No próximo dia 26 de julho comemora-se o Dia dos Avós, por causa de Santana e São Joaquim, avós maternos de Jesus, que não teve avós paternos, coitado!
Sabe o avô paterno de Jesus? Então…

Antônio Carlos Queiroz (ACQ) –

Trivial os filhos sem pai buscarem os genitores. Pois eu conheci um, Juca Rebelo, que tinha interesse em conhecer o avô. Não era só interesse, era uma fissura, que acabou deixando sequelas vida afora, a ponto dele buscar o socorro de um analista.

O Juca era um rapaz vivo, inteligente, estudava biologia na UnB. Loiro com cara de índio. Tinha vindo de Itacoatiara, no início dos anos 80. A mãe, dona Miriam, era bisneta de um cearense que foi pro Amazonas na época da guerra para extrair borracha. Solteira, criou o filho com mimos e carradas de livros, que o padre Gabriel emprestava. Gabriel era o nome de guerra do missionário scarboro canadense Edward Paul McGaughys

Na escola, o Juca sofria bullying (sem esse nome na época) dos coleguinhas que o chamavam de filho do boto. Como não era o único, engolia as sacanagens, acabou se acostumando. Mas encasquetou que precisava de um avô. O da mãe já tinha morrido há tempos. Mas e o do pai? Como é que ele podia viver sem um velhinho para lhe contar as histórias dos jaraquis que pulavam sobre as canoas afundando-as no meio dos igarapés, com jacarés na espreita, muito mais sensacionais que os contos de assombração? 

 De vez em quando ele atazanava o padre Gabriel com a ânsia avoenga. O santo rapaz, que fazia as vontades do menino, fintava a dúvida com argumentos evasivos, cada vez mais criativos, e até filosóficos, sobre a virtude da aceitação das perdas. Em vão, a essa altura, depois de ler tantos livros, o moleque já tinha sido mordido pela sucuriju do ceticismo científico, não era qualquer lorota que podia enganá-lo. Sim, naquele tempo ele já vinha fuçando a vida dos quirópteros, o assunto que o levaria anos depois para Brasília.

Um dia, acuado, o padre teve que apelar para um argumento de autoridade. Do alto de sua teologia disse que não ter um avô paterno era uma das qualidades que o Juca tinha com Nosso Senhor Jesus Cristo. Coitado, Ele tinha sido gerado pelo Espírito Santo, pai de si mesmo. Daí que acabou tendo um avô emprestado, o pai de José, de nome Jacó, segundo Mateus, ou Eli, segundo Lucas.

Longe de satisfazer o moleque, a alegação piorou a situação. Ora, rebateu o Juca, eu não sei do meu avô porque não conheço o meu pai, que morreu ou está sumido no mundo, mas ele nunca foi um espírito, muito menos santo, e é claro que teve ou tem orelhas! Vermelho como pimentão, o padre engoliu em seco, deu uma desculpa esfarrapada e saiu de fininho.

Desde então o Juca passou a sonhar com o Espírito Santo em forma de morcego, para gáudio de seu futuro analista. Ah, ele sumiu, nunca mais o vi.

Você não tem direito de postar comentários

Destaques

Mais Artigos