"A vida é de quem se atreve a viver".


Marcos Bagno: "A colonização pronominal é um reflexo, nos usos da língua, das enfermidades crônicas da sociedade brasileira que, neste exato momento, é comandada por uma penca de senhores brancos que representam o que existe de mais torpe, abjeto, criminoso, corrupto, reacionário, genocida e retrógrado na vida nacional".
A colonização pronominal

Marcos Bagno -

Não, você não leu errado: é “colonização pronominal” mesmo. Vou tratar aqui da velhíssima questão da colocação pronominal, mas numa visão diferente da habitual: além de linguística, também e principalmente ideológica. Faz quase duzentos anos que se discute essa questão no Brasil. Alguém já disse que nenhum outro tema gramatical fez derramar tanta tinta. Mas por que tem sido assim?

A resposta é muito simples: somos uma sociedade que até hoje não se livrou de seu passado colonial. Nem podia ser diferente, já que a nossa “independência” foi proclamada por ninguém menos do que o representante da Coroa portuguesa no Brasil, alguém que mais cedo ou mais tarde ia herdar de qualquer modo a coroa e todo o gigantesco império que vinha junto no pacote. Tudo o que D. Pedro fez foi acelerar o processo.

Ao contrário das outras colônias ibéricas no continente americano, o Brasil foi o único Estado recém-criado no período que se tornou uma monarquia, e uma monarquia absolutista, enquanto todos os outros se tornaram repúblicas, dominadas pelas oligarquias locais, é verdade, mas ainda assim uma novidade política para a época. Isso diz muito sobre o que tem sido a vida por aqui.

A falta de ruptura efetiva com o passado colonial se evidencia até hoje em todos os mínimos aspectos das nossas relações sociais, a começar pelos comportamentos escravagistas das nossas classes médias e altas, responsáveis por manter o Brasil no alto da lista dos países com as maiores desigualdades de renda do mundo, junto com uma exclusão social cuidadosamente mantida para assegurar o máximo de privilégios a uma minoria branca que se enfurece à mais remota menção de uma redistribuição mínima dos bens sociais.

Pois a mentalidade colonizada também opera na nossa cultura linguística. E o melhor exemplo disso é a famigerada colocação pronominal. As descrições do emprego dos pronomes oblíquos que a gente encontra nas gramáticas de inglês, italiano, francês, espanhol e português europeu correspondem aos usos reais da ampla maioria das populações que falam essas línguas.

Só no Brasil, e não por acaso, é que aquilo que vem nas gramáticas não corresponde em absolutissimamente nada do que realmente se fala por aqui. Somos o único povo que precisa “aprender” a colocar seus pronomes no lugar “certo”.

Nossos gramáticos mais conhecidos são nada mais nada menos do que mentirosos. Mentirosos, sim, embusteiros, farsantes, fraudulentos, hipócritas, impostores, loroteiros, ludibriadores. Basta abrir, por exemplo, a gramática de Rocha Lima. O que aparece lá? Isto: “A posição normal dos pronomes átonos é depois do verbo (ênclise)”.

Normal para quem, cara-pálida? Mentira! Mentira também o que aparece na gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra: “Sendo o pronome átono objeto direto ou indireto do verbo, a posição lógica, normal, é a ênclise”. Se isso é lógica, eu sou o rei da França, e olha que a França nem rei tem!

Essas afirmações dos gramáticos são o que estou chamando aqui de “colonização pronominal”. Elas tentam enfiar o português brasileiro na fôrma estreita de uma “língua portuguesa” abstrata, genérica, uniforme, um modelo idealizado, artificial, baseado numa seleção restrita de usos feitos pelas classes sociais mais letradas de uma região específica de Portugal, em cujo centro está, não por acaso, a capital, Lisboa.

Na língua falada por essa fração da população de Portugal, a ênclise é, realmente, a colocação “normal” dos pronomes oblíquos. Mas nem sempre foi assim.

Durante muitos séculos, antes e depois que os portugueses começaram a invadir outras terras e a escravizar outros povos, foi a próclise (o pronome antes do verbo) que dominou a língua falada e escrita. A partir do final do século 16, porém, o português europeu começou a sofrer diversas mudanças em sua estrutura, e essas mudanças acarretaram a transformação da ênclise (o pronome depois do verbo) na colocação preferencial, “normal” da língua dos portugueses. Essas mudanças não afetaram o português brasileiro. A nossa língua também mudou muito de 1500 para cá, mas as mudanças aqui seguiram rumos diferentes das de lá.

É aí que entra a colonização pronominal. Nossa cultura linguística tem sido profundamente marcada por uma rejeição categórica de tudo o que é caracteristicamente nosso em  termos de uso da língua. Mudanças já plenamente enraizadas no português brasileiro, inclusive o uso das camadas sociais privilegiadas, mudanças que podem ser tranquilamente explicadas por boas teorias linguísticas, continuam a ser consideradas como puros e simples “erros”, pelo fato de que não é assim que os portugueses de Lisboa e Coimbra falam.

Os linguistas brasileiros já provaram, comprovaram e recomprovaram que só existe uma regra de colocação pronominal na nossa língua: a próclise ao verbo principal. Isso nos leva a iniciar frase com pronome oblíquo, exatamente como fazem os falantes de espanhol e italiano: “Me→esqueci de apagar a luz”. Nos leva também, em locuções verbais, a deixar o pronome sempre antes do verbo principal: “Quero te→abraçar”, “ele tinha se→comprometido a vir”, “eu ia lhe→telefonar” etc. Uma única regra, uma só, uminha. Que não precisa ser ensinada porque todo mundo fala assim no Brasil.

Mas a mentalidade colonizada dos nossos mais respeitados gramáticos impede que eles se rendam à verdade nua e crua dos usos autênticos do português brasileiro. E toca a fazer prescrições que contrariam frontalmente a intuição linguística de qualquer criancinha brasileira de quatro anos de idade.

O resultado da colonização gramatical, junto com um dos piores sistemas educacionais do universo conhecido e desconhecido, é a doentia insegurança linguística que tantas pessoas experimentam na hora de escrever (e de falar em situações mais formais).

Como nosso uso espontâneo, lógico e natural é a próclise, então ela deve ser um “erro”, já que todos os usos espontâneos, lógicos e naturais do português brasileiro são “desvios” de uma “norma culta” mítica e inalcançável, que só os portugueses dominam.

E aí topamos com coisas que contrariam tanto o uso normal quanto as prescrições tradicionais. Coisas como “tenho encontrado-a”, com ênclise ao particípio passado, algo que não existe em nenhum lugar do mundo onde se fala português. Ou “encontrarei-me”, idem ibidem. Ou ênclise depois de palavras negativas “não conheço-a”, “nunca explicou-me”, que são exemplos perfeitos de hipercorreção, a tentativa de “acertar” demais que acaba redundando em erro puro e simples.

A colonização pronominal é um reflexo, nos usos da língua, das enfermidades crônicas da sociedade brasileira. Uma sociedade brasileira que, neste exato momento, é comandada por uma penca de senhores brancos que representam o que existe de mais torpe, abjeto, criminoso, corrupto, reacionário, genocida e retrógrado na vida nacional. E, chefiando a máfia, um energúmeno e pusilânime fantoche que, para deleite da classe média burra, se esmera no uso da mesóclise, uma colocação pronominal que cheira a formol, como também cheira o morto-vivo que se vale dela.


 

 

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