“Maldito é o soldado que aponta sua arma para o seu próprio povo".

 Simón Bolívar


“The Post” e os mundos diferentes

Romário Schettino -

Para ver “The Post – A guerra secreta” é preciso relativizar a defesa veemente da liberdade de imprensa feita pelo filme de Steven Spielberg. EUA e Brasil são mundos bem diferentes em se tratando deste assunto.

O fato de os dois maiores jornais impressos nos EUA, The Washington Post e New York Times, terem enfrentado várias tentativas de cerceamento da liberdade de imprensa no caso das revelações de documentos secretos sobre a Guerra do Vietnam não nos permite achar que no Brasil a grande imprensa esteja, ou esteve, igualmente sob ameaça. Ou que tenha cumprido papel relevante na defesa da liberdade de expressão.

A história mostra que a grande imprensa brasileira sempre compactuou com as oligarquias, com a repressão e com os golpes militares ou civis. Essa prática já foi confessada pelos próprios veículos como se quisessem se penitenciar dos “erros” editoriais.

“The Post” está fazendo sucesso nos cinemas, a ponto de alguns espectadores gritarem ao final de algumas exibições: “Viva a liberdade de imprensa”. Alguns jornalistas da grande imprensa no Brasil buscam no exemplo retratado no filme algum tipo de apoio para o “trabalho de resistência” que exercem diante dos ataques e críticas surgidos nas redes sociais. Jornalista brasileiro odeia ser criticado, mas adora criticar tudo e todos, sem direito a réplica.

Os menos avisados não entendem a diferença quando se procura distinguir o jornalismo impresso (entes privados) das concessões públicas, que são os canais de rádio e televisão. Está fora do alcance do senso comum compreender essa diferença por falta de informação que os próprios meios de comunicação evitam divulgar. No Brasil, além da concentração da propriedade em poucas mãos, situação jamais vista em nenhum outro lugar do planeta, há o regime da propriedade cruzada. Ou seja, a mesma empresa é dona de rádio, TV, jornais, revistas, sites etc. na mesma cidade.

O filme conta, em resumo, que no seu mundo capitalista (tanto de lá quanto de cá a situação é igual), a dona do The Washington Post, Kat Graham (Meryl Streep), está prestes a lançar suas ações na Bolsa de Valores para se capitalizar quando o seu editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks), ávido por alguma grande notícia que possa fazer com que o jornal suba de patamar no sempre acirrado mercado jornalístico, descobre que o concorrente New York Times ia iniciar uma série de matérias denunciando que vários governos norte-americanos mentiram acerca de sua possível derrota na Guerra do Vietnã, tendo como fonte documentos sigilosos do Pentágono.

O presidente Richard Nixon decide processar o jornal com base na Lei de Espionagem, para que nada mais seja divulgado. Em tempo: a mesma providência foi tomada contra o site WikLeaks e, por causa disso, Julian Assange está exilado há anos na embaixada do Equador em Londres.

A proibição pedida por Nixon é concedida por um juiz e o New York Times suspende a publicação. Os documentos chegam às mãos de Bradlee e sua equipe, que convencem Kat e os demais responsáveis pelo The Post sobre a importância da publicação de forma a defender a liberdade de imprensa. A Suprema Corte foi acionada e os jornais (viva!) ganharam a parada.

A propósito dessa discussão, o professor de linguística da UnB Marcos Bagno, depois de ver o filme, publicou em sua página no Facebook, o seguinte comentário: “O que sempre me chama a atenção, nesses filmões hollywoodianos que fazem alguma "crítica" ao funcionamento do sistemão estadunidense, é que nunca se critica ou se contesta o sistemão em si, mas apenas algum elemento pontual que estaria maculando a democracia perfeita e inoxidável que configura(ria) os EUA. Fala-se mal de Nixon, mas não se fala mal da "coisa em si", porque a "coisa em si", o capitalismo predatório, o imperialismo sanguessuguinário, a democracia de araque, a manipulação escrota da ordem mundial... nada disso é contestado”.

Ainda segundo Bagno, “O problema não é a guerra do Vietnã, que ninguém contesta em nenhum momento do filme, já que combater os comunistas era a grande missão, mas o fato de o governo saber desde sempre que ela estava perdida e não contar isso pro povo. E haja blablablá sobre a liberdade de imprensa e a sacrossanta primeira emenda da Constituição. E a frase bombástica no final: "A imprensa não é feita para os governantes, mas para os governados".

É isso. Vá ver o filme, depois me conte se não temos, eu e o Marcos Bagno, razão.

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