla de incontáveis dados objetivos – reuniões e conferências, além de manifestações de rua e pancadaria, mortos e feridos.

Desde o século 19 a Rússia vinha experimentando forte expansão urbano-industrial, a despeito da permanência do imenso contingente rural, jogando uma pressão violenta sobre o anacrônico sistema político vigente, onde se destacava a insuperável estupidez do Czar Nicolau II. O regime petrificado na estatutária monumentalista imperial desmoronava a olhos vistos.

Em seguida, peneirou essa miríade de eventos e situações com uma sofisticada base de interpretação histórica, arrolando aí os grandes autores, de diferentes matizes ideológicos, que se debruçaram sobre o tema. Essa camada resta praticamente invisível no texto, mas fica perceptível sua importância na lista das obras e artigos apresentada ao final do volume, para deleite posterior do leitor. Erudição ao alcance de todos.

Finalmente, Miéville cruzou esse manancial com os indispensáveis e saborosos testemunhos oculares da história, seja das grandes estrelas, seja dos fascinantes coadjuvantes, à esquerda e à direita.

Aqui, o perfil de escritor “weird” valeu: é inegável seu talento em alternar famosas declarações públicas, pronunciadas em acalorados debates e que definiram os rumos da história, com comentários e momentos privados, reveladores do substrato psicológico dos personagens e interações.

O objetivo é claro: tornar a leitura atraente e empolgante, e evitar a enfadonha repetição de palavras de ordem.

O principal protagonista dessa epopeia arrasadora é sem dúvida Wladimir Ilych, Lênin para as massas, o extraordinário estrategista cuja determinação e foco obsessivo foram essenciais para a virada de 1917.

A despeito da incontornável simpatia exibida por Miéville, sua descrição dos fatos é tão minuciosa que as (poucas) vaciladas do estressado líder aparecem indisfarçáveis. Prevalece sua notável capacidade de prever e antecipar movimentos políticos, na maioria das vezes no sentido de acelerar a tomada do poder e ignorar esdrúxulas composições parlamentares – mas que também podiam ser gestos inexplicavelmente cautelosos, atrasando a marcha dos acontecimentos. Não é à toa que era um exímio jogador de xadrez.

Seu contraponto dramático é o histriônico Kerensky, o malfadado político de “centro” que foi Primeiro-Ministro entre julho e outubro de 1917, enfiou os pés pelas mãos e ganhou visibilidade global através do filme de Sergei Eisenstein (também nomeado como “Outubro”, feito em 1927). A princípio político esperto e bom orador, terminou tentando se equilibrar entre o insustentável e o inefável, sendo inapelavelmente tragado pela vertigem dos acontecimentos.  Deixou um rastro cômico-trágico de tonalidade shakespeariana pelo papel que desempenhou, e acabou fugindo da Rússia vestido de marinheiro.

Mas o melhor é mesmo a galeria dos personagens secundários, todos eles protagonistas em seus instantes iluminados, graças à sagacidade da construção narrativa. Os matizes são estupendos: dos velhacos contumazes aos oportunistas de plantão, dos destemidos suicidas aos medrosos irreparáveis, todos eles comparecem e iluminam, ainda que em pequenos fragmentos, o tornado histórico que foi a revolução soviética.

Claro, alguns dos secundários incluem-se entre as mentes mais brilhantes da época, como Leon Trotsky, definido por Miéville na seguinte frase: “é difícil amar Trotsky, mas é impossível não admirá-lo”.

Um dos méritos de “Outubro” é evitar ao máximo a discussão sobre os desdobramentos de 1917, obviamente polêmicos e complexos. Não interessa ao autor a polarização ideológica que se alastrou, sobretudo até a queda do muro em Berlim e o fim do comunismo como ditadura do proletariado.

O que interessa é muito mais expor para as novas gerações a virulenta negatividade daquele momento histórico, a torção que inverteu da noite para o dia uma ordem social patética e obsoleta, por mais inacreditável que possa parecer.

Um momento “weird” e estranho, sem dúvida.    

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