“O saber a gente aprende com os mestres e os livros.

A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes”.

Cora Coralina


Maria Verdi, convidada para o 1º Fórum BRICS de Literatura, de 15 a 19/12, na Universidade Normal de Pequim
Poesia e cinema brasiliense têm presença no 1º Fórum BRICS

Angélica Torres -

Evento literário é realizado na China, de 15 a 19 de dezembro, na Universidade Normal de Pequim, na cidade de Zhuhaj.

Se poesia não vale o que pesa, no mercado de consumo geral, é sintomático que os chineses a tenham incluído no 1º Fórum BRICS de Literatura, em realização, desde o dia 15 até 19/12, na Universidade Normal de Pequim, na cidade de Zhuhai. Poetas brasileiros, de Gregório de Mattos aos atuais, que se comprometeram com a resistência política, foram o foco de uma das palestras do debate bilateral, que incluiu a poesia brasiliense.

Da delegação brasileira, a poeta Maria Lúcia Verdi, convidada para essa tarefa pela atuação que teve na interface cultural Brasil-China durante os cinco anos que viveu em Pequim, contou do sucesso de sua apresentação, nos dois primeiros dias do encontro.

“Meus dois papers foram muito bem recebidos, porque considerados oportunos e úteis. No primeiro dia, das três perguntas vindas do público, duas foram para escritores chineses e uma para mim, a única dos estrangeiros que pode voltar a dizer algo, o que me alegrou muito”, contou.

Malu Verdi levou livros de poetas de Brasília e a coleção de documentários da cineasta Maria Maia sobre personagens da cultura brasileira, para presentear as bibliotecas da Universidade Normal e da Federal de Pequim. “Quem sabe disso resulta uma publicação bilingue de poesia brasiliense e chinesa?”, anima-se.

Organizadora em Brasília do projeto Poesia do Mundo, Malu Verdi já levou ao palco as poesias chinesa, alemã e argentina.

O último homenageado pelo projeto foi o mineiro-brasiliense Francisco Alvim, às vésperas de completar 80 anos de vida e com mais de 50 de exercício como poeta. Alguns dos livros do poeta estão agora integrando as estantes das universidades chinesas.

Na delegação brasileira estão também os professores João Cesar de Castro Rocha (UERJ) e Francisco Foot Hardman (Unicamp).

O tributo a Chico Alvim em Poesia do Mundo

A homenagem a Francisco Alvim, no contexto do projeto Poesia do Mundo, promovido por Maria Lúcia Verdi, foi feita em fins de novembro no OVNI de Oscar Niemeyer pousado na Esplanada dos Ministérios -- o Museu da República Honestino Guimarães.

Mais do que um tributo ao poeta, a sessão acabou se caracterizando como um manifesto, ou um ato de resistência, ou uma catarse à mineira, porque a poesia de Alvim em seu substrato é, por si, um retrato das idiossincrasias humanas e das instituições do país. Que dirá se lidas e ouvidas tendo como pano de fundo o aviltante atual estado de coisas políticas.

A escolha e leituras dos poemas por João Lanari, Nicolas Behr e Malu Verdi -- com o próprio poeta também à mesa fazendo comentários e contrapontos -- pegaram a plateia de jeito. Embora autor de mais de uma dezena de livros, laureado duas vezes com o Jabuti (em 1981 e 1988) e acarinhado pela mídia nacional, naturalmente que nem todos conhecem de fato a poesia de Chico Alvim e nem captam, à queima-roupa, o efeito da intrigante e crua arquitetura do seu verso-chiste, sutilmente cáustico, cínico, seco, incômodo.

Tomando emprestado de Guimarães Rosa em Sagarana, “raspe-se um pouco o mineiro; por baixo, encontrar-se-á o político”, pode-se traduzir a sorrateira, crua, irônica perspicácia de Alvim nos “causos” que ele ouve em diferentes ambientes, ou que cria, e verte para a esquálida estrutura do seu poema. Como neste intitulado “Velhos”: --Tudo bem, patrão? / (O dedo de leve na pala do boné / o corpo franzino e baixo/ ruindo para um lado) / -- Tudo bem, obrigado. / -- Obrigado.

Também em “Passamentos”: -- Coragem, Presidente! / -- Coragem não me falta. / O que me falta é ar.

Ou ainda neste brevíssimo, onde o óbvio é quase imperceptível, cujo título é “Quer ver?”: Escuta.

Neste outro, “Vida de artista”, a chave da mineiridade é posta na mão do leitor – aqui, no caso, da plateia ouvinte, que riu aliviada: Meu tio/ levou a vida que sempre quis -- / era funcionário público / e nem a mulher sabia.

Claro que a porção lírica do poeta atenua esse lado perturbador de sua poesia para os menos afeitos ao gênero, mas reconhecidamente revolucionário para os mais habituados e para os críticos. Entre esses, que foram lidos por Malu Verdi, está o imagético “Castália”.

Nunca mais / o encontro da água com o vento / nos pelos verdes da terra / A morte será o avesso do vale/ o galope silenciado dos antigos cavalos / o avesso do templo / e do homem que nele amanhecia -- / água que tudo secasse.

Diplomata de carreira, Chico Alvim não de intimidou em cutucar, com vara curta e elegância blasé, os da vez no poder. Entre outros, citou a desfaçatez de Geddel (Vieira) e disse de (Sérgio) Moro: “Este, então, acha-se o todo-poderoso, acima de todas as verdades”.

Ao final, saiu-se com outro puxão de orelhas: “Devíamos trocar os dizeres da bandeira brasileira por ‘desculpa qualquer coisa’, expressão que todos temos que adotar também e passar a nos dizer uns aos outros”.

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